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Arquivo de etiquetas: O misterioso cérebro

O mito do “Multitasking”

Vivemos dias agitados… mais do que nunca somos inundados por informação, pseudo-informação, fatos e mitos… publicidade. Mais do que em algum tempo na história do Homem, se pretende que jovens e adultos (e mesmo crianças e idosos!), acompanhem o “ritmo das coisas”. Um ritmo impossível, uma velocidade de informação, de processamento, para o qual o nosso cérebro não está preparado para acompanhar.

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Hoje em dia temos telefones que mais parecem canivetes suíços, com uma aplicação para dormir, outra para controlar o movimento, uma calculadora, o email, o browser da internet, as redes sociais, as contas bancárias, etc. etc… Um símbolo daquilo que se quer para as pessoas nesta sociedade: que se adaptem, que façam tudo, simultaneamente, sem erros e rápido… Temos nas palmas das nossas mãos computadores que são mais rápidos que aqueles que existiam na sede de grandes empresas na área da informática há 3 décadas atrás. Há alguns anos tínhamos agentes de viagem que nos marcavam viagens, vendedores em lojas de pequeno comércio que nos ajudavam a escolher produtos, funcionários dos bancos que geriam as nossas contas… Hoje é esperado que cada um faça tudo, que aprenda tudo, que saiba tudo… Até em certos restaurantes de fast food já é possível termos uma refeição sem falar com absolutamente ninguém: os sistemas “smart-whatever”. E, para além de se exigir que tudo se saiba, que tudo se faça só, parece que é alguma espécie de deficiência fazer uma coisa de cada vez.

Ir de um lado para o outro deverá ser preenchido por ver os emails, consultar as redes sociais, fechar um negócio. O jantar em família aproveitado para ver as últimas noticias. Para o “verdadeiro profissional” é absoluta a necessidade de no fim de semana, nas férias, na doença, estar sempre “contactável”… e idealmente deverá estar na praia ou na audição musical dos seus filhos a enviar emails para clientes importantes.

Mas será isto minimamente eficaz, produtivo, inteligente ou mesmo… “smart”?

Vários estudos na área das neurociências, demonstram de várias formas, que o nosso cérebro não se adapta a este esquema… Ainda bem, não somos computadores! Na realidade o nosso cérebro nunca faz multitasking… apenas fracciona a capacidade de atenção e vai mudando o foco rapidamente de uma tarefa para a outra. E quando queremos levar isto ao exagero, basicamente levamos o cérebro à exaustão… perdemos capacidade, produtividade (essa palavra tão importante do séc. XXI).

É verdade que o nosso cérebro se adapta ao ambiente, que talvez no futuro seja uma realidade que o ser humano consiga fazer “multi-tarefas”, mas este tipo de evolução leva milhares de anos, um ritmo que não se compara a qualquer das evoluções e exigências dos dias de hoje.

Em suma, uma boa forma de prevenir a exaustão, a ansiedade e o stress, é não exigir do nosso corpo (que para os mais distraídos, inclui o cérebro) mais do que aquilo para que está preparado… é que nos computadores podemos mudar o processador, conseguimos por memórias RAM nos tablets… mas connosco – seres humanos – isso não é bem assim. A nossa capacidade de atenção não funciona simultaneamente e de forma dispersa; até mesmo o gozo de completar uma tarefa não acontece da mesma maneira quando se tenta “fazer tudo ao mesmo tempo”.

Uma sugestão de leitura (não sei se há edição portuguesa de Portugal): A mente organizada – Daniel Levitin .

Um abraço e bom Fim de Semana, a aproveitar as coisas, uma de cada vez…

DG 2016

 

 

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Divulgação: (Re)Descobrir a Psicopatologia – I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia

Serve o presente post para divulgar este evento científico que acho ser de ótima qualidade e uma oportunidade para discutir e atualizar, sobre um vasto número de temas na área da Psicopatologia. O I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia.

Nos dias 8 e 9 de Abril de 2016 irá realizar-se na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa o 1º Encontro da Associação Portuguesa de Psicopatologia intitulado Re-Descobrir a Psicopatologia, que contará com a presença de um painel de palestrantes nacionais e convidados internacionais com temas subordinados ao âmbito das bases da Psicopatologia e os novos desafios que surgem para a sua reformulação.

I encontro associacao port psicopatologia.pngAqui fica o link onde poderão encontrar o programa: http://psicopatologia.pt/agenda/redescobrir

E o link para a página de facebook da Associação.

