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Arquivo da Categoria: comportamentos autolesivos

Contemplação do complexo

Estou neste momento a preparar uma comunicação sobre um tema altamente complexo: como avaliar através de medidas numéricas (psicometria) o risco de suicídio ou autolesão… Tema sobre o qual irei falar nas 10.ªs Jornadas sobre Comportamentos Suicidários (que irão decorrer de 25 a 27 de Setembro de 2014, no Grande Hotel do Luso) – http://www.jcsuicidio2014.com.

Esta obra pareceu-me apropriada.

Kandinsky: “Composição VII”, segundo o artista a obra mais complexa que alguma vez criou...

Kandinsky: “Composição VII”, segundo o artista a obra mais complexa que alguma vez criou…

 

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10 de Setembro – Dia Mundial da Prevenção do Suicídio

Neste dia convido-vos a assistir a esta pequena apresentação que preparei sobre o tema:

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10 mitos sobre saúde mental

mito-ou-verdadeA saúde mental continua a ser uma área envolta em mitos, preconceitos, estigma e ideias erradas. É inegável que muito se tem evoluído nesta área, mas muito existe ainda a fazer, para que as pessoas que sofrem de qualquer problema de saúde mental tenham os cuidados adequados, para que não tenham receios em pedir ajuda e para que não se sintam (ou sejam) descriminadas.

Só esclarecendo sobre estes mitos é possível ajudar a reduzir os mal-entendidos sobre as perturbações mentais, algo tão prevalente na nossa sociedade… E para isso todos podemos contribuir.

Sinta-se livre para partilhar esta página, com um amigo, com um membro da família, ou mesmo com um profissional de saúde ou de saúde mental. Aqui ficam 10 dos principais mitos (ideias erradas) relacionados com a saúde mental:  

1. Os problemas de saúde mental são incomuns.

Na verdade, quase 1 em cada 5 portugueses terão um problema de saúde mental diagnosticável ao longo da sua vida, de acordo com os dados da Direção Geral de Saúde publicados no relatório “Portugal, Saúde Mental em números – 2013” (o documento pode ser descarregado aqui: DGS Saude Mental em Numeros Portugal 2013).

2. Os problemas de saúde mental são causados ​​pela pessoa que deles padece.

Se por um lado é verdade que as pessoas precisam de assumir a responsabilidade pelos seus próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos associados às perturbações, eles não são os culpados por eles. Há uma diferença importante entre assumir a responsabilidade e aceitar a culpa, mas, infelizmente, muitas pessoas confundem essas duas coisas.

3. Os problemas de saúde mental são de natureza puramente biológica ou genética.

Apesar de investigações recentes demonstrarem um papel importante da biologia ou da genética numa grande parte dos problemas de saúde mental, estes são presentemente conceptualizados como o resultado final de múltiplos fatores: biológicos; genéticos; sociais; psicológicos; ambientais; etc. A doença mental é complexa e exige uma ampla visão para a sua compreensão, mas também na intervenção.

4. Os problemas de saúde mental são muitas vezes para toda a vida e difíceis de tratar.

Esta questão coloca-se muito frequente quando se medica pela primeira vez um paciente, com uma doença recém-diagnosticada, como depressão ou ansiedade. Na verdade, a maioria dos medicamentos (com algumas poucas exceções, como as previstas para a doença bipolar e esquizofrenia, por exemplo) são prescritos para um prazo relativamente curto (menos de um ano), tendo como objectivos o alívio dos sintomas e a prevenção de episódios futuros. Na maior parte dos casos é possível resolver a situação por completo.

5. Uma psicoterapia leva uma eternidade e foca sempre problemas de infância.

Trata-se de um mito e um resquício dos dias em que a única opção era a realização de terapias do tipo psicanálise clássica. Embora por vezes esta técnica seja útil e eficaz, as várias técnicas de psicoterapia modernas podem ser de curta duração e orientadas para o problema. São exemplo as psicoterapias de modelo cognitivo-comportamental, que enfatizam pensamentos irracionais que levam a comportamentos e sentimentos disfuncionais, ou a terapia interpessoal. A maioria das doenças mentais comuns podem ser tratadas numa questão de meses em vez de anos.

