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Quarentena em modo teleconsulta

Já se passaram mais de 40 dias desde que, pela razão que todos conhecemos, comecei a efetuar consultas à distância.

Já é possível fazer um balanço desta fase e pensar nos prós e nos contras. Penso que esta frase, de Fernando Pessoa, sintetiza muito bem o meu sentimento: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Ao longo destas semanas esta foi, de facto, a única possibilidade. E aprendi a adaptar-me, em tempo recorde, a mexer em várias aplicações e sites, doxy, zoom, Skype; a gerir o apoio do secretariado por mail e telefone; a fazer multitasking entre contactos, confirmações, email, WhatsApp; a achar e arquivar processos. Enquanto tentei estar de corpo e alma nas consultas, tentando compensar as limitações do afastamento físico.

A experiência foi globalmente positiva, a estranheza dura os primeiros 5 minutos e, a certa altura, a conversa desenvolve-se e esquecemos que temos um ecrã entre mim e o paciente.

Estive com pessoas que já conhecia há algum tempo e outros que ainda não conheci face a face. Conheci animais de estimação, filhos, esposos, os seus quartos, salas, cozinhas, até o banco do jardim local. As pessoas mostravam-se no seu ambiente e isso compensou a perda da informação corporal das consultas on-line. Reparei que, talvez pela situação inédita, até havia mais vontade de partilhar e mesmo de rir de toda esta confusão. Claro que também observei muitos medos e consequência mais negativas, ao nível da saúde mental, desta pandemia.

Felizmente, a maioria dos meus pacientes adaptaram-se bem aos meios tecnológicos, mas há sempre aqueles que tem mais dificuldades… a opção presencial continuou como um último recurso.

Esta situação acaba também por interferir com a minha vida pessoal. A gestão aqui por casa é complexa. Para as minhas consultas consegui criar um espaço privado, tranquilo, dentro da minha casa, mas de vez em quando lá surgem as vozes dos meus filhos a brincar noutras divisões. A minha mulher é uma das médicas da linha da frente, os filhotes precisam de apoio e atenção, conseguimos organizar-nos em “turnos de trabalho” de modo a darmos apoio um ao outro enquanto trabalhamos. Funciona, mas posso dizer-vos que esta fase de confinamento não foi nada monótona! Ufa.

Mas mesmo com estes condicionamentos, penso que consegui dar o apoio que os meus pacientes precisavam e fico com a impressão que isto da teleconsulta veio para ficar!

Sem dúvida que a interrupção das consultas presenciais foi importante, cada um de nós com os seus esforços acabou por contribuir para aplanar a curva e evitar mortes desnecessárias. Sei que isto é incómodo para todos, mas mais de 1 mês depois, vejo que foi a decisão certa.

Claro que tenho saudades de estar com os meus pacientes, de os cumprimentar, de dar um beijinho, de receber um abraço… mas isso não está para voltar nos próximos tempos.

Aliás, o regresso assusta, não tanto pelo risco de contágio (embora isso seja uma preocupação), mas pelo encarar desta “nova realidade”, entre máscaras e acrílicos, com a falta de toque físico, sem acompanhantes nas consultas. Nem sei se estas novas consultas presenciais, não serão ainda mais estranhas que as consultas on-line. Como vou perceber se o doente está triste, contente ou preocupado debaixo da máscara?

Os consultórios estão prontos, com os seus planos de contingência, máscaras e álcool gel, acrílicos, ventilações, tudo para estarmos protegidos e seguros. Provavelmente daqui a umas semanas vou retomar gradualmente a consulta nesses espaços físicos. Embora, pelo menos durante o mês de Maio, vou privilegiar a consulta à distância, seguindo as recomendações das autoridades de “trabalho à distância sempre que possível”. Afinal, não nos podemos esquecer que ainda estamos na presença da ameaça do Coronavirus, temos conseguido evitar o pior mas ainda há muita luta pela frente.

De futuro, ainda não sei bem como gerir o “novo normal” com crianças pequenas sem escola ou infantário. Lá terei que puxar pela minha capacidade de adaptação e, com certeza, acharei a melhor solução. Perfeita não será, mas neste momento a última coisa que me preocupa é a perfeição; afinal estamos no meio de uma pandemia (mais imperfeito que isto não há)! Penso que uma das maneiras de manter a sanidade mental neste momento, e talvez não só neste momento, é não sermos tão exigentes connosco e sermos capazes de maior flexibilidade nos vários aspetos da nossa vida.

Sei que nos próximos tempos, os psiquiatras e psicólogos, vão ter muito que fazer… as consequências da COVID-19 a nível mental vão se sentir ao longo de meses. Espero conseguir estar à altura, quer seja através de um ecrã, quer seja por detrás de uma máscara.

Um abraço virtual para todos

Diogo Guerreiro

Médico psiquiatra.

 

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Saúde mental e Covid-19

O Ministério da Saúde criou um microsite dentro do site dedicado à covid-19 dedicado à saúde mental. Mais uma vez reforço: “Não há saúde sem saúde mental”.