Encontramo-nos lá?

Abraços

DG 2016

 

 

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De volta… e algumas coisas que aprendi.

Caros leitores do blogue,

Voltei de férias, já há alguns dias, mas isto de tirar 3 semanas de férias tem a sua contrapartida. O regresso está a ser uma loucura (até mesmo pelo padrão de psi)! Entre consultas e formações, pendentes e telefonemas, relatórios e situações urgentes… ainda não consegui voltar “à normalidade”. Mas espero que o consiga em breve e que assim possa voltar à carga no blog…

O regresso a Lisboa foi curto, pois de seguida parti para um congresso importante na área da Psiquiatria, o Congresso Europeu de Neuropsicofarmacologia. Assisti a sessões impressionantes, que mostraram o muito que se tem avançado no conhecimento das doenças psiquiátricas, dos sintomas psicopatológicos e do seu tratamento.

NeuroBrainOs avanços na área da neurociência são fascinantes e o cérebro é, de facto, de uma complexidade sem paralelo. Vou partilhar com vocês dois dos tópicos que me impressionaram mais.

O primeiro relaciona-se com os correlatos neurais da adversidade precoce. No fundo, algo que nenhum “psiquiatra moderno” quer admitir, parece que o Freud lá tinha alguma razão na sua teoria… experiências traumáticas precoces (adversidades como falta de afeto, pobreza, elevado stress familiar) levam a uma reconfiguração permanente do cérebro, com alteração da expressão genética, que se mantém ao longo da vida e que perante futuros fatores de stress (por ex: desemprego, desilusão amorosa, consumo de substâncias) pode levar ao aparecimento de problemas de saúde mental. E isto é algo que se vê com técnicas muito avançadas de neuroimagem! Uma das coisas que Tallie Baram e os seus colegas da universidade da Califórnia descobriram é que os principais fatores que levam a esta vulnerabilidade acrescida são os comportamentos dos cuidadores imprevisíveis e fragmentados. Portanto para proteger o cérebro das nossas crianças é mesmo necessário que hajam rotinas e que haja tempo dos pais (cuidadores) para estar emocionalmente com os filhos. Só assim se pode evitar a imprevisibilidade e a fragmentação que podem levar a consequências severas no futuro. Para quem tiver mais interesse neste tópico recomendo este artigo científico.

O segundo relaciona-se com as evidências cada vez mais contundentes que a depressão não é apenas uma doença relacionada com disfunção dos neurotransmissores (por exemplo: a serotonina), mas que tudo aponta para que tenha um elevado componente inflamatório. Sim, esse mesmo mecanismo responsável pelos nossos sintomas quando estamos constipados ou que leva ao combate de uma infecção na pele, quando ocorre de forma desregulada pode ser responsável (através de vários mecanismos altamente complexos) por lesões de células neuronais em áreas chave. Verificou-se que as pessoas com mais resistência ao tratamento antidepressivo têm maiores níveis de marcadores inflamatórios... e isto poderá trazer uma abordagem totalmente diferente e inovadora do tratamento das depressões resistentes. Para além de explicar algo que se vê muito na prática clinica, que é a associação entre depressão e várias doenças autoimunes, assim como ajudar a explicar porque razão existem tantos sintomas “físicos” para algo que se passa no cérebro. Para quiser aprofundar recomendo este artigo.

Até à próxima!
DG 2015

 

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Parar não é fácil, mas todos devíamos tentar de vez em quando

multitasking31Vivemos dias de pressa, acelerados… dizem-nos que temos de ser eficientes, produtivos, que o ideal é a capacidade de multitasking, que não há tempo a perder… Que o ócio é quase um pecado, que mesmo nos momentos de lazer temos de estar sempre “a fazer” alguma coisa. A tudo temos de estar atentos, às notícias mais recentes, às tendências da moda, ao email, ao que se passa no facebook, no linkedin, nos blogues, ao que se passa no emprego… As refeições passaram a ser um tempo aproveitado para olhar para o smartphone, entre garfadas a responder a emails ou a comentar nas redes sociais. Os nossos filhos correm de actividade em actividade, há “que estimular”, o tempo não chega para tudo e por isso retiramos horas do nosso sono.

Esta é a tendência da nossa sociedade e, claro está, cada vez mais temos pessoas em stress, com problemas de ansiedade, com problemas de sono, com problemas de abuso de substâncias (para tentar forçar o corpo a aguentar este ritmo) e em casos mais extremos burnout, depressão ou mesmo, suicídio.