6. Eu posso lidar com meus próprios problemas de saúde mental, e se eu não posso, eu sou fraco.

Apesar da primeira parte dessa afirmação não ser tanto um “mito”, porque a realidade é que a maioria das pessoas que têm um problema de saúde mental não procuram tratamento adequado (infelizmente). No entanto a segunda parte (sou fraco) é claramente um preconceito.

Se bem que por vezes o esforço para resolver o problema, através de estratégias de coping (tais como o exercício físico, cuidados com a alimentação, sair com os amigos, esforçar-se mais no trabalho, etc.) possa ajudar a minimizar o problema, por vezes é mesmo necessário recorrer a ajuda de um profissional de saúde mental… e isto não deve ser vergonha nenhuma! Isto não significa que você é fraco – fraco de espírito, de força de vontade, ou o que quer que seja. Isto significa que você percebe e aceita as suas limitações humanas e naturais, e procura cuidados adequados quando as suas capacidades de lidar com o problema não são o suficiente.

Se tivesse partido um pé a sua escolha seria esforçar-se para aguentar, com risco de agravar a fratura e arriscar uma incapacidade permanente, ou ir a um ortopedista para tratar desse problema e voltar a andar como antes? Isto faria de si fraco!? Veja esta imagem.

7. Se eu admitir que tenho problemas, toda a gente vai pensar que eu sou maluco e eu vou ter de ir para um hospital por um tempo muito longo.

“Maluco” é um termo genérico que nada significa neste contexto. Todos somos um pouco “malucos”, pelo menos por vezes (e ainda bem). No entanto, ter uma doença mental não significa que você está “maluco” ou “louco”. Significa apenas que você tem um problema, tal como uma outra qualquer doença médica, que precisa de tratamento. Será que um membro da família ou amigo vai pensar mal de si por ter leucemia? Cancro? Gripe? Então porque deveriam pensar mal de si por ter depressão ou ansiedade? Se o fizerem, são eles que precisam de educação e de ser menos preconceituosos.

A maioria das pessoas que têm uma perturbação mental não precisa de internamento. A hospitalização só é usado em casos extremos, quando o problema o coloca em risco de morte iminente (ou com risco de causar danos a objetos ou outras pessoas) ou para a realização de um tratamento especial que necessita mesmo de ser feito em ambiente hospitalar. Mesmo que seja internado, isso não significa que fique internado semanas ou meses. Tal como em qualquer doença, será avaliado, tratado e terá alta assim que se estiver a sentir melhor.

8. Ter ideias suicidas significa que enlouqueci.

É comum existirem ideias suicidas na depressão ou noutras perturbações do humor. É um sintoma, que apesar de grave e angustiante, é comum, não o fazendo mais ou menos “louco”. Estas ideias suicidas começam a desaparecer assim que começar a receber os cuidados adequados para a sua condição. É por isso que é tão trágico quando as pessoas realmente se suicidam, sem pedir ajuda … acredito que a maioria o faz por estar doente e que se tratado a tempo poderia estar vivo e a sentir-se bem. Veja aqui os 10 grandes mitos (ideias erradas) sobre o suicídio e sobre os comportamentos autolesivos.

9. Os medicamentos psiquiátricos causam dependência e depois de começar é muito difícil parar.

Trata-se de um mito muito frequente, que leva a que muitas pessoas não façam os tratamentos adequados. A verdade é que a maioria dos medicamentos utilizados para tratar as perturbações mentais não causa qualquer dependência. Nem os antidepressivos, nem os estabilizadores do humor, nem os antipsicóticos, apresentam este problema. Por outro lado, medicamentos ansiolíticos comuns (ex: xanax, lorenin, victan, etc.) que as pessoas utilizam muitas vezes sem qualquer seguimento médico (por vezes mesmo sem receitas médicas, sendo fornecidos por amigos ou vizinhos), e muitas vezes sem esta preocupação “que possam causar vício”, podem levar a uma dependência complicada. Não quer dizer que não se possam utilizar e que não sejam úteis, porque o são de facto, mas sempre sob monitorização e acompanhamento adequado.

10 . Os diagnósticos em Psiquiatria são apenas etiquetas para comportamentos normais.