A seguir aqui: https://saudemental.covid19.min-saude.pt

E a reter os “5 passos” para cuidar da sua saúde mental:

5 passos para cuidar da sua saúde mental

DG 2020

 

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Cuidar da nossa Saúde Mental no tempo do Coronavírus

Cuidar da nossa Saúde Mental no tempo do Coronavírus

Vivemos tempos de incerteza e receio. Um novo vírus, medidas de precaução, afastamento social, quarentenas, inundação de notícias (falsas e verdadeiras), fechos de locais de ensino, perturbação das nossas rotinas. Pandemia… e também pandemónio (embora seja possível tomar medidas para prevenir a difusão de ambos).

Não será de estranhar que a nossa saúde mental se venha a ressentir, pois os impactos do coronavírus existem bem para lá das situações de saúde que ele provoca. No entanto, mesmo em alturas de crise, é possível (e essencial) cuidarmos da nossa saúde mental!

A informação é uma das mais poderosas armas que temos à nossa disposição. Tentar gerir as nossas ansiedades e medos (por mais válidos que sejam) é também fundamental, por nós, mas também pelas pessoas que nos rodeiam (especialmente as crianças).

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O que é o coronavírus?

O coronavírus (nome técnico SARS-CoV-2 – Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) trata-se de um vírus da família dos coronavírus que afeta os humanos e que causa infeções respiratórias, desde situações mais ligeiras (a maior parte) até casos mais severos. Trata-se de um novo vírus, apesar de parecido com SARS responsável por um surto em 2003. Surgiu em Wuhan na China, em Dezembro de 2019 e desde aí tem viajado pelo globo afetando milhares de pessoas de todos os continentes. A doença que provoca, a COVID-19 (coronavírus disease 2019), foi recentemente declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia, razão pela qual é tão importante aplicar medidas de contenção do vírus, prevenir a sua difusão, especialmente nas populações mais frágeis, e trabalharmos todos em conjunto, a uma escala global, de modo a reduzir as possíveis complicações e mortalidade relacionada com a COVID-19. Neste momento, não existe tratamento específico ou vacinação para a doença.

A página da OMS tem muita informação, atualizada e válida, que recomendo seguir: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019

Medidas gerais a tomar (antes de irmos ao assunto da Saúde Mental), para mais informações ver os sites da Direção Geral de Saúde (https://covid19.min-saude.pt) e da OMS (https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/advice-for-public):

  • Lavar as mãos frequentemente. Deve lavá-las sempre que se assoar, espirrar, tossir ou após contacto direto com pessoas doentes. Deve lavá-las durante 20 segundos (o tempo que demora a cantar os “Parabéns”) com água e sabão ou com solução à base de álcool a 70%;
  • Medidas de etiqueta respiratória: tapar o nariz e a boca quando espirrar ou tossir, com um lenço de papel ou com o antebraço, nunca com as mãos, e deitar sempre o lenço de papel no lixo;
  • Medidas de distanciamento social: mantenha, pelo menos, 1 metro de distância entre si e alguém que apresente sinais de doença respiratória (ex: tosse, espirros, febre).
  • Evitar tocar na cara com as mãos;
  • Evitar partilhar objetos pessoais ou comida em que tenha tocado.
  • Se apresentar sinais de doença, como febre, tosse e dificuldade respiratória, deve ligar para a linha SNS 24 (tel: 808 24 24 24).
  • Siga as indicações das autoridades de saúde, nomeadamente se for recomendado ficar em casa (quarentena), veja este vídeo para saber mais: http://www.publico.pt/2020/03/12/video/quarentena-20200312-094923

 

Como tomar conta da nossa saúde mental em tempo de pandemia?

Surtos de doenças infeciosas, como o atual coronavírus, podem ser assustadores e podem afetar nossa saúde mental. Embora seja importante manter-se informado e tomar todas as medidas de proteção para impedir o contágio pelo vírus, também há muitas coisas que podemos fazer para manter e tomar conta do nosso bem-estar mental (e físico) durante estes períodos.

Ficam aqui algumas dicas, que espero que ajudem, a cuidar da sua saúde mental neste momento em que se fala tanto de ameaças à nossa saúde física:

