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Arquivo da Categoria: Ansiedade

Novas tecnologias e psicopatologia

Recentemente pediram-me para falar sobre o tema “novas tecnologias e psicopatologia“, nas jornadas de Psiquiatria do Hospital Garcia de Orta. Realmente é um tema muito atual, desafiante, mas também extremamente complexo e extenso… Só refletir no que são “novas tecnologias” me deixou intrigado. Tanto como estudar a sua relação com a saúde (ou, neste caso, a doença) mental. Mas aceitei o desafio e lá estive esta semana a apresentar algumas coisas que estudei.

Novas tecnologias vs cérebro velho

As grandes conclusões são que as novas tecnologias são parte integrante do ecossistema em que os seres humanos habitam e que, sem dúvida, influenciam o nosso cérebro… talvez mesmo ao ponto de o eventualmente modificar! Que apesar das “novas tecnologias” estarem ainda a “anos-luz” das maravilhas que o nosso cérebro consegue fazer, elas evoluem a um ritmo impressionante e, é verdade, que o nosso “velho cérebro” (que demorou muitos milhões de anos a evoluir para a forma como se encontra hoje) poderá ter algumas dificuldades em se adaptar às mesmas.

Mas, na realidade, como em tudo o que se passa na nossa vida, o risco de “as novas tecnologias” nos deixarem “doentes” depende da forma como são utilizadas e dos mecanismos que utilizamos para nos defendermos. E que, aparentemente (digo isto porque não houve ainda tempo suficiente para responder a todas as questões), as “novas tecnologias” tanto podem trazer benefícios como malefícios.

Gostaria também de partilhar este conhecimento com os leitores do blog e da página de facebook. Portanto, aqui fica a apresentação, esperando que gostem e que vos seja útil para refletir sobre esta temática.

A pensar e a refletir.

DG 2019

 

 

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Dependências de jogos online: mito ou verdade?

Isto tem sido um assunto alvo de imenso debate na sociedade científica (e não só). Recentemente, participei num artigo da revista notícias magazine, que tentava sintetizar este tema.

Gostava, no entanto, de expandir um pouco mais a minha opinião.

A perturbação do jogo online (ou “internet gaming disorder“) é uma entidade diagnóstica altamente controversa (ver discussão neste link) e cujos critérios diagnósticos e eventuais terapêuticas propostas, ainda estão em aceso debate. Segundo a DSM-5, classificação utilizada nos EUA, trata-se de uma “entidade para prosseguir a investigação”. Já a Organização Mundial de Saúde, incluirá esta questão como “perturbação”, na sua classificação CID-11, sob o nome “gaming disorder” (ver link).

Mas será comparável à dependência de drogas?

Para mim, penso tratar-se de algo totalmente diferente da dependência de drogas (no sentido mais “tradicional do termo”). Na realidade, quando falamos de drogas, estamos a falar de substâncias externas que interferem diretamente no nosso cérebro e que, diretamente, têm mecanismos que levam à dependência dessa substância (ex: heroína, nicotina, álcool, etc.). As dependências “comportamentais”, ou seja, em que comportamentos e estímulos (que no dão prazer) levam à libertação de substâncias endógenas (naturalmente existentes no nosso cérebro) são, para todos os efeitos, diferentes em termos de mecanismo. Os jogos online, especialmente aqueles que rapidamente nos dão prazer e de forma repetitiva, a chamada “recompensa imediata”, levam à excitação dos nossos centros de prazer e recompensa cerebrais e o ser humano biologicamente está preparado para procurar recompensa e prazer para sobreviver como espécie. Afinal, é isto que nos leva a querer ter sexo, a comer uma boa refeição, a procurar prazer em locais, atividades, arte.

Apesar da perturbação do jogo online ser ainda alvo de debate, não há dúvida que certas pessoas estão mais suscetíveis para criar uma “dependência” de certos jogos (tal como existem dependências de jogos de apostas ou ao nível de comportamento sexual). No entanto, estas pessoas são uma minoria das pessoas que joga online. Nos milhões de pessoas que jogam online, apenas uma pequena percentagem apresenta sinais de dependência, se compararmos com a quantidade de pessoas que experimenta uma droga, seja heroína ou nicotina, a percentagem de pessoas que desenvolve uma dependência é muitíssimo maior. Apesar de se falar muito nos jovens, a propósito deste tema, não se trata de um questão apenas desta faixa etária (adultos vulneráveis também podem apresentar esta dependência).