Para quem nunca lidou com alguém com uma doença mental (como amigo, familiar ou mesmo técnico) pode parecer que determinados sintomas psicopatológicos são muito semelhantes a emoções ou comportamentos normais. Por exemplo, como traçar a linha entre a tristeza normal e a patológica, ou quando é que falamos de timidez ou de ansiedade social, ou quando é que a organização se torna uma compulsão? No entanto, tal como a diferença entre um tumor benigno e um cancro, os sintomas na perturbação mental são bem diferentes das emoções ou comportamentos “normais”. Habitualmente, quando determinada emoção ou comportamento se torna debilitante ao ponto do paciente não conseguir funcionar do ponto de vista profissional, social ou familiar, estamos muito provavelmente perante uma doença mental. O diagnóstico (a “etiqueta”) torna-se nestes casos particularmente importante por várias razões: para o próprio paciente saber com o que está a lidar; para os técnicos intervirem da melhor forma e de acordo com o que se sabe do ponto de vista científico para esse diagnóstico; também para a evolução da ciência, pois é necessário que os investigadores falem uma linguagem comum para compararem resultados e discutirem as possíveis linhas de investigação.

Recomendo também a leitura deste post mais antigo sobre os principais medos envolvidos na primeira consulta, algo que chamei de psiquiatrofobia.

Um abraço e lembrem-se que compete a todos lutarmos contra o estigma e o preconceito na saúde mental. DG 2014

PS: Parte deste artigo baseia-se no trabalho de Grohol, J.M. (Feb 1998). Top ten myths about mental health  

 

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Por vezes, quando digo “está tudo bem”…

…gostaria que alguém me olhasse nos olhos e dissesse “não estás sozinho”.

Um alerta da autoria de Soumya Jindal, publicado na página de Facebook da United Nations For Youth, a propósito da campanha Mental Health Matters (das Nações Unidas). Uma imagem que vale mil palavras.. um alerta para a solidão causada pelo estigma que existe a propósito das doenças mentais… um sofrimento isolado, incompreendido.

Não pode continuar a ser esta a realidade!

Soumya Jindal #MentalHealthMatters

Soumya Jindal #MentalHealthMatters

 

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O que é a Saúde Mental?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a saúde mental como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“.

Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspecto vinculado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspectiva positiva, a OMS convida a pensar na saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

Saúde-Mental

Porque é isto importante?

A OMS publicou recentemente um relatório sobre a importância de investimento na saúde mental. No relatório “Investing in Mental Health – Evidence for action”, a OMS explora os conceitos de saúde mental, qual a sua importância para a vida humana como um direito fundamental, e quais as direções que os governos podem seguir no sentido de alterar as políticas públicas.

“A saúde mental e o bem-estar são fundamentais para nossa capacidade coletiva e individual, como seres humanos de pensar, sentir, interagir uns com os outros, ganhar e aproveitar a vida. No entanto, atualmente a formação do capital mental individual e coletivo – especialmente nos estágios iniciais da vida – está a ser retido por uma série de riscos evitáveis ​​para a saúde mental, enquanto os indivíduos com problemas de saúde mental são desprezados, discriminados e negados direitos básicos, inclusive acesso aos cuidados essenciais.

Neste relatório, as razões potenciais para esta aparente contradição entre os valores humanos e ações sociais observados são explorados com vista a uma melhor formulação de medidas concretas que os governos e outras partes interessadas podem tomar para reformular as atitudes sociais e políticas públicas em torno da saúde mental.”

A pensar… a agir… de forma urgente!

Cumprimentos para todos

DG 2014

 

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De regresso do mundo das teses e das defesas!

Após estas longas semanas de retiro para me preparar para a defesa da tese… voltei!

defesa da teseA defesa correu muito bem, o júri aprovou (com louvor e distinção) o doutoramento. Senti-me muito feliz, pois todos estes anos de trabalho como investigador, com todos os desafios inerentes, foram recompensados. E a recompensa não foi o título de “Professor Doutor”, mas sim o reconhecimento de ter feito algo válido e importante, que poderá contribuir para uma melhor saúde dos adolescentes, tal como para quebrar preconceitos na área dos comportamentos autolesivos na adolescência e que poderá também contribuir para melhorar as estratégias de intervenção e prevenção nestes jovens em risco.

Aula Magna FMUL

Aula Magna FMUL

Os afetos encheram a sinistra Aula Magna da Faculdade de Medicina de Lisboa. Marcaram a sua presença colegas, amigos, família, curiosos e até uma minha paciente (e amiga). E isto, a uma terça feira de manhã! Mas não só de presenças físicas estava cheio o anfiteatro, estavam lá todos aqueles que em mim acreditaram, aqueles que muito me ajudaram e aqueles que me inspiraram… e que, mesmo que não tenham conseguido ir, estavam lá… Foi tão bom sentir a vossa energia e apoio.