  1. Limite a exposição aos media (TV, jornais, redes sociais) e procure fontes de informação confiáveis: o desconhecido causa muitos medos, rumores e especulações. Existe muita informação, muito alarme e muitas notícias menos corretas (fake news). É natural desejarmos saber o máximo sobre qualquer ameaça para nós ou para os nossos entes queridos, mas estamos perante um agente desconhecido, que ainda não percebemos na totalidade e, assim sendo, nunca nos iremos sentir satisfeitos com a quantidade de informação que possuímos. Isto alimenta muito o nosso medo e ansiedade. É importante selecionar uma ou duas fontes de informação, confiáveis, sobre este tema (sugiro o site da OMS e o da DGS) e restringirmo-nos a estes.
  2. Siga, de forma decidida, as recomendações das autoridades de saúde: se há um momento em que devemos seguir recomendações é este! Ninguém é perfeito, pode haver falhas, mas nada pior do que cada pessoa decidir de forma individual o que fazer para combater esta pandemia. Coordenação é essencial!
  3. Tome conta de si mesmo: o autocuidado, durante esta fase, baseia-se em focar-se nas coisas que pode controlar (como medidas de higiene e de manutenção da saúde), em vez daquelas que não pode (parar o vírus). Sempre que possível, mantenha sua rotina diária e atividades normais: comer refeições saudáveis, dormir o suficiente e fazer as coisas que gosta. Considere criar uma rotina diária que priorize seu bem-estar e saúde mental positiva. Atividades, como ler, meditar, cozinhar uma refeição diferente ou fazer exercício (evite os ginásios, pode fazê-lo em casa), podem ajudá-lo a relaxar e terão um impacto positivo em seus pensamentos e sentimentos. Pode também aproveitar para recuperar algum tempo de sono, que deve a si mesmo há muito tempo (durma mais, faça umas sestas).
  4. Mantenha-se em contato com outras pessoas e apoie as pessoas ao seu redor: apesar de estarmos em período de evitar ao máximo sair de casa e reduzir os contatos físicos com outras pessoas, é possível utilizar as novas tecnologias para falar com amigos e familiares, estar presente mesmo à distância. Discutir as suas preocupações e sentimentos pode ajudá-lo a encontrar maneiras de lidar com os desafios. Receber apoio e cuidados de outras pessoas pode trazer uma sensação de conforto e estabilidade. Ajudar outras pessoas num momento de necessidade, falar com alguém que possa estar a sentir-se sozinho ou preocupado pode beneficiar tanto a pessoa que recebe apoio, quanto quem está a ajudar.
  5. Reconheça seus sentimentos: é normal sentir-se preocupado, angustiado, “stressado” ou chateado. Na realidade, na situação atual, é perfeitamente normal sentir toda o tipo de reações emocionais, aceite-o. Reserve um tempo para perceber e para expressar o que está a sentir: faça-o através da escrita ou de outra forma de expressão artística, converse com amigos e família, pratique meditação.
  6. Fale com seus filhos sobre o que se está a passar: de forma simples, adaptada à idade. Responda às perguntas e compartilhe factos sobre a COVID-19 de uma maneira que as crianças possam entender. Responda às reações do seu filho de maneira empática, ouça as suas preocupações e ofereça carinho, atenção e apoio extra. Tranquilize os seus filhos, dizendo-lhes que estão seguros e que todos estão a dar o seu melhor para superar esta crise. Diga-lhes que está tudo bem se eles se sentirem chateados, zangados ou ansiosos. Partilhe com eles como é que lida com a sua própria ansiedade, mesmo que lhes diga que não sabe tudo e que para si também está a ser difícil.
  7. Não entre em modo de “histeria generalizada”: não vá a correr aos supermercados e farmácias comprar tudo o que vir à frente, e arriscar nas multidões ser efetivamente contaminado e por em perigo a sua família. Não partilhe noticias menos fidedignas nas suas redes sociais. Não vá a correr para hospitais e centros de saúde com o primeiro dos sintomas, confie nos médicos e nas autoridades de saúde; ligue para o SNS 24 – 808 24 24 24.
  8. Não entre em modo de “negação”: isto não é uma “gripe qualquer”, trata-se de algo muito sério. Deve mesmo cumprir as medidas de segurança e de quarentena. Não é para ir para a praia, para restaurantes, para combinar encontros com amigos dos filhos. Está a colocar-se a si, à sua família e a toda a comunidade em perigo!
  9. Se tem alguma doença psiquiátrica de base é importante manter o tratamento: tenha medicação suficiente para pelo menos um mês, não interrompa, mas também não aumente sem falar com o seu médico. Existem possibilidades de consulta à distância com os médicos e com os psicólogos. Não interrompa o tratamento, especialmente nesta altura de maior stress psicológico.
  10. Em isolamento ou quarentena, planifique rotinas: é muito difícil vermo-nos restringidos da liberdade de irmos ter com um amigo, ou tomar um café na pastelaria da esquina. Mas o que tem que ser tem que ser. Poderá ajudar ver esta fase como um período de tempo diferente na sua vida, e não necessariamente mau (mesmo que isto não seja uma escolha sua). Será uma altura com um ritmo de vida diferente, uma hipótese estar em contato com os outros de maneiras diferentes da habitual (telefone, email, redes sociais). Crie uma rotina diária em que a prioridade é cuidar de si mesmo. Tente ler mais ou assistir a filmes em casa, ter uma prática de exercícios, experimentar novas técnicas de relaxamento ou encontrar novos conhecimentos na internet. Tente descansar e ver isso como uma experiência nova e incomum, que pode ter seus benefícios.
  11. Não estigmatize pessoas que tenham sido contagiados ou que estejam em quarenta: trata-se de uma infeção viral, com o potencial de infectar qualquer um de nós. Já é assustador ter a doença e ter noção que poderá ter contagiado outros, não é preciso fazer a pessoa sentir-se pior. Vamos focar-nos em seguir as recomendações das autoridades e “diminuir a curva”.

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Tome conta de si e ajude a proteger os outros. Seja solidário, seja paciente. Juntos e com “a cabeça no lugar” poderemos responder, da melhor maneira possível, a este grande desafio.

