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De volta… e algumas coisas que aprendi.

02 Set

Caros leitores do blogue,

Voltei de férias, já há alguns dias, mas isto de tirar 3 semanas de férias tem a sua contrapartida. O regresso está a ser uma loucura (até mesmo pelo padrão de psi)! Entre consultas e formações, pendentes e telefonemas, relatórios e situações urgentes… ainda não consegui voltar “à normalidade”. Mas espero que o consiga em breve e que assim possa voltar à carga no blog…

O regresso a Lisboa foi curto, pois de seguida parti para um congresso importante na área da Psiquiatria, o Congresso Europeu de Neuropsicofarmacologia. Assisti a sessões impressionantes, que mostraram o muito que se tem avançado no conhecimento das doenças psiquiátricas, dos sintomas psicopatológicos e do seu tratamento.

NeuroBrainOs avanços na área da neurociência são fascinantes e o cérebro é, de facto, de uma complexidade sem paralelo. Vou partilhar com vocês dois dos tópicos que me impressionaram mais.

O primeiro relaciona-se com os correlatos neurais da adversidade precoce. No fundo, algo que nenhum “psiquiatra moderno” quer admitir, parece que o Freud lá tinha alguma razão na sua teoria… experiências traumáticas precoces (adversidades como falta de afeto, pobreza, elevado stress familiar) levam a uma reconfiguração permanente do cérebro, com alteração da expressão genética, que se mantém ao longo da vida e que perante futuros fatores de stress (por ex: desemprego, desilusão amorosa, consumo de substâncias) pode levar ao aparecimento de problemas de saúde mental. E isto é algo que se vê com técnicas muito avançadas de neuroimagem! Uma das coisas que Tallie Baram e os seus colegas da universidade da Califórnia descobriram é que os principais fatores que levam a esta vulnerabilidade acrescida são os comportamentos dos cuidadores imprevisíveis e fragmentados. Portanto para proteger o cérebro das nossas crianças é mesmo necessário que hajam rotinas e que haja tempo dos pais (cuidadores) para estar emocionalmente com os filhos. Só assim se pode evitar a imprevisibilidade e a fragmentação que podem levar a consequências severas no futuro. Para quem tiver mais interesse neste tópico recomendo este artigo científico.

O segundo relaciona-se com as evidências cada vez mais contundentes que a depressão não é apenas uma doença relacionada com disfunção dos neurotransmissores (por exemplo: a serotonina), mas que tudo aponta para que tenha um elevado componente inflamatório. Sim, esse mesmo mecanismo responsável pelos nossos sintomas quando estamos constipados ou que leva ao combate de uma infecção na pele, quando ocorre de forma desregulada pode ser responsável (através de vários mecanismos altamente complexos) por lesões de células neuronais em áreas chave. Verificou-se que as pessoas com mais resistência ao tratamento antidepressivo têm maiores níveis de marcadores inflamatórios... e isto poderá trazer uma abordagem totalmente diferente e inovadora do tratamento das depressões resistentes. Para além de explicar algo que se vê muito na prática clinica, que é a associação entre depressão e várias doenças autoimunes, assim como ajudar a explicar porque razão existem tantos sintomas “físicos” para algo que se passa no cérebro. Para quiser aprofundar recomendo este artigo.

Até à próxima!
DG 2015

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2 responses to “De volta… e algumas coisas que aprendi.

  1. Suzana Guedes

    2 de Setembro de 2015 at 23:29

    É verdade. Parece que o velhinho Sigismundo lá tinha a sua razão. Sabemos isso hoje com os avanços na neurociência, mas também com as novas abordagens psicoterapêuticas. Quando trabalhamos a depressão p.e. e entramos nas redes neuronais através de disparadores actuais, vamos (quase) de imediato às experiências precoces que deram origem àquele emaranhado de sofrimento e crenças negativas. E muitas vezes tão precoces, que não são facilmente acedidas pela mente consciente. Costumo fazer uma analogia com um novelo de lã enleado. Começamos a desenleá-lo e acabamos por encontrar o raio do nó (vários nós, na maioria dos casos), que impedem que se termine a camisola.

     
  2. lucileia2525

    10 de Agosto de 2016 at 14:43

    Que blog maravilhoso. Estou consumindo avidamente seus textos. Valeu.

     

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