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Arquivo de etiquetas: Crise e Saúde Mental

Divulgação: Petição “Orçamento e respostas para a Saúde Mental”

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Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «URGENTE – Orçamento e respostas para a Saúde Mental» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT83322

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação para os vossos contactos.

Obrigado.

DG 2016

 

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E se as doenças “normais” fossem tratadas como a depressão?

se as doenças "normais" fossem tratadas como a depressão

Infelizmente isto acontece mesmo… As frase que os meus doentes com depressão dizem ouvir de familiares, amigos, conhecidos, colegas, são exactamente estas (sem tirar, nem por… com excepção do sotaque brasileiro). Já imaginou o que estes sentem?

A depressão não é uma situação que se possa resolver de forma voluntária, as pessoas deprimidas não conseguem simplesmente controlar os seus pensamentos e atitudes e ficar melhores.

Urge lutar contra este estigma e preconceito!

Mais sobre depressão aqui: https://reflexoesdeumpsiquiatra.com/2013/09/06/e-quando-ficamos-deprimidos

Abraços

DG 2014

 

 

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O estranho caso do “soft power sagrado”

Soft power sagrado“… estas palavras têm ecoado na minha mente ao longo destas últimas semanas, deixando uma desagradável sensação de incompreensibilidade e inquietação… talvez o termo mais correcto para este sentimento seja mesmo “inconseguimento” emocional.

Tudo começa nesta entrevista que, para os mais desatentos, é fundamental ver para compreender a motivação deste artigo.

Sem qualquer dúvida toda a entrevista era merecedora de uma análise detalhada, mas para já vou focar apenas o conceito que me tem inquietado: “soft power sagrado“.

A pujança do conjunto destas 3 palavras leva-me a tomar a opção metodológica de analisar separadamente cada uma delas. Com certeza o todo será mais que a soma das partes, mas sem a visão aprofundada do detalhe como chegar a esse zénite conceptual (só ao alcance dos grandes pensadores da pátria lusitana)? Para além das dificuldades que desde já se afiguram, lido com um termo anglo-português, com traços da língua de Camões, mas também da do ilustre Shakespeare… Admito, isto não vai ser fácil, mesmo para alguém que profissionalmente lida diariamente com questões de linguagem, pensamento e lógica. Mas vamos a isto!

Soft – um adjectivo que segundo o dicionário Merriam-Webster significa algo agradável ou prazeroso para os sentidos (“pleasing or agreeable to the senses :  bringing ease, comfort, or quiet“). Por outro lado pode também significar algo mole, fácil de pressionar, de dobrar ou cortar (“easy to press, bend, cut, etc”). Começa a confusão, que significado escolher? Mole ou agradável!? A nossa presidente da Assembleia mete-me em dificuldades… Mas vamos prosseguir, pois por vezes o caminho dá as respostas.

Power – em Inglês, segundo o citado dicionário, trata-se de um substantivo que traduz a capacidade ou direito de controlar pessoas ou coisas (“the ability or right to control people or things”). Parece-me existir apenas uma tradução para Português, “poder”. Mas novamente deparo-me com problemas: na língua de Camões este termo também pode ser um verbo, para além de um substantivo… E agora? Talvez juntar os dois termos ajude…

Soft_Power_(2004)_by_Joseph_Nye

Soft power – Poder mole ou poder prazeroso? Prazer no poder? Poder agradável? Hum… Como vou sair desta? Já sei! Vou fazer algo fantástico e tão típico do século XXI: pesquisar na Wikipedia. E eis que existe mesmo uma página sobre soft power! Agora sim, estou totalmente rendido a esta grande enciclopédia virtual! E esta diz: “Soft power is a concept developed by Joseph Nye of Harvard University to describe the ability to attract and co-opt rather than coerce, use force or give money as a means of persuasion“. Hum… interessante. Segundo as palavras do autor Joseph Nye:

“O conceito básico de poder é a habilidade de influenciar outros a fazer o que você quer. Há três maneiras de se fazer isto: uma delas é ameaçá-los com galhos; a segunda é comprá-los com cenouras; e a terceira é atraí-los ou cooperar com eles para que queiram o mesmo que você. Se você conseguir atraí-los a querer o que você quer, isto ira custar-lhe muito menos cenouras e galhos”.

