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Até Maio, depois da defesa da tese!

15 Abr

Caros amigos, leitores e visitantes do blog,

estudoIrei entrar em modo de estudo e preparação intenso! Já no dia 29/4 (daqui a duas semanas!) irei defender a minha tese de doutoramento intitulada: “Comportamentos autolesivos em adolescentes: Características epidemiológicas e análise de fatores psicopatológicos, temperamento afetivo e estratégias de coping“. A defesa será na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e é um evento público para o qual todos estão convidados.

Foram vários anos de trabalho intenso de investigação, que culminam neste ato público de defesa da tese. A todos aqueles que me acompanharam e apoiaram ao longo destes anos só posso agradecer muitíssimo! A minha esposa e os meus filhos foram fundamentais, tal como a minha família, sem estes não haveria tese nenhuma. Aos meus orientadores (Prof. Daniel Sampaio e Prof. Luisa Figueira) só posso expressar um agradecimento enorme, pela maneira como inspiraram, ajudaram e se mostram sempre disponíveis. Foi uma experiência única de trabalho com os professores das escolas da Grande Lisboa, cujo o apoio foi imprescindível. Tal como dos jovens (e seus encarregados de educação) que colaboraram de forma extraordinária, permitindo a realização de um estudo de alta qualidade nesta matéria!

Neste momento vou focar toda a minha atenção na preparação da tese e por isso o blogue ficará “em pausa” durante umas semanas…

Até breve!

Abraços

DG 2014

PS: Deixo em baixo o resumo da tese para terem uma ideia do que se trata.

RESUMO

Os comportamentos autolesivos na adolescência são um relevante problema de Saúde Pública. Apresentam elevada prevalência em amostras comunitárias e clínicas, estão associados a morbilidade psiquiátrica e a um aumento significativo do risco de suicídio consumado. Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes já terão tido pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida. A investigação, a identificação e a prevenção destes comportamentos são considerados prioritários nas políticas de saúde da União Europeia e de Portugal.

A autolesão em adolescentes é hoje em dia considerada como o resultado final de complexas interações entre fatores genéticos, biológicos, psiquiátricos, psicológicos, sociais e culturais.

A presente tese foca-se nesta temática, consistindo numa integração de uma extensa revisão bibliográfica e de uma investigação original.

A investigação teve como objetivos identificar a prevalência de comportamentos autolesivos em adolescentes na zona da Grande Lisboa, caracterizar de forma pormenorizada estes comportamentos assim como os jovens que os realizam, explorar a sua associação a variáveis psicopatológicas, ao temperamento afetivo e às estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes.

Os procedimentos e as escolhas de instrumentos tiveram em conta dois critérios principais: a sua adaptação a estudos internacionais previamente realizados, de forma a tornar possível a comparação de resultados; e a sua facilidade de replicação.

Os comportamentos autolesivos foram definidos como “comportamento com resultado não fatal, em que o indivíduo deliberadamente fez um dos seguintes: iniciou comportamento com intenção de causar lesões ao próprio (ex: cortar-se, saltar de alturas); ingeriu uma substância numa dose excessiva em relação à dose terapêutica reconhecida; ingeriu uma droga ilícita ou substância de recreio, num ato em que a pessoa vê como de autoagressão; ingeriu uma substância ou objeto não ingerível”.

Foi analisada uma amostra comunitária de 1713 adolescentes (entre os 12 e os 20 anos, com idade média de 16 anos, sendo 56% do sexo feminino), de 14 escolas públicas da área da Grande Lisboa. Estes responderam a um questionário anónimo, em contexto de sala de aulas, em que se pesquisaram: variáveis sociodemográficas; comportamentos de saúde; acontecimentos de vida negativos; presença e caracterização de comportamentos autolesivos (incluindo a sua tipologia, motivações subjacentes, presença de ideação suicida, premeditação e comportamentos de pedido de ajuda); presença de ideação autolesiva; opinião dos jovens acerca do tema; sintomas ansiosos e depressivos; padrões de temperamento afetivo; utilização de estratégias de coping.

Verificou-se que 7,3% dos adolescentes já tinha apresentado pelo menos um episódio de comportamento autolesivo, calculando-se uma prevalência ao longo da vida de 10,5% para o sexo feminino e 3,3% para o sexo masculino e, verificando-se também uma prevalência nos últimos 12 meses de 5,7% e 1,8%, respectivamente. Cerca de metade (46%) apresentou mais do que um episódio de autolesão. O método mais frequente foram os cortes na superfície corporal (self-cutting) em 65%, seguindo-se as sobredosagens em 18%. A motivação mais frequentemente mencionada foi “ter alívio de um estado mental terrível”. Cerca de metade dos jovens de sexo masculino e um terço dos do sexo feminino admitiram ter pensado seriamente em morrer durante algum dos episódios de autolesão. Cerca de 6% da amostra relatou pensamentos de autolesão (sem o comportamento associado), sendo estes também mais frequentes no sexo feminino (9,5% vs. 2,4%).