 

Diogo Guerreiro

Médico Psiquiatra

13.Março.2019

 

 

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9 maneiras de reduzir o risco de demência

A propósito do dia de ontem, em que se celebrou o Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, partilho convosco estas dicas.

dementia-preventable-neurosciencenews.jpgEstima-se que 5% dos indivíduos acima dos 65 anos sofram de demência, existindo um aumento exponencial da incidência com o aumento da idade. O número de casos é tanto maior quanto maior for a esperança de vida da população, o que, no caso dos países europeus, é cada vez mais elevada.

Uma vez que a maioria das demências são doenças neurodegenerativas irreversíveis é muito importante apostar na prevenção. As evidências científicas têm vindo a acumular-se em relação ao papel preventivo destes 9 factores:

  1. Exercício físico regular (aeróbico, pelo menos 3x por semana).
  2. Estimulação intelectual (ex: aprender coisas novas, ler, fazer palavras cruzadas, dançar, etc.).
  3. Socializar (o isolamento é um fator de risco marcado para demências).
  4. Controlar tensão arterial (os factores de risco cardiovascular são também factores de risco para demência).
  5. Prevenir a obesidade.
  6. Não fumar.
  7. Controle da diabetes.
  8. Tratar a perda auditiva (muito importante para a estimulação social e intelectual é conseguir ver e ouvir bem)
  9. Tratar a depressão (ter uma depressão não tratada duplica o risco de demência a longo prazo).

Se quer mesmo gozar a sua reforma comece já a tratar bem o seu cérebro!

DG 2017

 

PS: Fica aqui o link para o site da Alzheimer Portugal que tem conteúdos interessantes.

 

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Setembro Amarelo: prevenir o Suicídio

O suicídio é um importante problema de saúde pública a nível global. Alguns números da Organização Mundial de Saúde permitem-nos ver a dimensão desta questão:

  • No mundo, 800 mil pessoas suicidam-se todos os anos (o que significa 1 pessoa a cada 40 segundos).
  • A Europa é a região do mundo com a mais alta taxa de suicídio (14,1 por cada cem mil habitantes).
  • Portugal está acima da média global de suicídios, apresentando uma taxa de 13,7 por cem mil habitantes em 2015, face a uma taxa mundial de 10,7 (dados de 2015).
  • O suicídio afeta pessoas de todas as faixas etárias, apesar de ser mais frequente nos idosos é a 2ª causa de morte entre os 15-29 anos (a primeira causa são acidentes de viação).
  • Por cada suicídio muito mais pessoas fazem tentativas de suicídio ou comportamentos autolesivos, sendo estes dos principais fatores de risco para suicídio consumado.

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Quem está em risco?

Existe uma ligação clara entre suicídio e doenças mentais (em particular com a depressão, a doença bipolar, determinadas perturbações de personalidade, abuso e dependência de substâncias). Estima-se que em pelo menos 90% dos suicídios fosse possível diagnosticar uma perturbação psiquiátrica.

No entanto, o suicídio é um resultado de múltiplos fatores, que se associam entre si e que podem levar a este desfecho trágico. No fundo, o suicídio não acontece apenas por uma coisa, mas sim pela combinação de excesso de fatores de risco e défice de fatores protetores.

  • Fatores de risco são circunstâncias, condições, acontecimentos de vida, doenças ou traços de personalidade que podem aumentar a probabilidade de alguém realizar comportamentos autolesivos ou atos suicidas. São exemplos: doença mental (não seguida, não tratada); experiências adversas na infância; bullying ou mobbing; baixa autoestima; perfeccionismo e rigidez; sentimentos de desesperança; presença de tentativas de suicídio prévias ou contacto com suicídio ou comportamentos autolesivos de outros.
  • Fatores protetores correspondem a características e circunstâncias individuais, coletivas e socioculturais que, quando presentes e/ou reforçadas, estão associadas à prevenção dos comportamentos autolesivos e do suicídio. São exemplos: boa capacidade da resolução de problemas e conflitos; iniciativa no pedido de ajuda; noção de valor pessoal; bons relacionamento familiares; facilidade de acesso aos serviços de saúde; boa inserção sociocultural.

Muito pode ser feito para prevenir o suicídio. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos poderiam ser prevenidos. É necessário a pessoa procurar ajuda e cuidados de quem está à sua volta.

Neste contexto destaco uma das mais recentes iniciativas, a “Campanha Setembro Amarelo”. Esta tem como principal objetivo a consciencialização sobre a prevenção do suicídio, alertando a população e as instituições. Iniciada em Brasília em 2014, tem ganho projeção a nível global. Em Portugal, Beja é a primeira cidade portuguesa a promover iniciativas no âmbito desta campanha. Fica aqui o site do facebook: https://www.facebook.com/setembroamarelobeja.

É importante que todos juntemos os nossos esforços para ajudar quem está em sofrimento e para quebrar os mitos e ideias erradas, que tantas vezes impedem as pessoas de serem ajudados efetivamente.