Brilhante conceito! Estou devastado como estas palavras se combinam para formar algo tão inovador e tão belo como influenciar, enganar, aldrabar (uma palavra tão portuguesa) ou “dar à volta” a um grupo de pessoas, de modo a que façam o que nós queremos (mas sem que se apercebam disso). É inspirador! Viva o poder mole ou o poder prazeroso! Penso que a imagem abaixo reflecte na plenitude o conceito de “soft power… mas a trama adensa-se na próxima palavra, prossigamos então.

Um exemplo de "soft power"...

Um exemplo de “soft power”…

Sagrado – Segundo a wikipedia (hoje não a largo mais), “sagrado (do latim sacratu) refere-se a algo que merece veneração ou respeito religioso por ter uma associação com uma divindade ou com objetos considerados divinos”. Muito bem, não surpreende. Em pleno século XXI esta mistura entre religião, política e poder, mantém-se tão actual como na idade média. Por outro lado, o sagrado é algo que transcende o comum dos mortais, que o ultrapassa, o que me leva a ficar mais aliviado… afinal estamos a falar de conteúdos acessíveis apenas a entidades divinas. Também sagrado pode ser entendido no seu sentido moral, qualificando valores primordiais… Mas tenho dúvidas que tenha sido esse o sentido utilizado. Sinceramente, moralidade e políticos… minha nossa, que blasfémia! Vou então inferir que o sentido é mesmo o religioso.

Agora que já temos as peças do puzzle, partimos para a análise final da forma, baseados, evidentemente, no fundamento da teoria Gestalt em que “o todo é mais do que a soma das partes”!

Soft power sagrado – …ou poder mole sagrado… hum… ok… bom… estou a ter alguma dificuldade… haverá alguma religião, seita ou culto, que venere o poder mole?… E não é que encontro um artigo (estou a adorar a internet hoje), intitulado “Religion, ‘soft power’ and international relations“!? Quem o assina é Jeffrey Haynes, professor de política na London Metropolitan University. Mas rapidamente fico desiludido com o seu resumo:

This paper focuses on religious soft power in international relations with a focus on the foreign policies of the USA, India, and Iran. The main argument is that if religious organisations and constituencies manage to ‘get the ear of government’ they may be able to influence foreign policy

Não refere as políticas internacionais portuguesas, assim sendo não faria qualquer sentido que a nossa “número 2” citasse este, com certeza interessantíssimo, artigo (que eu não vou ler). Pareço estar num beco sem saída. Vou experimentar outra abordagem, uma com que estou muito familiarizado, a Psicopatologia…

Existe um conjunto de alterações do discurso, de carácter funcional, composto de alterações semânticas e sintáticas, entre as quais temos:

  • Neologismos – novas palavras construídas pelo paciente;
  • Paralogismos – atribuição de um novo significado a uma palavra existente;
  • Esquizoafasia ou “salada de palavras” – discurso  desconexo, associado à alteração do processo associativo do pensamento;
  • Glossolália – estilização, rebuscamento, maneirismos no discurso numa tentativa de adoptar um funcionamento rígido e estereotipado, perdendo a adequação e a flexibilidade do comportamento verbal em relação ao seu contexto sociocultural, acabando por gerar uma linguagem idiosincrátiva “privada”(criptolália). Ocorre na esquizofrenia e nos estados de êxtase religioso.

Portanto os dois primeiros parecem-me excluídos, o terceiro levanta-me dúvidas (poderia ser)… agora o último Glossolália… Minha nossa Senhora! Que êxtase é isto mesmo!! Obrigado Manual de Psicopatologia da Lidel (do qual sou coautor, publicidade à parte)!! Mas mesmo assim tenho que ir confirmar à minha amiga wikipedia, o que dizes?