Mas voltando à pergunta que dá título ao post: de facto, existem pessoas que apresentam sintomas de abstinência quando impedidos de jogar online (em muito semelhantes aqueles apresentados pelos utilizadores de drogas quando impedidos de a elas aceder). Os sintomas típicos da “abstinência” são: irritabilidade, tristeza, ansiedade, deixar de fazer outras atividades importantes e de que gostava para ficar a jogar, mentir aos membros da família sobre o tempo passado a jogar, usar o jogo para aliviar estados de espírito negativos e, apesar de saber das consequências negativas, incapacidade de controlar o tempo de jogo.

Quais os sinais de alerta (aqui sobretudo para os pais), para que um comportamento excessivo não passe a um verdadeiro vício?

Os pais devem estar atentos ao tempo e atividades dos filhos online. Deverão ser estabelecidas regras firmes acerca de horários e tipos de jogos adequados, e isso varia de família para família. Alguns sinais de alarme devem levantar preocupação imediata, tais como, quebra de rendimento escolar e desinteresse por outras atividades (como estar fisicamente com amigos, deixar hobbies ou desporto), reduzir o número de horas de sono para estar a jogar, ficar agressivo ou irritável de forma constante e/ou prolongada sempre que impedido de jogar (por ser o que foi previamente combinado como regra ou, simplesmente, por um imprevisto).

Caros pais preocupados, uma das coisas que parece estar associada ao risco de dependência de internet ou jogos online é, exatamente, o que se passa na família. Leiam este artigo. Em suma, o ambiente em casa, a capacidade de expressar afetos e comunicar, a capacidade de disciplinar sem autoritarismo, parecem todos contribuir para um maior ou menor risco do jovem cair numa dependência deste género.

Como se poderá eventualmente tratar?

Nada está estabelecido sobre o papel da terapêutica farmacológica. Se o jovem sofrer de uma perturbação de ansiedade ou uma depressão, que poderá ser um dos motivos de vulnerabilidade, poderá aí estar indicada a terapêutica farmacológica (ou não, depende). Tendo em conta tratar-se de um problema comportamental, provavelmente o mais indicado é uma psicoterapia com ênfase cognitivo-comportamental; eventualmente, com adolescentes, trabalhar com a família também será obrigatório.

Então e o “fortnite”?

Este jogo em particular – o fortnite – captou a atenção dos jovens e, segundo parece, em idades mais precoces, sendo a uma “última moda”… mas já antes observámos isto com outros jogos online.

A meu ver, em comum, estes jogos estão muitíssimo bem feitos para o seu propósito (que é basicamente manter uma comunidade de jogadores cada vez maior ligada ao seu jogo e, muitas vezes, a investir financeiramente no mesmo – ou seja, em viciar). Deteto no fortnite (como noutros jogos semelhantes) alguns fatores que possam contribuir para algumas mecânicas de adição: ser um jogo rápido, de fácil aprendizagem, e que quer se ganhe ou não, é divertido e dá prazer… portanto uma fonte ilimitada de recompensa imediata, de que o nosso cérebro tanto gosta. Para além disso, mistura vários componentes de jogos de sucesso num só “pacote”: construção, jogar às escondidas, estratégia ou simplesmente “andar aos tiros”. Tem um aspeto muito apelativo, e que varia ao longo do tempo, inclusivamente, tem “temporadas” tal como as séries de televisão, em que pequenas coisas mudam, levando a que perca o potencial de monotonia e, portanto, mantém sempre uma recompensa se se continuar a jogar. E, por fim, um fator muito importante, é um jogo social (os jovens encontram-se e combinam jogar com amigos), mantendo uma interação em casa com os amigos do exterior, algo também muito prazeroso e que dá mais uma recompensa.