A grande maioria dos jovens com estes comportamentos negou ter falado com alguém ou ter pedido ajuda, permanecendo estes como comportamentos “secretos” e não detetados pelos serviços de saúde ou escolares. Na amostra em estudo só 19% dos jovens admitiu ter feito algum pedido de ajuda previamente ao comportamento autolesivo (sendo este preferencialmente dirigido a amigos ou familiares), sendo que posteriormente ao comportamento este valor sobe para 37%. Só 13% recorreu ao hospital após a autolesão, tal acontecendo sobretudo em casos de sobredosagens.

Observou-se que a probabilidade de comportamentos autolesivos é significativamente maior no sexo feminino, naqueles que vivem noutro sistema familiar que não o nuclear e naqueles com maior insucesso escolar. Os jovens que relatavam autolesão apresentavam maior sintomatologia depressiva e ansiosa, assim como maiores taxas de consumo de álcool, de embriaguez, de consumo de tabaco e de utilização de drogas ilegais. Estes adolescentes apresentavam também maior número de acontecimentos de vida negativos, tendo-se destacado como variáveis preditoras independentes para ambos os sexos, a exposição à autolesão ou ao suicídio de outros e a presença de problemas com a lei. Ser vítima de bullying mostrou ser um fator preditor de autolesão no sexo masculino. Apresentar dificuldades com amigos e pares, assim como ter sido vítima de abuso físico ou sexual foram considerados importantes preditores para comportamentos autolesivos no sexo feminino.

Foi verificada uma associação fortemente significativa entre a presença de comportamentos autolesivos e a existência de um temperamento afetivo dominante dos subtipos depressivo, ciclotímico e irritável. Podendo este ser considerado como um possível marcador de vulnerabilidade inata.

Observou-se também que os adolescentes que relatavam comportamentos autolesivos, quando comparados com os outros jovens, apresentavam um perfil distinto ao nível da utilização de estratégias de coping. Verificou-se que os primeiros utilizavam menos estratégias de resolução de problemas, menos estratégias que implicassem o pedido de apoio a outras pessoas e, por outro lado, apresentavam maior utilização de estratégias não produtivas, como o evitamento, a redução de tensão ou a autocrítica. Este perfil de utilização de estratégias de coping pode ser considerado como um fator de vulnerabilidade passível de modificação.

Destes resultados conclui-se que os comportamentos autolesivos em adolescentes da zona da Grande Lisboa têm uma prevalência muito relevante, devendo ser motivo de atenção por parte dos decisores na área da saúde.

Destaca-se que em vários fatores que foram associados à autolesão em adolescentes existem possibilidades de intervenção, que poderão ser alvo de estratégias a nível clínico ou preventivo. Nomeadamente no que diz respeito aos consumos de substâncias, à sintomatologia depressiva e ansiosa e aos recursos a nível de estratégias de coping.

Por se tratar de um comportamento maioritariamente secreto, com escassos pedidos de ajuda, torna-se difícil a sua identificação e referenciação para os serviços de saúde, fator que deve ser tomado em consideração na criação de planos de prevenção nesta área.

Esta tese, na sua globalidade, contribui para aprofundar o estudo desta temática, preenchendo algumas lacunas existentes. Poderá ser utilizada como ponto de partida para futuros estudos (sendo realizadas várias sugestões nesse sentido), assim como de base para programas de intervenção nesta área (sendo apresentada também uma seção em que se discutem várias estratégias e se fazem propostas para esse efeito). Sistematiza os principais fatores associados à autolesão na adolescência, demonstrando a importância de uma compreensão alargada e multifatorial do fenómeno. Salienta a importância de uma estratégia ativa para a identificação e tratamento precoce de adolescentes com comportamentos autolesivos, baseadas na comunidade e com obrigatório envolvimento das famílias, das escolas e dos cuidados de saúde primários.

 

 

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5 responses to “Até Maio, depois da defesa da tese!

  1. armando valente

    15 de Abril de 2014 at 13:03

    Pelo que conheço de si e pelo resumo que deixou ,tenho a certeza que será uma mais valia para a comunidade e para os seus pacientes em particular que muito beneficiarão daquilo que tem sido a sua dedicação e entrega a tão nobre profissão. Eu como seu admirador estarei sempre a torcer por si.Um abraço

    Armando Valente

     
  2. Miguel Rocha

    15 de Abril de 2014 at 19:57

    Bom trabalho, tudo de bom!

     

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