Glossolalia (do grego γλώσσα, “glóssa” [língua]; λαλώ, “laló” [falar]) é um fenômeno de psiquiatria e de estudos da linguagem, em geral ligado a situações de fervor religioso, em que o indivíduo crê expressar-se em uma língua por ele desconhecida, em geral inexistente, mas por ele tida como de origem divina; entretanto essas falas são caracterizadas pela repetição da cadeia sonora, sem qualquer significado sistemático e, ainda, com raras unidades linguísticas previsíveis, sendo o falante incapaz de repetir qualquer dos enunciados já pronunciados.

Aí está, não sobram dúvidas, trata-se de um êxtase religioso. Mistério resolvido! Estou mais descansado, agora não tenho dúvidas nenhumas que Portugal está em boas mãos, com este governo e assembleia devotos e pios (pio = inclinado à piedade; devoto; compassivo; misericordioso).

Um bem haja e amén! Lutem contra o inconseguimento!

Abraços

Diogo Guerreiro

Um exemplo de "soft power sagrado"...

Um exemplo de “soft power sagrado”…

 

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2014: Ano Europeu do Cérebro

O European Brain Council nomeou o ano 2014 como o Ano do Cérebro na Europa.

Esta iniciativa tem o apoio de mais de 200 organizações que representam doentes, comunidades científicas e profissionais de saúde, das várias disciplinas que se focam no estudo do cérebro. Para além de vários comissários europeus, o projeto também recebeu o apoio significativo e entusiasta por parte do Parlamento Europeu e dos Estados-membros da União Europeia.

Com o lançamento do ano do cérebro na Europa em 2014, pretende-se conseguir consciencializar e educar, alcançando um impacto significativo na modificação das percepções e redução dos estigmas.

O cérebro, porquê?

A estrutura mais complexa do universo encontra-se dentro de cada um de nós: o cérebro humano.

Com milhares de milhões de neurónios e uma quantidade incontável de redes de informação, apesar dos enormes progressos das neurociências nas últimas décadas, estamos longe de o compreender totalmente.

Além de fornecer a base de nossa personalidade, pensamentos, sentimentos e outras características humanas, o cérebro é também a origem de muitas doenças crónicas e incapacitantes, como é o caso das demências, com um enorme impacto na sociedade e que coloca uma crescente pressão sobre os sistemas de saúde, sobretudo à medida que as populações se tornam mais envelhecidas.

Aqui fica o link para a iniciativa: www.europeanbraincouncil.org

E um link para uma entrevista com o neurologista Alexandre Castro Caldas, a este propósito: RTP Play

E um documentário, da BBC, sobre a evolução do cérebro humano (em inglês, mas com legendas em português):

Um abraço a todos

Diogo Guerreiro

 

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Como odeio quando utilizam a palavra esquizofrenia para tudo e mais alguma coisa!

FuriosoA esquizofrenia é uma das mais graves doenças psiquiátricas, que mais sofrimento trás aos doentes e aos seus familiares, cujo o tratamento é difícil e que tanto prejuízo causa a nível pessoal, profissional, familiar e social. Não vou falar muito sobre o que é a esquizofrenia, mas quero apenas referir que é uma doença mental que afecta cerca de 1% da população. Surge geralmente numa idade jovem (final da adolescência início da idade adulta). Tem 3 grupos principais de sintomas:

  • Sintomas positivos: comportamentos e pensamentos que não era suposto existirem, como ideias delirantes, alucinações e desorganização do pensamento.
  • Sintomas negativos: sintomas que determinam uma diminuição da actividade normal, como apatia, anedonia, abulia (basicamente estes três termos implicam diminuição da motivação, vontade e prazer em fazer coisas), embotamento afectivo (incapacidade de modular as emoções) e lentificação do pensamento.
  • Sintomas cognitivos: os mais comuns são a falta de atenção e concentração e o prejuízo da memória. Estas alterações podem ocorrer mesmo antes do primeiro surto da doença (numa fase que chamamos pródromo) e agravar-se ao longo da doença. Estes doentes têm dificuldade em planear e executar tarefas, em tomar decisões e mesmo a nível de linguagem poderão existir dificuldades.

