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E quando a ansiedade se torna um monstro?

07 Jan

Aviso: antes de ler este post recomendo um click no botão play da banda sonora escolhida para o mesmo!

São 3 da manhã… o Jorge olha para o relógio, tal como o tinha feito há 20 minutos, há 40 minutos… o coração bate ferozmente parecendo querer libertar-se da sua caixa torácica, as palmas das mãos estão suadas, a cabeça não para… Pensa no futuro, na instabilidade profissional em que ele e a sua esposa estão, no que irá acontecer com os seus filhos, nos pais que estão a envelhecer e cada vez mais doentes… Olha para o lado. A sua esposa, a Joana, dorme tranquilamente numa paz invejável. Como é possível que ela não esteja preocupada? – interroga-se. Como pode ela estar tão tranquila perante tudo o que se está a passar? Como pode ter passado o jantar a falar das nossas férias, a fazer desenhos com as crianças, com toda a calma do mundo? Será que ela não vê os perigos, os riscos?

Este pequeno texto serve para ilustrar como a ansiedade patológica (aquela que causa sensações corporais desagradáveis, que torna o sono uma missão quase impossível e que afeta o funcionamento diário) não depende apenas de fatores externos. Neste casal as preocupações de vida são idênticas (o trabalho, os filhos, a saúde de familiares), mas enquanto que o Jorge sofre de insónias e ansiedade extrema a Joana aparenta lidar “um pouco melhor” com a situação pela qual estão a passar.

Porque é que isto acontece? Vamos então ver como as neurociências explicam este fenómeno.

A ansiedade é uma resposta emocional complexa, origina-se numa percepção de uma ameaça (real ou imaginada) levando à ativação reativa de respostas a vários níveis, nomeadamente:

  • Fisiológicas – sintomas somáticos ou físicos da ansiedade como a opressão torácica, dificuldade respiratória, sintomas vegetativos (boca seca, sudação, tremor, palpitações, taquicardia), náuseas, dor abdominal, cefaleias, etc.
  • Cognitivas – conjunto de pensamentos, ideias, crenças ou imagens que acompanham a ansiedade e se relacionam com possíveis perigos presentes ou futuros.
  • Comportamentais – reações às cognições ansiosas, levando por vezes a situações de irritabilidade, confronto ou mesmo evitamento.

A investigação atual diz-nos que todos os animais superiores apresentam respostas semelhantes de ansiedade, sugerindo que estas fazem parte de um mecanismo universal através do qual os organismo se adaptam às situações adversas.

Até certo ponto a ansiedade é normal e vantajosa para se conseguir um rendimento máximo em situações adversas (como por exemplo: exames, situações de perigo físico, acontecimentos de vida negativos, etc.). A resposta normal de ansiedade leva à melhoria da atenção e da concentração, maximiza a eficácia dos parâmetros fisiológicos (tensão arterial, pulsação, respiração, etc.) e promove comportamentos adequados para lidar com o desafio ou perigo que se apresenta.

No entanto, em certos casos, poderá acontecer uma de duas coisas:

  • A resposta torna-se excessiva e os seus sintomas tornam-se incapacitantes;
  • Esta resposta ocorre em situações desadequadas, em que não existe qualquer perigo ou ameaça.

Quando alguma destas situações ocorre estamos perante o que se chama ansiedade patológica, que poderá mesmo configurar um quadro de perturbação de ansiedade. São exemplos as seguintes