O Júri foi impecável, do alto do seu conhecimento, criticaram de forma construtiva, sugeriram ideias para novas direcções de investigação… Perguntaram muito aquela matreira questão “e agora”? Foram 2h30 de discussão, sempre cronometrada pelo Presidente do Júri. E algo aconteceu que me surpreendeu. O stress desapareceu em 15 minutos e a partir daí algo extraordinário ocorreu: comecei a ter um prazer enorme em estar a falar sobre o meu trabalho, a defender aquilo em que tanto investi, a certa altura as provas tornaram-se numa discussão científica interessantíssima entre pares.

Não é fácil o “viva voce” (provas públicas de defesa), existe um envolvimento muito grande por parte dos investigadores durante muito anos no seu projecto e, ao chegar a esta fase; é o tudo por tudo. O querer mostrar que fizemos um trabalho científico de qualidade, o desejo de estar à altura das expectativas (dos colegas, do orientador, do júri, mas também da família e amigos, que tanto foram negligenciados nestes últimos anos). Foram dias prévios de muito stress, a dormir pior, com o peito apertado (sim a ansiedade também acontece aos psis). Por vezes vinham pensamentos fantásticos do género: “eu não vou lá amanhã… vou já tratar de emigrar para a Nova Zelândia” ou o clássico “a minha tese afinal está uma porcaria, o que é que eu fui fazer!?”…. Dois dias antes recebo uma chamada do meu orientador, que me tranquilizou imenso e em que me obrigou a parar de estudar ou rever a matéria! Foi um óptimo conselho, obrigado Prof!

Diogo Guerreiro DefesaO que é certo é que no dia, na hora de entrar naquele anfiteatro, ladeado por um lado pelos amigos, família, colegas e no outro lado, por seres estranhos, vestidos nas suas togas, que lançavam olhares de cima para baixo, o meu coração estava “apertadinho”. Fiz a minha comunicação de 15mn (sim, tão pouco tempo!) e preparei-me para o que aí viesse. Numa pequena e apertada mesa, a um nível bem mais baixo do que o júri, mas com a convicção de que não me deixaria ser atropelado! E assim foi!

Durante 2h30 discutimos, falamos, concordamos, discordamos. Surgiram ideias novas, projectos e novos desafios.

Como já tinha dito, passados 15mn o stress foi desaparecendo e surgiu o gozo, o prazer. Afinal, isto é o meu trabalho, dediquei-me muito a isto, investi doses brutais de energia, por vezes à custa de passar menos tempo com amigos e família, e obviamente não iria deixar qualquer júri destruir o meu investimento. Tal não aconteceu, mais uma vez refiro, o júri foi fantástico, senti que discutia com os membros como um par, em que a minha opinião era pedida e utilizada na sua própria reflexão.

Quando terminou… respirei (tenho um amigo que gravou todo o audio da defesa da tese, mas ainda não tive coragem de ouvir). Os júris foram deliberar, mas já estava cheio de abraços e beijinhos, fotos, momentos… Até nem ouvi quando fui chamado à sala de conferência, onde recebi a tão desejada nota e os cumprimentos dos meus distintos novos colegas da Academia.

E agora isto já está, mas ainda existem muitas pontas soltas (tratar de fazer relatórios para entidades competentes, divulgar, tratar de revisões de artigos, etc…). Com calma, tudo irá ao sitio.

E quando uma aventura acaba, eis que se inicia uma nova outra aventura!

Mais uma vez obrigado a todos!

Para os interessados a tese pode ser consultada aqui: GuerreiroDF_2014_tese

Fica também um artigo do JN que saiu no dia da defesa da tese referente a dados da mesma: JN 29Abril2014 Autolesao na adolescência

Um bem-haja para todos!

Diogo Guerreiro

 

 

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Até Maio, depois da defesa da tese!

Caros amigos, leitores e visitantes do blog,

estudoIrei entrar em modo de estudo e preparação intenso! Já no dia 29/4 (daqui a duas semanas!) irei defender a minha tese de doutoramento intitulada: “Comportamentos autolesivos em adolescentes: Características epidemiológicas e análise de fatores psicopatológicos, temperamento afetivo e estratégias de coping“. A defesa será na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e é um evento público para o qual todos estão convidados.