Convido-vos também a visitarem este artigo intitulado: os 10 grandes mitos (ideias erradas) sobre o suicídio e sobre os comportamentos autolesivos.

Abraços para todos

DG 2017

PS: A visitar o site oficial do Setembro Amarelo: http://www.setembroamarelo.org.br

 

 

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Contra o estigma na saúde mental

 

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Promoção da Saúde Mental e Prevenção das Doenças Mentais

mens-sana-in-corpore-sano.jpgMens sana in corpore sano (“mente sã num corpo são”) é um aforismo muito antigo, atribuído ao poeta romano Juvenal. No entanto, nos dias que correm, observo que pouca importância tem sido dado à parte “mente sã”, pelo menos quando comparando com a outra porção deste aforismo, o “corpo são”. Quantas campanhas estão em curso para a promoção da Saúde Mental? Poucas, insuficientes, na minha opinião. Isto torna-se ainda mais visível quando nos tentamos lembrar das campanhas de promoção do “corpo são”, desde as campanhas que promovem o exercício físico, passando pelas que promovem uma alimentação saudável e chegando até outras como a prevenção do consumo de tabaco e álcool.

Poderá argumentar-se que estas campanhas, mais ligados à parte do corpo, estejam indissocialvelmente ligadas à saúde mental. E isto é verdade, pois sabemos que o exercício físico, a boa nutrição e a prevenção do consumo de substâncias, estão ligados a uma boa saúde mental e à prevenção das doenças mentais; no entanto, a minha impressão é que estas campanhas raramente focam o conceito de Saúde Mental e a importância das mesmas para prevenir as doenças mentais ou promover a Saúde Mental do indivíduo. Será uma questão de preconceito? De estigma? Do receio de falar das doenças mentais? Infelizmente, creio que sim.

Porque é importante promover a Saúde Mental e prevenir as Doenças Mentais?

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS): cerca de 450 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de uma doença mental; 1 em cada 4 pessoas irá desenvolver uma perturbação mental ao longo da sua vida; a nível global 5 das 10 causas principais de incapacidade e morte prematura são doenças psiquiátricas. Estima-se que em 2030 uma doença mental, a Depressão, irá ser a principal causa de incapacidade e morte prematura, acima de outras patologias como as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias, a diabetes, as doenças infecciosas, etc.

É interessante refletir na quantidade de campanhas de prevenção que se focam na prevenção da doença cardiovascular, das doenças respiratórias, da diabetes, quando comparadas com aquelas que se focam na prevenção da depressão. Não digo que isto é mau por si, ainda bem que se está a prevenir a doença e a melhorar a saúde das pessoas (em certas áreas)… Mas porquê negligenciar as doenças mentais? Fica a questão.

Dados do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental“, realizado por investigadores da Faculdade de Ciências Médicas (NOVA), indicam que em Portugal 22.9 % da população sofre de alguma perturbação psiquiátrica, pondo-nos no “pódio” dos países europeus e apenas ligeiramente abaixo das estimativas para os Estados Unidos. Esta investigação refere ainda que entre 34 a 82% destas pessoas doentes, não recebe tratamento adequado (sendo o valor mais alto para as “perturbações ligeiras” e o valor mais baixo para as “perturbações graves”). Um cenário, a meu ver, preocupante… Que deveria levar a maior ação por parte dos nossos decisores em Saúde e da Sociedade em geral.

Os dados são conclusivos, os problemas de saúde mental representam um grave problema de saúde pública. Os custos diretos (despesas assistenciais) e indiretos (por exemplo: baixas por doença, incapacidade permanente, morte prematura) atingem uma magnitude preocupante. Por isso a OMS recomenda, desde há muito tempo, que “de forma a reduzir o peso e as consequências das perturbações mentais, tanto a nível de saúde, como social e económico é essencial que os países prestem maior atenção à prevenção da doença mental, assim como à promoção da saúde mental”.

Afinal o que é a Saúde Mental?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a Saúde Mental como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“.

Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspecto vinculado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspectiva positiva, a OMS convida a pensar na saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

Quais as diferenças entre Promoção da Saúde Mental e Prevenção das doenças mentais?

A Promoção da Saúde é o processo que permite capacitar as pessoas a melhorar e a aumentar o controle sobre a sua saúde (e seus determinantes – sobretudo, comportamentais, psicossociais e ambientais). Parte de um “paradigma salutogénico”, ou seja, valoriza os factores que interferem positivamente na saúde levando a medidas que não se dirigem a uma determinada doença ou desordem, mas servem para aumentar a saúde e o bem-estar gerais. Enfatiza a transformação das condições de vida e de trabalho que conformam a estrutura subjacente aos problemas de saúde, demandando uma abordagem intersectorial.

Por outro lado a Prevenção da Doença visa diminuir a probabilidade da ocorrência de uma doença (incidência), assim como tratar a doença ou reparar a incapacidade (prevalência) e atenuar os seus efeitos ou futuras consequências. Parte de um “paradigma patogénico”, valorizando os fatores que interferem negativamente na saúde. As ações preventivas definem-se como intervenções orientadas a evitar o surgimento de doenças especificas, reduzindo sua incidência e prevalência.

