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Promoção da Saúde Mental e Prevenção das Doenças Mentais

mens-sana-in-corpore-sano.jpgMens sana in corpore sano (“mente sã num corpo são”) é um aforismo muito antigo, atribuído ao poeta romano Juvenal. No entanto, nos dias que correm, observo que pouca importância tem sido dado à parte “mente sã”, pelo menos quando comparando com a outra porção deste aforismo, o “corpo são”. Quantas campanhas estão em curso para a promoção da Saúde Mental? Poucas, insuficientes, na minha opinião. Isto torna-se ainda mais visível quando nos tentamos lembrar das campanhas de promoção do “corpo são”, desde as campanhas que promovem o exercício físico, passando pelas que promovem uma alimentação saudável e chegando até outras como a prevenção do consumo de tabaco e álcool.

Poderá argumentar-se que estas campanhas, mais ligados à parte do corpo, estejam indissocialvelmente ligadas à saúde mental. E isto é verdade, pois sabemos que o exercício físico, a boa nutrição e a prevenção do consumo de substâncias, estão ligados a uma boa saúde mental e à prevenção das doenças mentais; no entanto, a minha impressão é que estas campanhas raramente focam o conceito de Saúde Mental e a importância das mesmas para prevenir as doenças mentais ou promover a Saúde Mental do indivíduo. Será uma questão de preconceito? De estigma? Do receio de falar das doenças mentais? Infelizmente, creio que sim.

Porque é importante promover a Saúde Mental e prevenir as Doenças Mentais?

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS): cerca de 450 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de uma doença mental; 1 em cada 4 pessoas irá desenvolver uma perturbação mental ao longo da sua vida; a nível global 5 das 10 causas principais de incapacidade e morte prematura são doenças psiquiátricas. Estima-se que em 2030 uma doença mental, a Depressão, irá ser a principal causa de incapacidade e morte prematura, acima de outras patologias como as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias, a diabetes, as doenças infecciosas, etc.

É interessante refletir na quantidade de campanhas de prevenção que se focam na prevenção da doença cardiovascular, das doenças respiratórias, da diabetes, quando comparadas com aquelas que se focam na prevenção da depressão. Não digo que isto é mau por si, ainda bem que se está a prevenir a doença e a melhorar a saúde das pessoas (em certas áreas)… Mas porquê negligenciar as doenças mentais? Fica a questão.

Dados do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental“, realizado por investigadores da Faculdade de Ciências Médicas (NOVA), indicam que em Portugal 22.9 % da população sofre de alguma perturbação psiquiátrica, pondo-nos no “pódio” dos países europeus e apenas ligeiramente abaixo das estimativas para os Estados Unidos. Esta investigação refere ainda que entre 34 a 82% destas pessoas doentes, não recebe tratamento adequado (sendo o valor mais alto para as “perturbações ligeiras” e o valor mais baixo para as “perturbações graves”). Um cenário, a meu ver, preocupante… Que deveria levar a maior ação por parte dos nossos decisores em Saúde e da Sociedade em geral.

Os dados são conclusivos, os problemas de saúde mental representam um grave problema de saúde pública. Os custos diretos (despesas assistenciais) e indiretos (por exemplo: baixas por doença, incapacidade permanente, morte prematura) atingem uma magnitude preocupante. Por isso a OMS recomenda, desde há muito tempo, que “de forma a reduzir o peso e as consequências das perturbações mentais, tanto a nível de saúde, como social e económico é essencial que os países prestem maior atenção à prevenção da doença mental, assim como à promoção da saúde mental”.

Afinal o que é a Saúde Mental?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a Saúde Mental como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“.

Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspecto vinculado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspectiva positiva, a OMS convida a pensar na saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

Quais as diferenças entre Promoção da Saúde Mental e Prevenção das doenças mentais?

