Antes de mais, um aviso à navegação! Estas histórias sussuradas, são mesmo isso, um silencioso, íntimo, sussurro, que surge apenas nas condições ideais e mesmo assim, só muito raramente. Devem ser tratadas com o devido respeito, por mais bizarros ou até cómicos que estes sussurros possam ser.
Estes sussurros têm uma beleza inata, que nada tem que ver com o reino das ciências biológicas, ou com o principado da categorização de sintomas e doenças, eventualmente encontraremos no reino das artes, disciplinas que os poderão apreciar em todo o seu esplendor.
Um médico Psiquiatra escuta muitas coisas, ouve muitas histórias, confiam-lhe coisas inimagináveis (e que muitas vezes pouco estão relacionadas com a doença que originou a consulta)… mas quanto melhor for a relação entre o paciente e o seu Psiquiatra, maior a probabilidade de escutar uma história bem diferente: um sussuro.
Estas histórias sussuradas na maior intimidade são de vários tipos. Bem me lembro de um antigo e querido doente meu que me sussurou um dia ser “o oficial de comunicações da humanidade” e que não poderia dormir à noite pois “os sacanas” trabalhavam sobretudo a essa hora – um homem doente, mas com o dever de nos salvar a todos, alguém que precisava de protecção mas que não desistia da sua função vital. Neste sussuros vejo para além da doença, vi o bom deste meu doente, a resiliência, a motivação, o instinto protector dos seus… alguém que queria proteger a humanidade. Das raras vezes que desligava era um avô carinhoso que se esmerava a tomar conta do seu jardim no Alentejo.
Quantas destas pessoas poderemos esperar encontrar na nossa vida? Se este meu paciente não tivesse tido o azar de ter uma esquizofrenia seria um grande homem, mais ainda do que o que já é.
Outra doente, um pouco mais jovem, sussurou-me que “se se deixasse de cortar a única coisa que tinha era um grande vazio”, que “se matava para se sentir viva“… estes sussurros são fundamentais para o processo de cura. Tanto tempo perdemos a tentar parar que se corte ou que deixe de fazer tentativas de suicídio e tão pouco tempo dedicamos “ao grande vazio”. Estes sussurros, resultado de uma relação que funciona a nível terapêuta-paciente, são do mais valioso que existe…
Esta é a razão pela qual demoramos muito tempo a ver doentes (somos a especialidade com consultas mais demoradas: em média 45mn-1h para um primeira consulta e cerca de 30mn para as seguintes) e pela qual os queremos ver com frequência (semanal, mensal, nunca mais que trimestral)… Só assim estão encaixadas as peças para que possamos ouvir o “sussurro perfeito”, aquele que fará com que o seguimento e o tratamento tenham sucesso, que seja mais rápido e eficaz.
Quando se fazem consultas com ouvidos (e mente, já agora) fechados, quando se fazem consultas de 15 minutos a alguém que não conhecemos de lado nenhum ou de 5 minutos simplesmente “está melhor? está pior? Então é este medicamento.”, neste caso estamos a meio caminho da cronificação dos casos, das pessoas “que nunca melhoram” e “a quem já fizemos tudo”.
Nos últimos tempos em que trabalhei num serviço público tinha gestores, chefes, a pressionarem-me para ver doentes em escassos minutos, “para despachar trabalho”, não haviam técnicos suficientes, haviam pacientes sem consultas há anos e que só os conseguia ver passados 6 meses (por mais malabarismo que fizesse)… Durante este período foram raros os sussurros que ouvi. Sentia-me muito frustrado, pois sem esta frágil ligação sabia que as coisas nunca poderiam passar do razoável (no melhor dos casos).
Foquei-me agora na medicina tradicional de consultório: um médico, um doente, sem interferências. Em conjunto decidimos o tempo da consulta e as marcações, não há confusão… apenas relação em construção e, quem sabe, espero ter vários sussurros no futuro que aí vem, melhorando-me a mim próprio e ajudando o paciente a encontrar o seu caminho para sair da doença mental.
Este primeiro sussurro é só uma introdução ao tema, acho que será interessante por no blog algumas frases/ casos clínicos, em que nunca irei identificar o doente e que poderão dar azo a novas ideias para discutirmos e para nos livrarmos de muitos preconceitos que carregamos… até lá!
Um abraço e obrigado a todos aqueles que comigo já sussuram… não há nada mais motivador, obrigado!
DG 2013







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