É um facto que o nosso corpo está muito bem preparado para lidar com ameaças a curto prazo (stress agudo), aliás faz todo o sentido que perante uma ameaça os nossos sentidos estejam todos em alerta, que a respiração e o ritmo cardíaco acelerem, que o cérebro ative o seu sistema de resposta instintiva e automática, que se desligue a função cerebral superior de reflexão… só assim paramos automaticamente numa passadeira quando nos aparece do nada um condutor desenfreado (modo “freeze”), ou quando estamos numa situação que se poderá tornar violenta (como por exemplo um assalto, em que entramos no modo “luta ou fuga”).

No entanto o nosso cérebro não distingue bem as ameaças: um assalto, um animal selvagem a correr para nós, têm exactamente o mesmo efeito que “um prazo”, um horário de 10 horas por dia, o imaginar como encaixar as mil e uma atividades dos filhos na nossa agenda totalmente preenchida. Portanto, nesta sociedade acelerada e hiperestimulada, o nosso cérebro recebe constantemente sinais de perigo, está sempre em modo de alarme… E isto não é bom para a saúde! Neste post anterior poderão ver alguns dos efeitos do stress crónico no nosso corpo e mente.

Não será então de espantar que mudanças de estilo de vida ou práticas que forcem o “abrandar de ritmo” tenham efeitos tão benéficos para a nossa saúde (mental e física). A título de exemplo, temos o caso da terapia mindfulness (atenção plena), em que temos estudos em revistas médicas de elevado prestígio, que indicam o seu efeito benéfico na prevenção da depressão (ver artigo aqui). A base desta terapia é simples, mas difícil de por em prática, é proposto passar o nosso funcionamento do modo “fazer” para um modo “sentir”… sendo isto realizado através de práticas de meditação. Basicamente pede-se uma pausa, focando no aqui e no agora, nas sensações do momento presente. Experimentem, vão ver que não é fácil, que o nosso cérebro está tão habituado ao reboliço e a estar sempre em actividade, que a coisa mais “simples” do mundo – viver o presente- nos escapa por entre os dedos.

Não é fácil parar, mas pela nossa saúde mental, é mesmo preciso tentar de vez em quando.  Relembrando a máxima: “A paz vem de dentro de si mesmo. Não a procure à sua volta.”

Um abraço em “modo Zen”.

DG 2015

 

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O cérebro adolescente – usar ou perder!

massa-cinzentaPor volta dos 6 anos de idade, o cérebro já tem 95% do tamanho que irá ter em adulto. No entanto a substância cinzenta (ver imagem) a parte do responsável pelo pensamento, continua a ficar mais espessa até pelo menos aos 12 anos.

Este espessamento corresponde a ligações que os neurónios fazem uns com os outros, chamadas sinapses, tal e qual como se fosse uma árvore a crescer e criar novos ramos e raízes.

Depois deste pico por volta dos 12 anos o cérebro começa a eliminar as ligações em excesso, preservando apenas aquelas que são úteis para a pessoa, tal e qual como se estivesse a “podar uma árvore”.

A imagem abaixo mostra essas ligações ao longo dos anos, podemos ver que são pouco densas no inicio, aumentam muito na fase final da infância e ficam outra vez mais reduzidas a partir da adolescência.

synapticdensity

Utilizar ou perder!

Dados das neurociências revelam que a fase que ocorre na adolescência, de selecção das ligações entre os neurónios, ocorre baseada num fundamento: “utiliza-os ou perde-os”! Ou seja, os neurónios e as ligações que são utilizadas pelo cérebro irão sobreviver e “florescer”, os que não são utilizados irão atrofiar e possivelmente ser eliminados.

Portanto se o adolescente passa muito tempo a utilizar o cérebro em actividades como desporto, música ou estudar, essas ligações cerebrais ficam fortes… melhorando as suas capacidades futuras como adulto. Se o adolescente passa o tempo no sofá, a ver televisão, a jogar jogos, serão essas as células que irão permanecer…

sculptorNa realidade esta fase pode ser considerada como uma fase de “escultura” do cérebro e o artista é o próprio adolescente! E todos sabemos que não é o tamanho que faz uma escultura ser uma obra de arte, mas sim o cuidado, precisão e a criatividade envolvida. Com o cérebro é exactamente o mesmo!