  • Fobia específica  – caracterizada pelo medo excessivo ou irracional (e limitado) a determinadas pessoas, animais, objectos ou situações (por exemplo, voar, dentistas, ver sangue, etc.). Estas situações ou objectos são evitados ou vividos com grande aflição.
  • Fobia social ou perturbação de ansiedade social –  caracterizada por um medo marcado, persistente e irracional de ser observado ou avaliado negativamente pelos outros, em situações sociais ou em que o seu desempenho é posto à prova. Está associada com sintomas físicos e psíquicos de ansiedade. Situações temidas (tais como falar com estranhos ou comer em público) são evitadas ou vividas com grande aflição.
  • Perturbação de ansiedade generalizada – caracterizada por uma preocupação constante, excessiva e inapropriada, que é persistente (ao longo de meses) e não limitada a circunstâncias particulares. Os doentes têm sintomas físicos e psíquicos de ansiedade característicos: inquietude; fadiga; dificuldades de concentração; irritabilidade; tensão muscular e dificuldades de sono. Muitas vezes está associada a depressão. 
  • Perturbação de pânico – caracterizada por episódios recorrentes e inesperados de ansiedade severa (“ataques de pânico”), apresentando vários graus de ansiedade antecipatória (medo de ter futuras crises) entre os ataques. Os ataques de pânico são períodos breves de medo ou desconforto intenso, acompanhados de vários sintomas físicos e psíquicos de ansiedade, tais como: palpitações; sudorese; tonturas; sensação de falta de ar ou engasgamento; tremor; desrealização ou despersonalização. Tipicamente os ataques de pânico chegam à sua intensidade máxima em 10 minutos e duram cerca de 30 a 45 minutos. A maioria dos pacientes desenvolve medo de ter futuros ataques de pânico. Alguns doentes desenvolvem agorafobia, definida como medo de sítios ou situações de onde pode ser difícil fugir ou onde pode não existir ajuda disponível, no caso de vir a ter uma ataque de pânico. Exemplos incluem: multidões; transportes públicos ou, simplesmente, estar fora de casa. Estas situações são evitadas ou vividas com grande aflição.
  • Perturbação pós-stress traumático – caracterizada por uma história de exposição a um trauma (definido como uma situação que envolve experiências de morte, perigo de morte, lesão significativa ou risco para a integridade, do próprio ou dos outros em que a resposta do indivíduo envolveu medo intenso, horror ou sensação de impotência) e pela presença de três tipo de sintomas: 1) Revivenciar a experiência traumática (pensamentos intrusivos, pesadelos recorrentes, “Flashbacks”, sentir ou agir como se o acontecimento ainda estivesse a ocorrer, angústia intensa quando exposto a pessoas, locais ou conversas relacionadas com o evento); 2) Evitamento e embotamento afectivo (evitamento de situações ou pessoas relacionadas com o trauma, diminuição do interesse na maioria das actividades, sentimento de “desligamento dos outros”, incapacidade de sentir, amnésia para partes do trauma); 3) Hipervigilância (problemas de sono, irritabilidade, raiva, dificuldades de concentração).
  • Perturbação Obsessivo-Compulsiva – caracterizada por dois sintomas principais: 1) Obsessões, definidas como ideias persistentes associadas a um sentimento penoso e de estranheza, existindo resistência a estas e consciência da sua estranheza. Exemplos de obsessões comuns são: medo de contaminação; medo de acidentes; preocupações religiosas ou sexuais; 2) Compulsões, definidas como actos motores irresistíveis que reduzem a ansiedade provocada pelas obsessões, muitas vezes chamados rituais. Exemplos de rituais comuns são: lavagens de mãos repetitivas; verificações excessivas; limpezas ou contagens incessantes. As obsessões e compulsões ocorrem de forma recorrente, causam mal estar ao indivíduo, ocupam tempo excessivo e interferem com as suas funções sociais e ocupacionais.

Mas porque é que determinadas pessoas desenvolvem estas perturbações e outras não?

De uma forma simples (porque na realidade as coisas são mesmo muito complexas) podemos dizer que a ansiedade patológica tem as suas origens em dois grandes grupos de fatores: biológicos e ambientais.

SinapseEstes são alguns exemplos de fatores biológicos:

  • Genética – vários estudos indicam que existe uma predisposição para as várias perturbações ansiosas de acordo a nossa herança genética. É muito frequente existir um historial familiar nos casos de perturbações ansiosas que não é possível atribuir apenas ao ambiente familiar. Sabe-se, por exemplo, que mutações no gene transportador da serotonina estão fortemente associadas à perturbação de pânico.
  • Desregulação da química cerebral – a investigação de pacientes com perturbações ansiosas revelou que existem alterações na regulação de determinados neurotransmissores, como a serotonina, a noradrenalina e o ácido gama-aminobutírico (GABA). Estes neurotransmissores estão envolvidos na regulação da emoções, do sono e das reações corporais ao stress. A dúvida que subsiste é se estas alterações ocorrem antes ou depois da perturbação se ter originado (a famosa história “do ovo e da galinha”). A maioria dos fármacos para o tratamento da ansiedade atua nestes químicos cerebrais, também o tratamento através de psicoterapia leva a alterações do funcionamento destes neurotransmissores.
  • Alterações do padrão de atividade cerebral –  estudos de imagiologia cerebral demonstram que os pacientes com perturbações de ansiedade apresentam determinadas áreas cerebrais que funcionam “a mais” enquanto que outras funcionam “a menos”. Um exemplo é o funcionamento excessivo de uma área cerebral responsável pelas nossas respostas mais instintivas e emocionais – a amígdala cerebral – enquanto que outras zonas como o córtex pré-frontal (envolvido na nossa capacidade de planeamento e decisão) ou o hipocampo (envolvido nos processos de memória) apresentam uma redução da sua atividade. É importante aqui referir que estas alterações são reversíveis com o tratamento adequado.

Estes são alguns exemplos de fatores ambientais:

  • Stress – especialmente se for crónico (mantido ao longo do tempo) é o principal fator envolvido na génese destas perturbações. A forma de lidar com o stress tem um papel fundamental no facto de a pessoa desenvolver ou não uma perturbação de ansiedade.
  • Experiências de vida precoces – as experiências da nossa infância e adolescência condicionam fortemente a forma de como encaramos os medos e os desafios. Estas experiências podem tornar-nos quer mais vulneráveis quer mais fortes (resilientes). A observação que as crianças fazem da forma como os pais ou outros adultos reagem perante as adversidades leva sempre a uma aprendizagem, que pode ser positiva ou negativa. A presença de um ambiente familiar tenso, com muitas discussões ou mesmo violência, está muito associado a este tipo de patologias. A sensação de abandono ou o bullying são outras experiências commumente ligadas.
  • Traumas – situações de grande perigo, de violência, de lesões sérias, doenças ou outros traumas específicos, estão também muito associados. Não só para a perturbação pós-stress traumático, mas para todas as perturbações de ansiedade. A sua relevância é ainda maior se ocorrerem durante a infância.
  • Mudanças – mesmo quando “para melhor” todas as mudanças de vida envolvem algum grau de stress, que poderá despoletar uma perturbação ansiosa. Isto inclui tanto as “pequenas mudanças” como a mudança de emprego ou de casa, como as “grandes mudanças” como a perda de um ente querido ou uma situação de divórcio.

Mas afinal porque é que o Jorge está assim e a Joana não?

stressed-manComo vimos a origem das perturbações de ansiedade é muito complexa e ainda há muito para descobrir. Muitas vezes é difícil descobrir qual a sua causa exacta e, na maioria dos casos, misturam-se estes fatores biológicos e ambientais.

Provavelmente o Jorge terá determinados fatores biológicos diferentes da Joana. Talvez o ambiente que partilhem não seja assim tão igual (durante a sua vida terão certamente tido diferentes experiências). Ou será que a Joana tem mais capacidades para gerir o stress?

Mas mais importante que conhecer as potenciais causas da ansiedade patológica, o que é realmente importante perceber é que esta pode ser tratada e controlada. Não tem de ser um “monstro” ou um “bicho de 7 cabeças”!

Um abraço a todos

DG 2014

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7 responses to “E quando a ansiedade se torna um monstro?

  1. armando valente

    7 de Janeiro de 2014 at 16:26

    Obrigado Drº Diogo,pelo excelente artigo e pela atualidade do tema.
    Como sempre de uma maneira simples ,mas completa diz-nos tudo, sobre este tema,continuo sempre interessadíssimo nos seus artigos que acompanho religiosamente,pois trata-se do meu médico numero um,sempre na vanguarda.feliz do país que alberga pessoas da sua dimensão.
    Obrigado
    Armando Valente

     
  2. Armando Valente

    7 de Fevereiro de 2014 at 18:30

     
  3. patrícia silva

    3 de Dezembro de 2014 at 8:08

    Dr. Diogo dá consulta em algum sítio com acordo IASFA?

     

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