Sobretudo nas intervenções mais básicas, os conceitos são em parte sobreponíveis, vejamos o exemplo de uma campanha de prevenção do tabagismo, poderá tratar-se de uma medida de Promoção da Saúde (quando o objetivo principal é melhorar a saúde como um todo) ou de Prevenção de Doença (quando o objetivo principal é a redução da incidência de doenças pulmonares, por exemplo).

Tanto os programas de Promoção como as estratégias de Prevenção tem como alvo interferir nos chamados “determinantes de Saúde Mental” ou, mais vulgarmente, nos fatores de risco e nos fatores protetores. Ambos podem ser de natureza individual, familiar, ambiental ou socioeconómica.

A tabela 1 dá-nos um relance dos principais determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Acesso fácil a drogas e álcool Interações sociais positivas
Isolamento/ Alienação Participação social
Falhas a nível de educação, alojamento, transportes Tolerância social
Desemprego Integração de minorias étnicas
Guerra/ Violência Bons serviços de suporte social
Descriminação/ Racismo Empowerment
Deficiente nutrição
Rejeição por pares
Stress laboral
Desigualdades sociais

Tabela 1: Determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

A tabela 2 dá-nos um relance dos principais determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Abuso ou negligência infantil Adaptabilidade
Abuso ou negligência no idoso Autonomia
Uso excessivo de substâncias Literacia
Exposição à violência, agressão ou trauma Interação positiva pais-filho
Doença física Apoio social de família e amigos
Falta de competências sociais Boa autoestima
Acontecimentos de vida stressores Boa capacidade de lidar com o stress
Doença mental parental Prática de exercício físico
Complicações na gravidez ou no parto Estimulação cognitiva da nascença à velhice

Tabela 2: Determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

Como podemos observar das tabelas acima, existem inúmeros determinantes que poderiam ser alvo de programas de promoção e prevenção na área da Saúde Mental. Estes determinantes gerais, são comuns a vários problemas de saúde mental/ doenças mentais, pelo que intervenções dirigidas a estes fatores genéricos podem levar a elevada abrangência de efeitos preventivos.

Alguns exemplos de estratégias de Promoção e de Prevenção Primária Universal

Para melhorar a Saúde Mental como um todo, é necessário investir em programas de Promoção e de Prevenção (não seletiva, ou seja, universal), que são, neste caso, muito sobreponíveis. Deixo aqui alguns exemplos do documento da OMS (2004), Prevention of mental disorders : effective interventions and policy options:

  • Melhorar a nutrição: tem como efeitos um desenvolvimento cognitivo saudável; melhoria dos resultados educacionais e redução do risco de doenças mentais;
  • Melhorar condições de habitação: demonstrou-se que melhor as condições de habitação melhora os resultados de saúde (física e mental);
  • Melhorar a acessibilidade à educação: verificou-se que medidas a este nível levam a maior proteção contra doenças mentais, através de melhoria das competências sociais, intelectuais e emocionais;
  • Reduzir insegurança económica: a insegurança económica é um fator de stress major e de forma arrastada pode levar a aumento do consumo de substâncias, maior risco de depressão e de suicídio. Intervenções a este nível podem prevenir estas consequências;
  • Reforçar as redes sociais: através do envolvimento de vários elementos do sistema (política, media, escolas, profissionais de saúde, comunidades de cidadãos, etc.), levando a empowerment, sentido de pertença e autoconfiança dos indivíduos;
  • Reduzir o dano causado por substâncias aditivas: quer através de maior taxação, ou limitando anúncios ou restringindo o seu acesso (por exemplo: limites de idade legais mais elevados), levam à prevenção das perturbações de abuso de substâncias e consequentemente de outras perturbações mentais.

Estes são só alguns exemplos de programas, que como podemos verificar, só são possíveis de aplicar através de uma abrangente colaboração entre as vários estruturas da sociedade.

Um exemplo de prevenção específica, o caso da depressão.

Como referido anteriormente, a depressão é uma das principais causas de incapacidade e morte prematura. É fundamental prevenir e tratar precocemente os estados depressivos. Mais uma vez existem estratégias comprovadas tanto de aplicação universal (intervenções dirigidas a uma população ou grupo populacional, geral, não identificado com base no risco aumentado), como de prevenção seletiva (em que o alvo são indivíduos ou subgrupos da população cujo risco de desenvolver doença mental é significativamente maior que a média) ou de prevenção indicada (cujo alvo são indivíduos de alto risco, identificados como tendo sintomas ou sinais “mínimos”, indicadores de provável desenvolvimento de doença mental).

A título de exemplo ficam aqui algumas estratégias de prevenção universal da depressão, de acordo com a faixa etária:

  • Crianças e adolescentes: Programas em meio escolar, reforçando perícias cognitivas, de resolução de problemas e sociais;
  • Adultos: Programas de gestão do stress e conflitos no local de trabalho; programas de promoção exercício físico; pprogramas de aumento da literacia em saúde mental;
  • Idoso: Programas de “envelhecimento ativo”, focando no exercício/ estimulação cognitiva e evitando o isolamento.