Foram vários anos de trabalho intenso de investigação, que culminam neste ato público de defesa da tese. A todos aqueles que me acompanharam e apoiaram ao longo destes anos só posso agradecer muitíssimo! A minha esposa e os meus filhos foram fundamentais, tal como a minha família, sem estes não haveria tese nenhuma. Aos meus orientadores (Prof. Daniel Sampaio e Prof. Luisa Figueira) só posso expressar um agradecimento enorme, pela maneira como inspiraram, ajudaram e se mostram sempre disponíveis. Foi uma experiência única de trabalho com os professores das escolas da Grande Lisboa, cujo o apoio foi imprescindível. Tal como dos jovens (e seus encarregados de educação) que colaboraram de forma extraordinária, permitindo a realização de um estudo de alta qualidade nesta matéria!

Neste momento vou focar toda a minha atenção na preparação da tese e por isso o blogue ficará “em pausa” durante umas semanas…

Até breve!

Abraços

DG 2014

PS: Deixo em baixo o resumo da tese para terem uma ideia do que se trata.

RESUMO

Os comportamentos autolesivos na adolescência são um relevante problema de Saúde Pública. Apresentam elevada prevalência em amostras comunitárias e clínicas, estão associados a morbilidade psiquiátrica e a um aumento significativo do risco de suicídio consumado. Dados internacionais revelam que cerca de 10% dos adolescentes já terão tido pelo menos um episódio de autolesão ao longo da sua vida. A investigação, a identificação e a prevenção destes comportamentos são considerados prioritários nas políticas de saúde da União Europeia e de Portugal.

A autolesão em adolescentes é hoje em dia considerada como o resultado final de complexas interações entre fatores genéticos, biológicos, psiquiátricos, psicológicos, sociais e culturais.

A presente tese foca-se nesta temática, consistindo numa integração de uma extensa revisão bibliográfica e de uma investigação original.

A investigação teve como objetivos identificar a prevalência de comportamentos autolesivos em adolescentes na zona da Grande Lisboa, caracterizar de forma pormenorizada estes comportamentos assim como os jovens que os realizam, explorar a sua associação a variáveis psicopatológicas, ao temperamento afetivo e às estratégias de coping utilizadas pelos adolescentes.

Os procedimentos e as escolhas de instrumentos tiveram em conta dois critérios principais: a sua adaptação a estudos internacionais previamente realizados, de forma a tornar possível a comparação de resultados; e a sua facilidade de replicação.

Os comportamentos autolesivos foram definidos como “comportamento com resultado não fatal, em que o indivíduo deliberadamente fez um dos seguintes: iniciou comportamento com intenção de causar lesões ao próprio (ex: cortar-se, saltar de alturas); ingeriu uma substância numa dose excessiva em relação à dose terapêutica reconhecida; ingeriu uma droga ilícita ou substância de recreio, num ato em que a pessoa vê como de autoagressão; ingeriu uma substância ou objeto não ingerível”.

Foi analisada uma amostra comunitária de 1713 adolescentes (entre os 12 e os 20 anos, com idade média de 16 anos, sendo 56% do sexo feminino), de 14 escolas públicas da área da Grande Lisboa. Estes responderam a um questionário anónimo, em contexto de sala de aulas, em que se pesquisaram: variáveis sociodemográficas; comportamentos de saúde; acontecimentos de vida negativos; presença e caracterização de comportamentos autolesivos (incluindo a sua tipologia, motivações subjacentes, presença de ideação suicida, premeditação e comportamentos de pedido de ajuda); presença de ideação autolesiva; opinião dos jovens acerca do tema; sintomas ansiosos e depressivos; padrões de temperamento afetivo; utilização de estratégias de coping.

Verificou-se que 7,3% dos adolescentes já tinha apresentado pelo menos um episódio de comportamento autolesivo, calculando-se uma prevalência ao longo da vida de 10,5% para o sexo feminino e 3,3% para o sexo masculino e, verificando-se também uma prevalência nos últimos 12 meses de 5,7% e 1,8%, respectivamente. Cerca de metade (46%) apresentou mais do que um episódio de autolesão. O método mais frequente foram os cortes na superfície corporal (self-cutting) em 65%, seguindo-se as sobredosagens em 18%. A motivação mais frequentemente mencionada foi “ter alívio de um estado mental terrível”. Cerca de metade dos jovens de sexo masculino e um terço dos do sexo feminino admitiram ter pensado seriamente em morrer durante algum dos episódios de autolesão. Cerca de 6% da amostra relatou pensamentos de autolesão (sem o comportamento associado), sendo estes também mais frequentes no sexo feminino (9,5% vs. 2,4%).