Em suma, os mecanismos de adição comportamentais giram à volta do mesmo: recompensas e prazer imediatos, de fácil acesso e aprendizagem; e o nosso cérebro é ótimo a procurar repetir aquilo que nos faz sentir bem e a evitar o que nos faz sentir mal. É como se os programadores tivessem estudado a neurobiologia do cérebro e tivessem criado um produto, que apesar de não interferir de forma não natural (como as drogas) nos circuitos cerebrais de prazer e recompensa, os estimula de uma forma “natural” e extremamente completa… daí o risco de adição, especialmente nos jovens mais vulneráveis (aqueles com menos fontes de prazer, os mais isolados, com mais dificuldades na comunicação familiar, os com auto-estima mais frágil, ou mesmo, aqueles com personalidades mais vincadas no aspeto da procura de prazer imediato).

Em suma, sim acho que há verdade na dependência de jogos online (mas, felizmente, isto ocorre apenas numa minoria dos casos).

Se acharem que isto se poderá estar a passar com algum vosso conhecido, procurem ajuda. Em Lisboa, existe no Hospital de Santa Maria a unidade de atendimento a utentes com Utilização Problemática de Internet (NUPI).

Abraços
DG 2019

PS: Artigo completo do notícias magazine (link)

 

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10 Outubro: Dia Mundial da Saúde Mental

Dia 10 de Outubro é o dia Mundial da Saúde Mental. Ao longo dos anos este dia tem tido o propósito de chamar a atenção da comunidade para vários aspetos da nossa saúde mental, sendo que este ano o tema é “os jovens e a saúde mental num mundo em mudança”. A este propósito convido a visita à pagina da Organização Mundial da Saúde, onde poderão aprofundar mais este tema: http://www.who.int/mental_health/world-mental-health-day/2018/en/

saude mental.jpg

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a Saúde Mental como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“. Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspeto vinculado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspetiva positiva, a OMS convida a pensar na saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

Já anteriormente escrevi um post sobre promoção e prevenção das doenças mentais que pode ser aqui consultado. Mas nunca é demais chamar a atenção para coisas simples que todos nós podemos fazer para melhorar a nossa saúde mental e para prevenir situações mais complicadas no futuro… Aliás este tema foi relevado numa revisão muito recente (de 2018), na prestigiada revista Lancet Psychiatry (se tiverem a possibilidade leiam este artigo que é muito interessante), focando estratégias preventivas ao longo das várias alturas da nossa vida (desde antes do nascimento, até ao início da vida adulta).

Deixo-vos com uma pequena síntese das estratégias preventivas gerais (existem outras para grupos de risco, mas isto fica para outro post), baseadas na evidência científica atual, ao longo do nosso ciclo de vida.

Durante a gravidez e período pós-parto:

  • Boa nutrição
  • Vigilância adequada da gravidez e bons cuidados no parto
  • Promoção de uma boa vinculação entre progenitores e o recém-nascido

Durante a infância e adolescência:

  • Estimulação adequada à idade
  • Refeições (e tempo) em família
  • Treino de estratégias de resiliência
  • Bom clima escolar e familiar
  • Intervenções contra o bullying e outros tipos de violência
  • Boa nutrição
  • Exercício físico regular
  • Bons hábitos de sono
  • Prevenção de abuso de substâncias

Durante a vida adulta:

  • Boa nutrição
  • Exercício físico regular
  • Estratégias de redução de stress crónico
  • Bons hábitos de sono
  • Promoção de redes de suporte social e familiar (prevenir o isolamento)
  • Facilitar o reconhecimento precoce da doença mental e seu tratamento

Em todas as alturas do ciclo de vida:

  • Reduzir as iniquidades sociais e prevenir o desemprego
  • Melhorar a educação e os cuidados na infância
  • Reduzir o estigma associado à doença mental
  • Aumentar a consciencialização da sociedade e dos profissionais de saúde

Que todos tenhamos um bom dia e sempre promovendo a nossa saúde mental.

DG 2018

 

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Um dos Mitos da Psiquiatria

A meu ver um dos maiores mitos (ideias falsas) na Psiquiatria é o seguinte:

Os diagnósticos em Psiquiatria são apenas etiquetas para comportamentos normais.

Para quem nunca lidou com alguém com uma doença mental (como amigo, familiar ou mesmo técnico) pode parecer que determinados sintomas psicopatológicos são muito semelhantes a emoções ou comportamentos normais.

Por exemplo, como traçar a linha entre a tristeza normal e a patológica, ou quando é que falamos de timidez ou de ansiedade social, ou quando é que a organização se torna uma compulsão?