Para mais informações sobre a doença (esquizofrenia) consultar este link.

Infelizmente o termo “esquizofrenia” é provavelmente uma das palavras que pior se utiliza. A palavra significa literalmente “mente dividida”. O Psiquiatra que cunhou este termo, Eugen Bleuler (1911-1950) pretendia que esta palavra descrevesse “a quebra com a realidade causada pela desorganização de várias funções da mente, tal como o pensamento ou os afectos, que nestes doentes não funcionavam correctamente em conjunto”. No entanto muitas pessoas utilizam frases como “sinto-me esquizofrénico” quando têm “mixed feelings” acerca de algo: “gosto desta pessoa, não gosto desta pessoa”; “quero fazer isto ou não quero?”, etc.

Mas mais grave do que isto são pessoas com responsabilidades elevadas utilizarem o termo esquizofrenia por tudo e por nada, tais como jornalistas e políticos, revelando uma enorme falta de respeito pelo sofrimentos destes doentes e familiares, que já são altamente estigmatizados e vítimas de preconceito.

São lamentáveis frases que aparecem na comunicação social e na internet tais como:

A chamada “silly season” atacou mais uma vez o país nesta fase do ano. Para não variar. Embora os sintomas, desta vez, levem à suspeita de uma afetação adicional: a da esquizofrenia. Não houve um só bicho-careta incapaz de comentários epidémicos originários da crise política gerada a partir de uma coligação governamental alvo de amuos, traições e piruetas. – Por Fernando Santos, no JN de 2013-07-08

O líder parlamentar do PS considerou esta quarta-feira que o Governo e o PSD revelam sinais de “esquizofrenia política” – Por Carlos Zorrinho, citado no CM de 2012-10-31

Ministério da Educação sofre de esquizofrenia política – Por  Mário Nogueira, na TVI24 a 2012-07-13

Um país esquizofrénico – Por José Gomes André, titulo de post no blog Delito de Opinião em 2013-02-03.

A meu ver isto revela uma clara falta de respeito pelos doentes, famílias e técnicos de saúde que trabalham com estes doentes! Não haverá palavras melhores? Menos discriminatórias?

Digam que o governo é incompetente, incoerente, ineficaz; gritem que determinada medida é ridícula, não faz sentido ou mesmo… é uma *****!! Mas por favor parem de aumentar o preconceito contra os doentes mentais!! É uma questão de moral.

…Isto é uma daquelas coisas que me deixa furioso (daí a imagem escolhida).

Um abraço furioso a todos (e espero que alguém leia este apelo).

DG 2013

 

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Medicina, empatia e “estúpidas barreiras”

Empatia, é provavelmente a mais importante característica de qualquer técnico de Saúde.

O termo empatia é atribuído ao filósofo Theodor Lipps. O desenvolvimento deste conceito nas ciências psíquicas começou por Karl Jaspers, em sua obra Psicopatologia Geral (em 1913). Nesta obra, propõe que o psiquiatra, ao invés de interpretar, deve “apresentar de maneira viva, analisar em suas inter-relações, delimitar, distinguir do modo mais preciso possível e designar com termos fixos os estados psíquicos que os pacientes realmente vivenciam”

O Professor Doutor José Caldas de Almeida, director da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa define-a da seguinte forma (1): “A compreensão empática deriva da capacidade do médico se colocar na pele do doente e de o tentar conhecer melhor, recorrendo ao conhecimento que tem de si próprio”.

Por vezes sinto que o sistema actual cada vez menos valoriza esta característica. Só vejo preocupações com números, com contenção de despesas, com redução do tempo das consultas. Tantas vezes este processo é inibido pelos contextos, como a falta de privacidade em muitas unidades de saúde (sobretudo em urgências) e pelas fortes pressões de gestores que de empatia percebem zero.