A grande maioria dos jovens com estes comportamentos negou ter falado com alguém ou ter pedido ajuda, permanecendo estes como comportamentos “secretos” e não detetados pelos serviços de saúde ou escolares. Na amostra em estudo só 19% dos jovens admitiu ter feito algum pedido de ajuda previamente ao comportamento autolesivo (sendo este preferencialmente dirigido a amigos ou familiares), sendo que posteriormente ao comportamento este valor sobe para 37%. Só 13% recorreu ao hospital após a autolesão, tal acontecendo sobretudo em casos de sobredosagens.

Observou-se que a probabilidade de comportamentos autolesivos é significativamente maior no sexo feminino, naqueles que vivem noutro sistema familiar que não o nuclear e naqueles com maior insucesso escolar. Os jovens que relatavam autolesão apresentavam maior sintomatologia depressiva e ansiosa, assim como maiores taxas de consumo de álcool, de embriaguez, de consumo de tabaco e de utilização de drogas ilegais. Estes adolescentes apresentavam também maior número de acontecimentos de vida negativos, tendo-se destacado como variáveis preditoras independentes para ambos os sexos, a exposição à autolesão ou ao suicídio de outros e a presença de problemas com a lei. Ser vítima de bullying mostrou ser um fator preditor de autolesão no sexo masculino. Apresentar dificuldades com amigos e pares, assim como ter sido vítima de abuso físico ou sexual foram considerados importantes preditores para comportamentos autolesivos no sexo feminino.

Foi verificada uma associação fortemente significativa entre a presença de comportamentos autolesivos e a existência de um temperamento afetivo dominante dos subtipos depressivo, ciclotímico e irritável. Podendo este ser considerado como um possível marcador de vulnerabilidade inata.

Observou-se também que os adolescentes que relatavam comportamentos autolesivos, quando comparados com os outros jovens, apresentavam um perfil distinto ao nível da utilização de estratégias de coping. Verificou-se que os primeiros utilizavam menos estratégias de resolução de problemas, menos estratégias que implicassem o pedido de apoio a outras pessoas e, por outro lado, apresentavam maior utilização de estratégias não produtivas, como o evitamento, a redução de tensão ou a autocrítica. Este perfil de utilização de estratégias de coping pode ser considerado como um fator de vulnerabilidade passível de modificação.

Destes resultados conclui-se que os comportamentos autolesivos em adolescentes da zona da Grande Lisboa têm uma prevalência muito relevante, devendo ser motivo de atenção por parte dos decisores na área da saúde.

Destaca-se que em vários fatores que foram associados à autolesão em adolescentes existem possibilidades de intervenção, que poderão ser alvo de estratégias a nível clínico ou preventivo. Nomeadamente no que diz respeito aos consumos de substâncias, à sintomatologia depressiva e ansiosa e aos recursos a nível de estratégias de coping.

Por se tratar de um comportamento maioritariamente secreto, com escassos pedidos de ajuda, torna-se difícil a sua identificação e referenciação para os serviços de saúde, fator que deve ser tomado em consideração na criação de planos de prevenção nesta área.

Esta tese, na sua globalidade, contribui para aprofundar o estudo desta temática, preenchendo algumas lacunas existentes. Poderá ser utilizada como ponto de partida para futuros estudos (sendo realizadas várias sugestões nesse sentido), assim como de base para programas de intervenção nesta área (sendo apresentada também uma seção em que se discutem várias estratégias e se fazem propostas para esse efeito). Sistematiza os principais fatores associados à autolesão na adolescência, demonstrando a importância de uma compreensão alargada e multifatorial do fenómeno. Salienta a importância de uma estratégia ativa para a identificação e tratamento precoce de adolescentes com comportamentos autolesivos, baseadas na comunidade e com obrigatório envolvimento das famílias, das escolas e dos cuidados de saúde primários.

 

 

 

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