No entanto, tal como a diferença entre um tumor benigno e um cancro, os sintomas na perturbação mental são bem diferentes das emoções ou comportamentos “normais”. Habitualmente, quando determinada emoção ou comportamento se torna debilitante ao ponto do paciente não conseguir funcionar do ponto de vista profissional, social ou familiar, estamos muito provavelmente perante uma doença mental.

O diagnóstico (a “etiqueta”), apesar de todas as limitações que bem conhecemos, torna-se nestes casos particularmente importante por várias razões:

  • para o próprio paciente saber com o que está a lidar;
  • para os técnicos intervirem da melhor forma e de acordo com o que se sabe do ponto de vista científico para esse diagnóstico;
  • também para a evolução da ciência, pois é necessário que os investigadores falem uma linguagem comum para compararem resultados e discutirem as possíveis linhas de investigação.

Os problemas de saúde mental (ou doenças psiquiátricas) são muito frequentes. Na verdade, quase 1 em cada 5 portugueses terão um problema de saúde mental diagnosticável ao longo da sua vida, de acordo com os dados da Direção Geral de Saúde.

Felizmente, hoje em dia, há vários tratamentos eficazes, quer em termos medicamentosos, mas também várias psicoterapias e intervenções ao nível do estilo de vida (como a prática de exercício físico, a meditação e intervenções nutricionais).

Daí a importância de um diagnóstico precoce, pois o prognóstico das doenças psiquiátricas é muito melhor quando acompanhadas desde cedo, podendo levar à remissão total dos sintomas e à prevenção das consequências terríveis de uma doença mental não tratada (como por exemplo a incapacidade profissional, o corte de relações sociais ou familiares, ou, em casos extremos, o suicídio).

DG 2018

PS: Se quiser conhecer outros mitos carregue neste link.

 

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Dia “Time to Talk”

tttd-960-x-9603.jpgUma organização do Reino Unido promove o dia do “Tempo para Falar” (“Time to Talk”) sobre a Saúde Mental. O objetivo é diminuir a descriminação e o estigma a que muitos dos que sofrem com doença mental estão sujeitos… e isto pode ser feito de forma simples: falando sobre o assunto!

Este é o site oficial: https://www.time-to-change.org.uk

Neste site existe um vasto conteúdo, que todos podemos utilizar para sensibilizar sobre este tema. Estão disponíveis mais de 1000 histórias pessoais.

Aqui está um excerto retirado do site: 

Cerca de 1 em cada 4 pessoas terá um problema de saúde mental este ano, mas a vergonha e o silêncio podem ser tão maus quanto o próprio problema de saúde mental. A sua atitude em relação à saúde mental pode mudar a vida de alguém“.

Que não hajam dúvidas em relação a isto, a atitude de todos nós perante a Saúde Mental pode levar a mudanças substanciais na qualidade de vida dos outros… Por isso, fale sobre isto…

Desafio aceite, e vocês?

Abraços
DG 2018

Neste post mais antigo poderão ver alguns dos mitos (ideias erradas) mais comuns sobre este tema: https://reflexoesdeumpsiquiatra.com/2014/09/08/10-mitos-sobre-saude-mental/

 

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Doenças mentais vs doenças físicas – faz sentido falar disto?

mentecorpo.jpgNão é raro ouvir-se falar de “doenças da cabeça” ou da diferença entre ter uma “doença física” ou uma “doença mental”… No entanto, esta divisão mente e corpo é puramente artificial e a manutenção desta visão deriva provavelmente do facto de o sistema nervoso central, o cérebro e as suas ligações, serem ainda em grande parte território inexplorado.

Os técnicos de saúde mental (psiquiatras, psicólogos, etc.) há muito que o sabem na prática. Que com muita frequência “doenças mentais” provocam sintomas físicos, veja-se o exemplo da depressão major em que são por demais comuns sintomas de dor, náuseas, cefaleias, etc. Ou que determinadas doenças ocorrem com maior frequência em pacientes com historial de depressão ou ansiedade (por exemplo), mas também vice-versa (doentes com determinadas “doenças físicas” tem maior prevalência de “doenças mentais”), como por exemplo as doenças cardiovasculares, as doenças autoimunes, a diabetes, entre muitos outros exemplos possíveis.

Felizmente vamos tendo cada vez mais dados de investigação que comprovam que as perturbações psiquiátricas levam alterações em múltiplos sistemas corporais e não apenas no cérebro (e não apenas a alterações nos neurotransmissores).