Vejo muitas pessoas a queixar-se que os seus Médicos “não os ouvem”, “que não compreendem o seu sofrimento”, “que os querem despachar”… Infelizmente isto acontece cada vez mais. Mas não creio que a culpa seja fundamentalmente dos técnicos de saúde (claro que há sempre “ovelhas ranhosas”), mas sim fruto desta aceleração constante, da primazia dos números em relação à pessoa e do excesso de stress que a todos afecta.

Como pode haver capacidade de empatia num médico após 24h de urgência ? Ou que trabalha em sítios sem condições mínimas, com falta de pessoal, com falta de material, com os gestores sempre a pressionar para gastar cada vez menos e para passarem menos tempo com os doentes?

Vivemos tempos difíceis. Pode ser a minha visão parcelar, mas eu acredito muito que os médicos e os outros técnicos de saúde se esforçam muito e que não têm dúvidas que a empatia é o pilar de qualquer seguimento e tratamento bem sucedido.

Mas aqui deste lado desta “estúpida barreira” que foi criada entre médicos e doentes, as coisas não estão fáceis. Todos os dias saem notícias que visam culpar os médicos por tudo o que corre mal nos hospitais e centros de saúde, todos os dias saem notícias sobre um esquema de corrupção que envolve algum médico (habitualmente no meio de vários outros parceiros de outras áreas) e logo se generaliza “estes médicos são todos uns corruptos”. Este constante bombardeamento de notícias que visam tornar os médicos num “bode expiatório” para a visível degradação dos cuidados de saúde em Portugal fortalecem a “estúpida barreira”. Tornam os doentes e os médicos mutuamente desconfiados. Por exemplo:

– Médico: “Será que este tipo me vai por um processo, isto agora acontece tanto?”… “Será que me vai tratar com duas pedras na mão?”… “Será que vai ser agressivo comigo?”.

– Doente: “Será que este tipo me vai tratar mal?” … “Será que é daqueles médicos corruptos e baldas?”… “Será que este médico vai mesmo fazer tudo para me ajudar?”.

Como pode existir uma relação empática nestas condições? Não pode.

empathyInterrogo-me e penso muito acerca da forma de dar a volta a este problema. Talvez fosse importante mudar o foco para os principais “players: os políticos, os gestores hospitalares, o Ministro da Saúde, a Troika. Talvez fosse importante derrubar esta “estúpida barreira” e voltarmos a trabalhar em conjunto: os técnicos de saúde (médicos, enfermeiros, psicólogos, etc.) e os doentes e seus familiares.

Porque precisamos todos uns dos outros e porque é tão melhor trabalhar em versão empatia.

Deixo esta minha reflexão com esperança que um dia as coisas mudem para melhor.

Abraços a todos

DG 2013

(1): Referencia bibliográfica: Caldas de Almeida JM. Intervenção psicoterapêutica em clínica geral. In: Caldas de Almeida JM, Machado Nunes J, Carraça I, editores. Saúde Mental na Prática do Clínico Geral. Edições do Instituto de Clínica Geral da Zona Sul, Lisboa; 1994; p.113-120

 
2 Comentários

Publicado por em 27 de Junho de 2013 em Reflexão geral

 

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Preocupante…

worry-wartsEstou preocupado (já o tinha referido num anterior post) e acho que todos deveríamos estar preocupados com este assunto: as consequências da crise na Saúde (mental e não só) e quais as medidas que realmente se têm tomado para minimizar as mesmas.

Deixo duas referências que podem ajudar nesta reflexão (uma notícia e os dados de um relatório, ambos muito recentes).

1) Notícia retirada do site do Expresso, de 18 de Junho de 2013

Doentes mentais faltam a consultas e diminuem ou abandonam medicação

O coordenador nacional para a saúde mental afirmou hoje que as pessoas com problemas crónicos nesta área têm faltado mais do que era comum às consultas e, em alguns casos, diminuíram ou abandonaram a medicação por carência económica.

Álvaro de Carvalho falava à agência Lusa à margem da apresentação do Relatório da Primavera 2013 do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS), que hoje decorreu em Lisboa.

“Tenho falado com colegas que são os diretores dos departamentos de psiquiatria e saúde mental dos hospitais gerais – que já são cerca de 40 — para saber qual a situação”, explicou.