A Promoção da Saúde é o processo que permite capacitar as pessoas a melhorar e a aumentar o controle sobre a sua saúde (e seus determinantes – sobretudo, comportamentais, psicossociais e ambientais). Parte de um “paradigma salutogénico”, ou seja, valoriza os factores que interferem positivamente na saúde levando a medidas que não se dirigem a uma determinada doença ou desordem, mas servem para aumentar a saúde e o bem-estar gerais. Enfatiza a transformação das condições de vida e de trabalho que conformam a estrutura subjacente aos problemas de saúde, demandando uma abordagem intersectorial.

Por outro lado a Prevenção da Doença visa diminuir a probabilidade da ocorrência de uma doença (incidência), assim como tratar a doença ou reparar a incapacidade (prevalência) e atenuar os seus efeitos ou futuras consequências. Parte de um “paradigma patogénico”, valorizando os fatores que interferem negativamente na saúde. As ações preventivas definem-se como intervenções orientadas a evitar o surgimento de doenças especificas, reduzindo sua incidência e prevalência.

Sobretudo nas intervenções mais básicas, os conceitos são em parte sobreponíveis, vejamos o exemplo de uma campanha de prevenção do tabagismo, poderá tratar-se de uma medida de Promoção da Saúde (quando o objetivo principal é melhorar a saúde como um todo) ou de Prevenção de Doença (quando o objetivo principal é a redução da incidência de doenças pulmonares, por exemplo).

Tanto os programas de Promoção como as estratégias de Prevenção tem como alvo interferir nos chamados “determinantes de Saúde Mental” ou, mais vulgarmente, nos fatores de risco e nos fatores protetores. Ambos podem ser de natureza individual, familiar, ambiental ou socioeconómica.

A tabela 1 dá-nos um relance dos principais determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Acesso fácil a drogas e álcool Interações sociais positivas
Isolamento/ Alienação Participação social
Falhas a nível de educação, alojamento, transportes Tolerância social
Desemprego Integração de minorias étnicas
Guerra/ Violência Bons serviços de suporte social
Descriminação/ Racismo Empowerment
Deficiente nutrição
Rejeição por pares
Stress laboral
Desigualdades sociais

Tabela 1: Determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

A tabela 2 dá-nos um relance dos principais determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Abuso ou negligência infantil Adaptabilidade
Abuso ou negligência no idoso Autonomia
Uso excessivo de substâncias Literacia
Exposição à violência, agressão ou trauma Interação positiva pais-filho
Doença física Apoio social de família e amigos
Falta de competências sociais Boa autoestima
Acontecimentos de vida stressores Boa capacidade de lidar com o stress
Doença mental parental Prática de exercício físico
Complicações na gravidez ou no parto Estimulação cognitiva da nascença à velhice

Tabela 2: Determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

Como podemos observar das tabelas acima, existem inúmeros determinantes que poderiam ser alvo de programas de promoção e prevenção na área da Saúde Mental. Estes determinantes gerais, são comuns a vários problemas de saúde mental/ doenças mentais, pelo que intervenções dirigidas a estes fatores genéricos podem levar a elevada abrangência de efeitos preventivos.

Alguns exemplos de estratégias de Promoção e de Prevenção Primária Universal

Para melhorar a Saúde Mental como um todo, é necessário investir em programas de Promoção e de Prevenção (não seletiva, ou seja, universal), que são, neste caso, muito sobreponíveis. Deixo aqui alguns exemplos do documento da OMS (2004), Prevention of mental disorders : effective interventions and policy options:

  • Melhorar a nutrição: tem como efeitos um desenvolvimento cognitivo saudável; melhoria dos resultados educacionais e redução do risco de doenças mentais;
  • Melhorar condições de habitação: demonstrou-se que melhor as condições de habitação melhora os resultados de saúde (física e mental);
  • Melhorar a acessibilidade à educação: verificou-se que medidas a este nível levam a maior proteção contra doenças mentais, através de melhoria das competências sociais, intelectuais e emocionais;
  • Reduzir insegurança económica: a insegurança económica é um fator de stress major e de forma arrastada pode levar a aumento do consumo de substâncias, maior risco de depressão e de suicídio. Intervenções a este nível podem prevenir estas consequências;
  • Reforçar as redes sociais: através do envolvimento de vários elementos do sistema (política, media, escolas, profissionais de saúde, comunidades de cidadãos, etc.), levando a empowerment, sentido de pertença e autoconfiança dos indivíduos;
  • Reduzir o dano causado por substâncias aditivas: quer através de maior taxação, ou limitando anúncios ou restringindo o seu acesso (por exemplo: limites de idade legais mais elevados), levam à prevenção das perturbações de abuso de substâncias e consequentemente de outras perturbações mentais.

Estes são só alguns exemplos de programas, que como podemos verificar, só são possíveis de aplicar através de uma abrangente colaboração entre as vários estruturas da sociedade.

Um exemplo de prevenção específica, o caso da depressão.

Como referido anteriormente, a depressão é uma das principais causas de incapacidade e morte prematura. É fundamental prevenir e tratar precocemente os estados depressivos. Mais uma vez existem estratégias comprovadas tanto de aplicação universal (intervenções dirigidas a uma população ou grupo populacional, geral, não identificado com base no risco aumentado), como de prevenção seletiva (em que o alvo são indivíduos ou subgrupos da população cujo risco de desenvolver doença mental é significativamente maior que a média) ou de prevenção indicada (cujo alvo são indivíduos de alto risco, identificados como tendo sintomas ou sinais “mínimos”, indicadores de provável desenvolvimento de doença mental).

A título de exemplo ficam aqui algumas estratégias de prevenção universal da depressão, de acordo com a faixa etária:

  • Crianças e adolescentes: Programas em meio escolar, reforçando perícias cognitivas, de resolução de problemas e sociais;
  • Adultos: Programas de gestão do stress e conflitos no local de trabalho; programas de promoção exercício físico; pprogramas de aumento da literacia em saúde mental;
  • Idoso: Programas de “envelhecimento ativo”, focando no exercício/ estimulação cognitiva e evitando o isolamento.

 

Resumindo e concluindo.

Os problemas de Saúde Mental são muito frequentes e estão associados a elevada incapacidade e morte prematura. É essencial investir na promoção da saúde mental e na prevenção das doenças mentais, sendo que muito pode ser feito a este nível. Desde medidas que focam a Saúde Mental como um todo abordando os seus determinantes gerais, até estratégias muito específicas que abordam apenas um problema e os seus fatores de risco e protetores específicos.

No entanto, para isto acontecer, é necessário a vontade de todos, desde os decisores na área da Saúde, passando pelos técnicos de Saúde (não só Mental) e claro, das associações de doentes e seus familiares, assim como de vários grupos de influência na sociedade. E claro, para que isto aconteça, é obrigatório que exista literacia em Saúde Mental, não podemos avançar neste campo enquanto os preconceitos, os mitos e as ideias erradas o dominarem.

DG 2016

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Divulgação: (Re)Descobrir a Psicopatologia – I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia

Serve o presente post para divulgar este evento científico que acho ser de ótima qualidade e uma oportunidade para discutir e atualizar, sobre um vasto número de temas na área da Psicopatologia. O I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia.

Nos dias 8 e 9 de Abril de 2016 irá realizar-se na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa o 1º Encontro da Associação Portuguesa de Psicopatologia intitulado Re-Descobrir a Psicopatologia, que contará com a presença de um painel de palestrantes nacionais e convidados internacionais com temas subordinados ao âmbito das bases da Psicopatologia e os novos desafios que surgem para a sua reformulação.

I encontro associacao port psicopatologia.pngAqui fica o link onde poderão encontrar o programa: http://psicopatologia.pt/agenda/redescobrir

E o link para a página de facebook da Associação.

Encontramo-nos lá?