 

Resumindo e concluindo.

Os problemas de Saúde Mental são muito frequentes e estão associados a elevada incapacidade e morte prematura. É essencial investir na promoção da saúde mental e na prevenção das doenças mentais, sendo que muito pode ser feito a este nível. Desde medidas que focam a Saúde Mental como um todo abordando os seus determinantes gerais, até estratégias muito específicas que abordam apenas um problema e os seus fatores de risco e protetores específicos.

No entanto, para isto acontecer, é necessário a vontade de todos, desde os decisores na área da Saúde, passando pelos técnicos de Saúde (não só Mental) e claro, das associações de doentes e seus familiares, assim como de vários grupos de influência na sociedade. E claro, para que isto aconteça, é obrigatório que exista literacia em Saúde Mental, não podemos avançar neste campo enquanto os preconceitos, os mitos e as ideias erradas o dominarem.

DG 2016

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Divulgação: Petição “Orçamento e respostas para a Saúde Mental”

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Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «URGENTE – Orçamento e respostas para a Saúde Mental» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT83322

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação para os vossos contactos.

Obrigado.

DG 2016

 

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Dream Teens: O que os jovens nos dizem acerca da Saúde Mental?

Dream TeensTeve recentemente lugar o I Encontro Nacional do Projeto Dream Teens. Esta iniciativa tem como mote “dar voz às ideias” dos adolescentes portugueses e pretende privilegiar o envolvimento de jovens num processo de cidadania ativa, participação social e cívica, em matérias como, por exemplo, a saúde.

Tive muito gosto em colaborar com o grupo de jovens que refletiu sobre Recursos Pessoais, Bem-Estar e Saúde Mental. E durante o encontro foi fabuloso ver a participação dos jovens, a sua vontade em mudar as coisas e em se implicarem na mudança social.

Os vários grupos de trabalho entregaram ao representante do Ministério da Saúde várias recomendações para 2015, que podem ser vistas no site do ministério: http://www.portaldasaude.pt/

Achei importante transcrever aqui as recomendações feitas na área da Saúde Mental, Recursos Pessoais e Bem-Estar, que evidenciam o quanto se deve valorizar a opinião dos jovens, futuros adultos e futuros decisores:

1. Desenvolver uma campanha de sensibilização, a nível nacional, nas escolas e nos meios de comunicação social (TV, rádio, jornais e internet/redes sociais, etc) sobre as doenças mentais e suas consequências. Há um estigma sobre este tipo de doenças e é importante educar as pessoas.

2. Aumentar a quantidade de especialistas disponíveis na área da saúde mental e as comparticipações nos medicamentos. Isto para que haja capacidade de resposta e um acompanhamento das pessoas com uma saúde mental debilitada e para que ninguém fique por acompanhar e tratar, seja por falta de diagnóstico, seja por falta de meios económicos para melhorar.

3. Melhorar o bem-estar e a qualidade de vida através da criação de condições para aumentar hábitos de vida saudáveis, por exemplo:

  • Proceder à arborização dos passeios e espaços públicos, incentivando as pessoas a deles usufruir.
  • Promover a prática de exercício físico, desenvolvendo programas adequados às idades e preferências de cada pessoa.
  • Oferecer um maior apoio às instituições desportivas, artísticas e culturais.
  • Promover as boas práticas na área da alimentação, através da divulgação e concretização de diversos planos alimentares junto da população e nas escolas.
  • Aumentar os apoios aos programas de combate e prevenção dos consumos abusivos e dos comportamentos desviantes.
  • Sensibilizar a população para os níveis de poluição.

4. Desenvolver e estimular o intercâmbio social, cultural e geracional entre jovens e idosos, através da criação de protocolos entre as escolas e os lares de idosos, com partilha de espaços de convívio e iniciativas recreativas conjuntas.

5. Favorecer as condições ao nível laboral e familiar de modo a reduzir o stresse no trabalho e na família, através da implementação de estruturas de apoio às crianças, nomeadamente creches/ infantários nos locais de trabalho, permitindo, dessa forma, a proximidade dos pais.

Fica também aqui o link para a reportagem da TVI sobre o encontro (ao minuto 37:21): http://www.tvi.iol.pt/programa/jornal-das-8/4295/videos/156659/video/14227975/1

Parabéns ao jovens! Parabéns aos organizadores da iniciativa.

Abraços

DG 2014

 

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“I’m only happy when it rains”… ou é ao contrário?

Aviso: Este artigo é para ler ao sol…

O sol

Tal como diz aquela velha frase batida “só damos o devido valor a algo quando o perdemos”… E este ano o nosso amigo sol parece ter-se zangado connosco. Não estamos habituados a isto, neste inverno têm-se contado pelos dedos os dias de sol, temos até títulos jornalísticos assim: “2014, o ano quase sempre com mau tempo“! Mas agora, finalmente, parece que já vemos a “luz ao fundo do túnel” (neste caso será mais a luz no topo das nossas cabeças). E, depois de todos estes dias cinzentos, quem não dá o devido valor a estes dias solarengos?

Porque é tão importante “apanhar sol”?