Durante esta fase de selecção de ligações neuronais o adolescente começa a focar-se nas suas habilidades, sejam estas a arte, o desporto, o estudo ou a música. As escolhas que fizer nesta altura irão reflectir-se quando for adulto.

Isto não quer dizer que adolescentes mais velhos ou adultos não possam desenvolver capacidades novas. O nosso cérebro está sempre “em movimento”. Por exemplo, todos sabemos que um adulto pode aprender a tocar um instrumento ou a praticar um desporto, mesmo que nunca o tenha feito enquanto jovem. No entanto também sabemos que é muito mais difícil e moroso fazer isto quando somos mais velhos! Esta dificuldade acontece porque é preciso fazer novas ligações no cérebro… e quando somos jovens isso é muito mais fácil! As ligações estão lá só é preciso seleccionar.

teen-brainO papel das interacções sociais

Pelo que foi dito até agora parece que estou a sugerir que os adolescentes passem todo o seu tempo a fazer desporto, a escrever poesia, a cantar, a estudar ciências, a ouvir música, etc.

Mas existe também algo muito importante que os neurocientistas também descobriram: estar com os outros, desenvolver relações íntimas, conversar, discutir temas, são provavelmente das melhores atividades para estimular o cérebro. Aliás, é também na adolescência que as nossas capacidades sociais se desenvolvem, e mais uma vez é “utilizar ou perder“!

E qual o interesse disto?

Algumas conclusões podem ser tiradas do que vimos acima:

  1. A forma como o adolescente ocupa o tempo é decisiva neste processo de “esculpir” o cérebro. Um jovem que se ocupa com actividades culturais, artísticas, desportivas, educacionais irá preservar para o futuro muito maior capacidade cerebral!
  2. Este trabalho em curso pode ser prejudicado pela utilização de substâncias tóxicas para o cerébro, como drogas ou álcool.
  3. Passar tempo de qualidade com outras pessoas é um dos melhores estímulos cerebrais! Se os pais querem estimular um adolescente não basta inscrevê-lo em 4 instrumentos, 2 desportos e 5 cursos de línguas… mais vale passarem um fim-de-semana com ele!
  4. Um adolescente que desenvolva as suas capacidades terá no futuro melhores oportunidades (profissionais, académicas, sociais) e estará provavelmente mais protegido de doenças mentais!

Um abraço e não se esqueçam de exercitar o vosso Cérebro! (Neste post anterior existem algumas dicas para este efeito).

DG 2015

 

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A ficar “engripado”… e a propósito: “malditas citoquinas”!

gripeBom, parece que não me escapo… Gosto muito do Inverno, dos dias frios, da chuva, das conversas no interior dos cafés a beber um chá, de estar em casa e ligar a lareira; mas há algo que odeio definitivamente: ficar constipado! (Leitores brasileiros: constipado não é um problema dos intestinos… em Portugal, é síndrome gripal). E hoje começou a atacar forte, lá começam os lenços de papeis a surgir durante a consulta (que mau aspecto), os espirros, o “é melhor não se aproximarem”…

É realmente deprimente estar constipado… e depois, para além do mal-estar provocado pela infecção (e resposta do organismo), que já nos deixa de rastos, e do facto de toda a gente nos parecer evitar, parece que a nossa própria resposta imune leva a sintomas depressivos e ansiosos… Malditos mediadores inflamatórios (também chamados citoquinas ou citocinasninguém sabe bem como se escreve isto em português.)! É por isso normal quando estamos doentes sentirmos maior irritabilidade e ansiedade, assim como retraimento e perda de interesse por atividades… São os “blues das constipações“.

Este estudo publicado no Archives of General Psychiatry fala mesmo disto, reparem na conclusão: “In humans, a mild stimulation of the primary host defense has negative effects on emotional and memory functions, which are probably caused by cytokine release. Hence, cytokines represent a novel target for neuropsychopharmacological research”. É curioso que um dos alvos de futuras medicações na Psiquiatria é o sistema imunitário.

Bom, vamos lá restablecer o stock de lenços de papel…

Abraços

DG 2015

 

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Quando o pânico se instala…

A perturbação de pânico é muito frequente, tendo uma prevalência estimada de 2 a 3% em adolescentes e adultos. Tal como a maioria das perturbações de ansiedade é mais frequente em mulheres (2 a 3 vezes mais) e é uma perturbação que se inicia habitualmente em idades jovens (tipicamente na segunda ou na terceira década).