Abraços

DG 2016

 

 

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Divulgação: XXII Encontro da Adolescência, dias 5 e 6 de Março

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Aproveito este espaço para divulgar o XXII Encontro da Adolescência, promovido pelo Núcleo de Estudos do Suicídio e pelo Serviço de Psiquiatria do CHLN. Vai decorrer nos dias 5 e 6 de Março (2015), no Fórum Lisboa. “Os terapeutas dos adolescentes”; “O cérebro adolescente”; “Comportamentos suicidários”; “Sexualidades”; “Projectos comunitários” – são alguns dos temas deste encontro.

Anexo o programa:

XXII Encontro da adolescencia_1XXII Encontro da adolescencia_2

 

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XIII Simpósio SPS Abril 2014

XIII Simpósio SPS Abril 2014O Simpósio da Sociedade Portuguesa de Suicidologia (SPS), irá realizar-se nos dias 11 e 12 de abril de 2014, no Campus do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz.

“À semelhança das edições anteriores, conta com a colaboração dos Departamentos de Psiquiatria e Saúde Mental regionais, juntando profissionais das mais diversas áreas, com um propósito comum: partilhar saberes e experiências, dar a conhecer a investigação científica mais recente sobre o suicídio e os comportamentos autolesivos, contribuir para a prevenção destes comportamentos que têm graves custos pessoais, familiares, sociais e económicos, e promover a sensibilização e formação de quantos – profissionais ou estudantes – se interessam por esta temática tão sensível.
O Simpósio, que conta com um programa diversificado, dirige-se a médicos – psiquiatras, especialistas em MGF e outros –, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social, professores e outros educadores, e estudantes universitários.”
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Esta semana estive a preparar a minha comunicação sobre “Autolesão e estratégias de coping na adolescência”, que será apresentada na manhã de Sábado, na mesa redonda “Suicídio e comportamentos autolesivos na adolescência”. Falarei sobre alguns resultados do meu projecto de doutoramento, nomeadamente de como os adolescentes que realizam comportamentos autolesivos (por exemplo: cortes ou queimaduras na superfície corporal, sobredosagens medicamentosas ou tóxicas, etc.) parecem ter um perfil distinto de utilização de estratégias de coping.
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Segundo os dados deste estudo (em adolescentes da área da Grande Lisboa), verificou-se que a ausência de estratégias eficazes de coping, com uso predominante de estratégias não produtivas (como culpabilizar-se, evitar a situação ou reduzir a tensão através de tabaco, álcool ou drogas), ao invés de focadas na resolução de problemas ou no pedido de suporte a outros, foi associada a maior probabilidade de comportamentos autolesivos.
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A identificação destes padrões, poderá ser importante na ajuda a estes adolescentes, permitindo trabalhar com os jovens formas de lidar com os problemas mais eficazes, evitando o mal-estar que muitas vezes leva a estes comportamentos de autolesão.
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E deixo um slide da apresentação, tipo “teaser”, que exemplifica de forma gráfica como perante a mesma situação se pode reagir/ lidar ou escolher uma estratégia de coping diferente!
2014 SPS coping SHAbraços a todos
DG 2014
 

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E se as doenças “normais” fossem tratadas como a depressão?

se as doenças "normais" fossem tratadas como a depressão

Infelizmente isto acontece mesmo… As frase que os meus doentes com depressão dizem ouvir de familiares, amigos, conhecidos, colegas, são exactamente estas (sem tirar, nem por… com excepção do sotaque brasileiro). Já imaginou o que estes sentem?

A depressão não é uma situação que se possa resolver de forma voluntária, as pessoas deprimidas não conseguem simplesmente controlar os seus pensamentos e atitudes e ficar melhores.

Urge lutar contra este estigma e preconceito!

Mais sobre depressão aqui: https://reflexoesdeumpsiquiatra.com/2013/09/06/e-quando-ficamos-deprimidos

Abraços

DG 2014

 

 

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O que é uma depressão?

Um vídeo e dois links… Garanto que depois de verem e lerem não irão sobrar quaisquer dúvidas.