No “século passado” a mensagem era “o sol faz mal”. De facto, a exposição excessiva a radiações UV aumenta o risco de cancros da pele, de problemas oculares ou de envelhecimento precoce da pele. Felizmente, o século passado trouxe-nos algumas fantásticas invenções: os protetores solares… em substituição do famigerado óleo de coco (também conhecido como óleo para fritar); os óculos escuros; os cremes hidratantes.

Mas “neste século” começou-se a perceber que a pouca exposição solar (a raios UV) é também problemática. Estudos comprovam que a subexposição à luz leva a doenças graves músculo-esqueléticas, que provavelmente aumenta o risco de várias doenças autoimunes e, imagine-se, de alguns tipos de cancro. Quanto aos seus efeitos na saúde mental… já lá vamos.

O mais conhecido benefício da exposição solar é o seu papel no aumento das reservas de vitamina D. Sabia que existem pelo menos 1000 genes, importantes na regulação de importantes sistemas corporais, que são regulados pela forma ativa desta vitamina, a 1,25-dihidroxivitamina D3? Nestes se incluem o metabolismo do cálcio e o funcionamento dos sistemas neuromuscular e imunológico. Ora, ao contrário da maioria das vitaminas que são obtidas através da alimentação, a vitamina D pode ser produzida pelo nosso corpo através de uma reação fotossintética (iniciada pela exposição aos raios UV). A mais conhecida complicação de níveis baixos de vitamina D é a osteoporose, afetando sobretudo as pessoas mais idosas, por isso é que os especialistas “recomendam uma exposição solar moderada, fora do chamado período crítico de maior calor”.

Apanhar sol pode realmente fazer-me sentir melhor?

É verdade que a exposição solar interfere (e muito) com o nosso humor e a nossa energia. De facto, apanhar sol poderá melhorar o nosso humor, energia, aliviar a ansiedade e ajudar a dormir!

Nós, os seres humanos, somos criaturas diurnas programadas para estar ao ar livre, enquanto o sol está a brilhar e em casa, na cama, à noite. Quando a luz solar atinge os olhos, o nervo óptico envia uma mensagem para uma pequena parte do cérebro chamada glândula pineal, inibindo a produção e libertação de melatonina. O oposto acontece em relação à produção de serotonina, um neurotransmissor associado à sensação de bem-estar, que nos mantém despertos e concentradosNo escuro inverte-se a ordem e o nosso cérebro começa a produzir e a libertar a melatonina, substância responsável pelo controlo de vários ritmos circadianos do nosso corpo, incluindo o ciclo de sono-vigília. Sabe-se, por exemplo, que quando as pessoas são expostas à luz solar (ou à luz artificial muito brilhante) na parte da manhã, a produção noturna de melatonina ocorre mais cedo e de forma mais intensa, facilitando o adormecer.

Serotonina e melatonina

A melatonina deriva da serotonina, por isso quando aumenta a sua produção reduz-se a disponibilidade de serotonina. Quando temos dias de baixa exposição solar, o nosso cérebro produz maior quantidade de melatonina e reduz a quantidade de serotonina disponível. Por outro lado, nos dias mais luminosos temos maiores níveis de serotonina, pois existe menor conversão em melatonina.

Verificou-se que a perturbação afectiva sazonal, que é mais comum em países mais a norte (com grandes períodos de maior escuridão), está associada a baixos níveis de serotonina durante o dia e a um atraso na produção de melatonina à noite.

Vários estudos têm demonstrado que a exposição à luz (natural ou artificial), no período da manhã, é uma forma eficaz para melhorar a insónia, o síndrome pré-menstrual ou a perturbação afetiva sazonal, podendo inclusivamente ser eficaz na depressão (não sazonal). 

Como sabemos, a organização da sociedade atual não é muito respeitadora dos nossos ritmos biológicos… O trabalho em espaços fechados ou o estar acordado até muito depois do sol se deitar, são disso exemplos. O nosso cérebro fica confundido, não produz a descarga intensa de melatonina noturna (criando problemas de sono, por exemplo). Ao invés, ao longo do dia, vai convertendo continuamente a serotonina em melatonina, reduzindo os níveis deste neurotransmissor (levando a menor energia, maior irritabilidade, menos concentração ou maior ansiedade).

É por esta razão, que é importante que as pessoas que trabalham em ambientes fechados venham ao exterior periodicamente. Um período diário de 10 a 15 minutos de exposição solar (sem óculos escuros) pode ser o suficiente para melhorar o humor, a energia e a qualidade do sono – o cérebro percebe que é dia, inibe a melatonina e produz serotonina. Da mesma forma, é também recomendado que se durma na escuridão total – o cérebro percebe que é noite e produz melatonina.

Em suma, toca a aproveitar este sol… mas nada de escaldões (que isso é a parte má), ok?

Um bom fim-de-semana!

DG 2014

Para saber mais recomendo este artigo: Benefits of Sunlight: A Bright Spot for Human Health.

E, como não podia deixar de ser, aqui fica a música que “roubei” para título deste post. Fica também o convite para conhecerem mais sobre os efeitos da música no cérebro neste link.

 

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