Olhemos para o caso da depressão (poderão ler mais sobre este tema aqui).

5908a2f185d53210113731.jpgDesde a antiguidade que ouvimos falar de depressão. Na Antiga Grécia, Hipócrates (o considerado pai da Medicina) colocava a hipótese que os estados de melancolia derivariam de excesso de bílis negra no fígado. E, de facto, a depressão continua a ser uma das doenças com maior magnitude e peso a nível global, sendo uma das principais causas de incapacidade a nível mundial. Estimativas de prevalência apontam para que 1 em cada 4 mulheres e 1 em cada 10 homens possam vir a ter um episódio depressivo ao longo da a sua vida.

Muito se tem evoluindo na compreensão desta doença, mas apesar dos inegáveis avanços ao longo do tempo, a sua causa é em muitos aspetos, desconhecida e controversa.

Tudo aponta para uma complexa interação entre vulnerabilidade genética, fatores do neurodesenvolvimento e fatores ambientais/ psicossociais; estes fatores poderão levar a modificações epigenéticas (mudanças na expressão dos genes); que por sua vez levarão a alterações a nível neuroquímico, neuroendócrino, neuroinflamatório, neuroestrutural e neurofuncional.

Longe está o tempo das conceptualizações mais simplistas como a hipótese das catecolaminas, proposta por Schildkraut em 1965, em que a depressão era explicada como uma simples deficiência de neurotransmissores na fenda sináptica (nomeadamente serotonina, noradrenalina ou dopamina).

O modelo biopsicossocial da depressão continua a ser de elevada relevância e atualidade e reflete a complexidade dos fatores causais biológicos (bio), psicológicos (psico) e sociais/ de contexto (social). Só com uma perspetiva integrativa e multidisciplinar se consegue avançar na investigação nesta área. A meu ver já não faz sentido verem-se aquelas guerras entre os “psiquiatras biológicos” (que achariam que tudo se resume a alterações químicas) e os “psicoterapeutas fundamentalistas” (que achariam que tudo se resume a mecanismos psicológicos explicados por determinada escola de psicoterapia) ou mesmo com certos grupos e movimentos antipsiquiatria (que achariam que as doenças mentais derivam apenas de pressão e manipulação social).

Apesar do puzzle da origem da depressão conter inúmeras peças, seguem-se, a título de exemplo, dez achados de investigação, consistentemente relatados, sobre a etiologia desta doença, com o objetivo de demonstrar a complexidade desta interação entre os fatores biológicos, psicológicos e sociais:

  • Vulnerabilidade genética: evidências robustas de estudos familiares e em gémeos demonstram que 30 a 40% do risco pode ser atribuível a fatores hereditários. Ter um familiar em 1º grau afetado aumenta o risco de depressão em 2 a 3 vezes.
  • Experiências adversas precoces: tudo aponta para que este fator ambiental em muito contribua para a etiologia das perturbações depressivas (dentro dos limites da vulnerabilidade genética). As experiências adversas precoces poderão ser de variados tipos, tendo tanto peso as situações de negligência como as de abuso.
  • Alterações observadas ao nível molecular: vários fatores moleculares forma implicados na fisiopatologia da depressão, nomeadamente: alterações de fatores neurotróficos e outros fatores de crescimento (que têm funções fundamentais em vários aspetos da neuroplasticidade e cujo stress crónico suprime a sua produção); alterações na regulação do sistema inflamatório, ao nível dos mediadores inflamatórios (citoquinas) e do eixo hipotálamo hipófise-suprarrenal (sistema que regula a inflamação e resposta ao stress a nível de todo o corpo).
  • Alterações observadas ao nível da neuroimagem: vários sistemas neuronais importantes, incluindo aqueles responsáveis pelo processamento e pela regulação das emoções, pela tomada de decisões assim como circuitos associados às sensações de recompensa e prazer, mostram alterações imagiológicas em pacientes com depressão.
  • Multiplicidade de fatores biológicos precipitantes: ao longo das décadas, tem-se verificado de forma consistente que uma grande variedade de doenças físicas, substâncias tóxicas, drogas ou medicamentos, estão relacionados com a indução de episódios depressivos (com efeito muito para além do que seria esperado em virtude apenas das alterações psicossociais a eles associadas).
  • Traços de personalidade que conferem vulnerabilidade: determinados traços de personalidade como o neuroticismo, o evitamento do dano (harm-avoidance), a tendência à autocrítica, assim como a presença de um temperamento predominantemente depressivo ou a inibição comportamental durante a infância, foram associados a um maior risco de episódios depressivos.
  • Fatores de stress psicossociais precipitantes: está também bem estabelecido, sobretudo nos primeiros episódios depressivos, que é comum verificarem-se fatores precipitantes ao nível psicossocial. Esta é a base do modelo diátese-stress da depressão, segundo o qual o individuo com determinados fatores de vulnerabilidade (diátese) quando exposto a um ou mais fatores de stress (por exemplo: desemprego, ruptura amorosa, morte de alguém próximo, etc.) irá desenvolver um episódio depressivo.
  • Situações precárias a nível de contexto social aumentam o risco: pessoas em situações de privação socioeconómica, em situações de isolamento ou com escassas redes de suporte social, apresentam um risco aumentado de vir a ter uma depressão.
  • Tratamentos biológicos com eficácia: a utilização de psicofármacos, sobretudo antidepressivos mas não só, tem mostrado eficácia no tratamento dos episódios depressivos. Também outros métodos como a eletroconvulsivoterapia, a estimulação magnética transcraniana, ou mesmo a suplementação nutricional (sendo a mais reconhecida feita com ácidos gordos ómega 3) são também estratégias eficazes.
  • Tratamento psicossociais com eficácia: várias abordagens psicoterapêuticas e outras estratégias como a meditação mindfulness ou o exercício físico têm mostrado eficácia (este últimos sobretudo como adjuvantes) no tratamento dos episódios depressivos.

Com estas 10 peças deste grande puzzle, sempre em crescimento e em constante interação, pretendeu-se demonstrar os avanços marcados na compreensão da depressão e a importância de uma abordagem integrativa.

A depressão é hoje em dia considerada uma doença do corpo, que afeta o sistema nervoso central, mas também vários outros sistemas espalhados por todo o nosso organismo (por exemplo: o sistema inflamatório/ imune, o sistema cardiovascular, o sistema hormonal, etc.). Cuja origem deriva de uma combinação de fatores internos (biológicos e psicológicos) em interação com fatores de contexto ou sociais. Por isso mesmo, os melhores tratamentos normalmente envolvem uma combinação de estratégias psicoterapêuticas, medicamentos (quando indicados) e alterações de estilo de vida.

Tal como na depressão a maioria das “doenças da cabeça” são também doenças “físicas”, sendo muito importante tratar a pessoa como “um todo”.

Espero que tenha sido útil esta reflexão.

Abraços

DG 2018.

 

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10/10 – Dia Internacional da Saúde Mental

Hoje celebra-se o dia Internacional da Saúde Mental, que tem como objetivo consciencializar sobre os problemas de saúde mental e mobilizar esforços para que todos tenhamos uma melhor saúde mental.

A organização Mundial de Saúde dedica este dia ao tema da saúde mental no local de trabalho (ver: http://www.who.int/mental_health/world-mental-health-day/2017/en/).

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Ao longo da nossa vida adulta, uma grande parte do nosso tempo é gasta no trabalho. A nossa experiência no local de trabalho é um dos fatores que determinam nosso bem-estar geral. Os empregadores e empresas que implementam iniciativas no local de trabalho para promover a saúde mental e para apoiar os funcionários com doenças mentais têm ganhos não apenas na saúde dos seus funcionários, mas também na produtividade do trabalho. Um ambiente de trabalho negativo, por outro lado, pode levar a problemas de saúde física e mental, uso lesivo de substâncias ou álcool, absenteísmo e perda de produtividade.  A depressão e as perturbações de ansiedade são doenças mentais comuns que têm um impacto sobre a nossa capacidade e, nomeadamente, para trabalhar de forma produtiva.

Globalmente, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, principal causa de incapacidade a nível global. Mais de 260 milhões vivem com perturbações de ansiedade. Muitas dessas pessoas vivem com ambos. Um recente estudo liderado pela OMS estima que depressão e as perturbações de ansiedade custam à economia global 1 trilião de dólares por ano em perda de produtividade.

DG 2017

 

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