A sua característica principal é a ocorrência de ataques de pânico repetidos e inesperados, durante um período de pelo menos 1 mês, associados a medo e preocupações intensos relativos à sua recorrência ou implicações.

mcqueenpan61Uma coisa que poucos sabem é de onde surge o nome “pânico“… E é incrível que se fala de pânico desde a antiga Grécia! De facto uma das figuras mais conhecidas da mitologia grega dá origem a este nome: o semideus Pan (o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores). As lendas dizem que Pan vivia nos trechos solitários que separavam as cidades-estado gregas, e que era travesso! Uma das diversões favoritas de Pan era a atormentar os viajantes que atravessavam estas estradas solitárias. Pan ficava à espreita, escondido no mato, à espera de suas vítimas e quando um viajante passava perto do seu esconderijo, começava a tortura. Fazendo sons nas trevas, remexendo nos arbustos, criava uma sensação de apreensão no pobre viajante. Então este começava a correr, a fugir, e Pan corria à sua frente através da floresta, aguardando no próxima curva escura do caminho. Lá voltava ele aos seus gritos, barulhos, induzindo no viajante o terror. Por esta altura a pobre vítima iria começar a respirar mais profundamente, o seu coração começava a bater forte, e os sons dos seus próprios passos acelerados seria ampliados na quietude da floresta para se assemelharem aos de um animal selvagem que o perseguia. Mais um farfalhar dos arbustos, mais um uivo assustador e o viajante fugia a sete pés o mais rápido que conseguisse ao longo do trajeto da floresta escura e estreita. Que nenhum viajante entrasse nos seus bosques sem experimentar uma onda de apreensão, assim fazia Pan para manter os intrusos humanos fora do seu reino. Daqui surgiu o termo pânico.

Os ataques de pânico são períodos breves de medo ou desconforto intenso, acompanhados de vários sintomas físicos e psíquicos de ansiedade, tais como: palpitações; sudorese; tonturas; sensação de falta de ar ou engasgamento; tremor; desrealização (sentir que o mundo é irreal, como num sonho) ou despersonalização (sentir-se desconectado de si mesmo). Tipicamente os ataques de pânico chegam à sua intensidade máxima em 10 minutos e duram cerca de 30 a 45 minutos. Habitualmente as pessoas que sofrem de um ataque de pânico pensam de forma catastrófica, achando que vão morrer, que estão a “ficar loucos” ou que estão a perder o controlo.

Ter um ataque de pânico não significa que se esteja perante um diagnóstico de perturbação de pânico, estes podem ocorrer em pessoas sem qualquer doença em situações de grande stress, podem ocorrer no contexto de determinadas fobias (por exemplo, medo de falar em público pode desencadear ataques de pânico), no contexto de abuso de substâncias (cannabis ou cocaína por exemplo) e podem ocorrer em determinadas doenças físicas (como por exemplo no caso de problemas de tiróide, na asma, em certas arritmias cardíacas). Assim sendo é de grande importância fazer um bom diagnóstico diferencial.

O que origina a perturbação de Pânico?
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Sabemos hoje que esta doença é causada por uma “desregulação” do nosso sistema de alarme interno. Estudos de neuroimagem cerebral sugerem a hiperatividade dos centros do medo (que têm como função ativar o nosso organismo perante ameaças para entrar em modo de luta ou fuga) caso da amígdala, do tálamo, do hipotálamo; verifica-se também uma desregulação do controle respiratório no tronco encefálico, assim como hiperreatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Vários fatores foram implicados na génese da perturbação de Pânico: genéticos (o risco é 5 vezes maior nos parentes de primeiro grau); ambientais (até 80% dos pacientes relatam ter sofrido eventos negativos importantes em suas vidas antes da manifestação inicial dos ataques); psicológicos (é comum observar-se sensibilidade à ansiedade, ou a tendência a interpretar os sintomas físicos de forma errónea como perigosos).

Como se trata?

Trata-se de uma situação de óptimo prognóstico. É comum relatar taxas de cura acima dos 90% quando a situação é manejada de forma óptima. As modalidades de tratamento de primeira linha incluem fármacos (inibidores seletivos de recaptação de serotonina ou inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina) ou psicoterapia (habitualmente cognitivo-comportamental).

Aqui fica uma breve síntese sobre a perturbação de pânico, espero que seja útil.

Um abraço

DG 2015

 

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