Nessa “avaliação relativamente informal”, o psiquiatra apurou que “sobretudo as pessoas com problemas crónicos e tendencialmente incapacitantes de saúde mental estão a faltar mais do que era comum às consultas”.

“Em alguns casos, esses doentes abandonaram ou diminuíram significativamente as medicações”, disse, alertando para os riscos de descompensação que essas pessoas correm.

Segundo Álvaro de Carvalho, a situação também se regista em outras áreas da saúde e “é fruto da carência económica em geral e do agravamento do custo dos transportes”.

“Temos um conjunto de fatores que são consequência da crise económica e social que vem agravar a qualidade do estado de saúde e potencialmente agravar o estado de saúde individual dessas pessoas, uma vez que a paragem da medicação ou uma medicação apenas parcial vai pôr em causa a boa evolução que havia até aí”, sublinhou.

Relativamente aos dados apresentados pelo OPSS referentes à Unidade Local de Saúde do Alto Minho, onde se verificou, de 2011 para 2012, um acréscimo no diagnóstico de depressão de 30 por cento para os homens e 31 por cento para as mulheres, o psiquiatra classificou-os de “fenómenos previsíveis”.

Nessa Unidade Local de Saúde, registou-se um acréscimo de 35 por cento para os homens e 47 por cento para as mulheres de tentativas de suicídio.

O especialista em saúde mental sublinha que, tendo em conta a origem da descompensação destas pessoas, nomeadamente o desemprego, não será o recurso aos serviços de saúde a resolver o problema.

“A intervenção clínica pode minimizar, mas não vai à causa do problema, que é obviamente extra saúde”, adiantou.

2) Relatório Primavera 2013: “duas faces da saúde” do Observatório Português dos Sistemas de Saúde. Podem ver aqui: http://www.observaport.org/rp2013.

Algumas passagens relevantes:

Página 30: O aumento da ansiedade e depressão em Portugal tem vindo a ser identificado por diferentes fontes: questionários sobre as perceções dos profissionais e registos clínicos dos médicos de família.

Página 46: Estudos que analisaram dados de 26 países da União Europeia (UE), entre 1970 e 2007 concluíram que, nos indivíduos com idades inferiores a 65 anos, cada aumento de 1% na taxa de desemprego estava associada a uma subida de 0,79% na taxa de suicídio. Para aumentos superiores a 3%, na taxa de desemprego este impacte era mais significativo, com uma subida de 4,45% na taxa de suicídios e de 28% nas mortes decorrentes do consumo excessivo de álcool

Página 50: Em Portugal, não são conhecidos estudos que avaliem o impacte da crise na saúde mental das pessoas.

Página 101: São visíveis os efeitos da crise (pouco monitorizados e avaliados), não só na saúde da população, mas também no sistema de saúde, agravados pela ausência de apoio àqueles que são os projetos estratégicos, de médio e longo prazo, deste setor.

Página 102: Durante os últimos 4 anos, nos quais o OPSS tem realizado análises precisas, independentes e periódicas, identificando, recolhendo e produzindo informação e conhecimento sobre a evolução do sistema de saúde português e dos seus condicionantes, tem também chamado anualmente, a atenção para a “crise e a saúde”, através de relatórios detalhados – elaborados com recursos muito escassos – não existe ainda em Portugal um diagnóstico oficial sobre esta matéria, a partir do qual seja possível organizar no terreno uma resposta adequada aos efeitos da crise na saúde. (…) Não seria de esperar que o Ministério da Saúde realizasse um diagnóstico e monitorizasse os efeitos da crise na saúde e que por sua vez, o OPSS analisasse e criticasse as medidas implementadas e os seus resultados? Não existindo esse diagnóstico, não temos respostas atempadas, não temos respostas integradas e não temos naturalmente respostas eficazes. Isso é preocupante.

paulomacedosantinhodosd

Para pensar… Será que o Ministro da Saúde, que de tão boa fama goza, está realmente a fazer um bom trabalho?

Um abraço
DG 2013

 

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