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Em modo de auto-reflexão

14 Nov

Keep Calm and Love PsychiatryHoje partilho convosco algumas reflexões sobre aquilo que é o meu dia a dia profissional.

Ser médico psiquiatra é algo que me transporta por emoções, histórias e caminhos sempre diferentes. Cada caso que sigo, cada pessoa que conheço, cada situação, leva-me a patamares de conhecimento (e autoconhecimento) pelos quais só posso estar grato.

Nas minhas consultas já vi e ouvi muita coisa. Este é, talvez, um dos maiores privilégios de trabalhar na área da saúde mental, a riqueza de histórias e de experiências a que temos acesso através das pessoas (e das famílias) que me consultam. Talvez isto se deva a um “atraso” na evolução da especialidade (ou não), mas muita da informação que preciso de recolher para tomar decisões médicas só é obtida num espaço de relação intimo entre paciente e terapeuta, para qual é necessário tempo e no qual há pouca interferência de máquinas, computadores ou exames.

Por vezes as situações são complicadas, por vezes são fáceis… Por vezes quase apetece pegar o paciente ao colo, enquanto outras vezes a pessoa que está à nossa frente desperta em nós sentimentos mais negativos… Claro que em qualquer dos casos o psiquiatra (ou qualquer outro terapeuta nesta área) se entrega, embora seja necessário criar o distanciamento emocional (na medida certa) que o doente precisa para se sentir seguro e à vontade na relação. Mas não duvidem que se sente muita coisa, e às vezes, depois de um dia de consultas parece-me que andei numa montanha russa de emoções.

Algumas situações resolvem-se numa consulta, outras precisam de seguimentos de anos. A diversidade é a norma na psiquiatria, daí a necessidade de flexibilidade mental e adaptação na forma de atuação, que faz a diferença entre um seguimento bem sucedido e um insucesso.

Por vezes sou recompensado com a melhor coisa que um médico pode querer… a pessoa melhora, os sintomas desaparecem, a doença fica controlada ou entra em remissão… sentir que se fez a diferença na vida de uma pessoa, que se evitou um suicídio, que o doente voltou a trabalhar, que este já consegue fazer coisas que não conseguia, que alterou comportamentos que o destruíam… é uma sensação maravilhosa!… Há, claro, o “outro lado da moeda”, casos que correm mal, que causam angústia ou em que me sinto impotente para ajudar a pessoa que tenho à frente. Como ser humano que sou… por vezes também falho. Mas tudo são aprendizagens. Afinal todo o caminho leva a algum lado e o acumular de experiências boas, más ou neutras, leva sempre a uma evolução pessoal (e mesmo científica).

Também (algumas vezes) há pessoas que sentem que devem dizer algo sobre o nosso processo terapêutico… recentemente a S., uma doente que conheci há uns anos e cujo o processo foi demorado e cheio de desafios enviou-me o email que transcrevo abaixo (com omissões de dados que a poderiam identificar). Foi um seguimento difícil, com altos e baixos, mas que com um trabalho em equipa entre psiquiatra, psicoterapeuta, família e… claro, a própria, se conseguiu dar “a volta por cima” (algo que nem ela, nem infelizmente outros terapeutas anteriores achavam que fosse possível). A S. concordou que partilhasse o seu testemunho, até porque quando o li achei que poderia servir como uma mensagem de esperança para todos os pacientes que estão a passar por situações difíceis ao nível da sua Saúde Mental.

“Antes de mais peço desculpa por não ter dito nada mais cedo, mas acho que tinha medo de deitar foguetes antes da festa, como se costuma dizer. Após ter falado com o Dr Diogo em novembro, deixei toda a medicação no dia 30 de janeiro deste ano. Foi difícil, pois obviamente tinha receio do que poderia acontecer. Foram muitos anos a tomar medicamentos, mais precisamente 6 anos e nunca pensei que fosse possível deixar, mas enganei-me.

Passados 7 meses estou melhor que nunca, não tenho problemas em dormir, não tenho variações de humor, não tenho qualquer tipo de pensamentos negativos como tinha antes, enfim pareço uma pessoa nova. Quero acreditar que foi só uma fase.

Tenho um trabalho bom, tenho a minha casa, uma relação estável e até tenho um gato. Cada vez penso mais em mim e no meu futuro, especialmente a nível profissional.

Estou muito bem, a nível psicológico estou fantástica, mal me reconheço e estou muito orgulhosa de mim e do que construí, mas nada disto seria possível sem vocês! Um obrigada é pouco! Obrigada por nunca desistirem de mim, por terem estado sempre do meu lado e acima de tudo por terem acreditado em mim!

Tinha de partilhar convosco as minhas conquistas, tive uma má fase mas conseguimos! Agora estou a olhar por mim e pelo meu futuro, espero conseguir grandes feitos e daqui a uns 5 anos começar a ter a família que sempre quis, mas não agora, agora estou a aprender quem sou e estou a adorar!

Mais uma vez obrigada por tudo, do fundo do coração, OBRIGADA!”

Eu é que agradeço a todos os meus pacientes, pela motivação e aprendizagens constantes. Todos os dias com novos desafios, gosto de fazer o que faço, dá-me significado.

Abraços a todos,

DG 2017

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4 responses to “Em modo de auto-reflexão

  1. lucileia2525

    14 de Novembro de 2017 at 14:44

    É muito bom conhecer casos como esse e saber que tem sim como dar a volta por cima e seguir em frente. Os notıciários sempre estão aí publicando notícias tristes, mas eu sempre penso que o bem sempre é maior que o mal.

     
  2. M Izabel da Costa Antunes Machado Baptista

    15 de Novembro de 2017 at 12:46

    Parabéns! Se a “Pátria é sp ingrata”, como o pp DS reiterou na “Última Aula” , há pessoas, há gente, há amigos, há resultados q integrarão o nosso percurso como profissionais! As falhas técnicas, algumas lacunas, apenas servem para confirmar a dedicação dos profissionais.
    Felicidades, mtas reflexões!

     

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