Vejam também estes dois links:

Um texto informativo sobre depressão: https://reflexoesdeumpsiquiatra.com/2013/09/06/e-quando-ficamos-deprimidos/

Uma história ilustrada sobre depressão (em inglês): http://hyperboleandahalf.blogspot.pt/2013/05/depression-part-two.html

DG 2014

 

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E quando a ansiedade se torna um monstro?

Aviso: antes de ler este post recomendo um click no botão play da banda sonora escolhida para o mesmo!

São 3 da manhã… o Jorge olha para o relógio, tal como o tinha feito há 20 minutos, há 40 minutos… o coração bate ferozmente parecendo querer libertar-se da sua caixa torácica, as palmas das mãos estão suadas, a cabeça não para… Pensa no futuro, na instabilidade profissional em que ele e a sua esposa estão, no que irá acontecer com os seus filhos, nos pais que estão a envelhecer e cada vez mais doentes… Olha para o lado. A sua esposa, a Joana, dorme tranquilamente numa paz invejável. Como é possível que ela não esteja preocupada? – interroga-se. Como pode ela estar tão tranquila perante tudo o que se está a passar? Como pode ter passado o jantar a falar das nossas férias, a fazer desenhos com as crianças, com toda a calma do mundo? Será que ela não vê os perigos, os riscos?

Este pequeno texto serve para ilustrar como a ansiedade patológica (aquela que causa sensações corporais desagradáveis, que torna o sono uma missão quase impossível e que afeta o funcionamento diário) não depende apenas de fatores externos. Neste casal as preocupações de vida são idênticas (o trabalho, os filhos, a saúde de familiares), mas enquanto que o Jorge sofre de insónias e ansiedade extrema a Joana aparenta lidar “um pouco melhor” com a situação pela qual estão a passar.

Porque é que isto acontece? Vamos então ver como as neurociências explicam este fenómeno.

A ansiedade é uma resposta emocional complexa, origina-se numa percepção de uma ameaça (real ou imaginada) levando à ativação reativa de respostas a vários níveis, nomeadamente:

  • Fisiológicas – sintomas somáticos ou físicos da ansiedade como a opressão torácica, dificuldade respiratória, sintomas vegetativos (boca seca, sudação, tremor, palpitações, taquicardia), náuseas, dor abdominal, cefaleias, etc.
  • Cognitivas – conjunto de pensamentos, ideias, crenças ou imagens que acompanham a ansiedade e se relacionam com possíveis perigos presentes ou futuros.
  • Comportamentais – reações às cognições ansiosas, levando por vezes a situações de irritabilidade, confronto ou mesmo evitamento.

A investigação atual diz-nos que todos os animais superiores apresentam respostas semelhantes de ansiedade, sugerindo que estas fazem parte de um mecanismo universal através do qual os organismo se adaptam às situações adversas.

Até certo ponto a ansiedade é normal e vantajosa para se conseguir um rendimento máximo em situações adversas (como por exemplo: exames, situações de perigo físico, acontecimentos de vida negativos, etc.). A resposta normal de ansiedade leva à melhoria da atenção e da concentração, maximiza a eficácia dos parâmetros fisiológicos (tensão arterial, pulsação, respiração, etc.) e promove comportamentos adequados para lidar com o desafio ou perigo que se apresenta.

No entanto, em certos casos, poderá acontecer uma de duas coisas:

  • A resposta torna-se excessiva e os seus sintomas tornam-se incapacitantes;
  • Esta resposta ocorre em situações desadequadas, em que não existe qualquer perigo ou ameaça.

Quando alguma destas situações ocorre estamos perante o que se chama ansiedade patológica, que poderá mesmo configurar um quadro de perturbação de ansiedade. São exemplos as seguintes

  • Fobia específica  – caracterizada pelo medo excessivo ou irracional (e limitado) a determinadas pessoas, animais, objectos ou situações (por exemplo, voar, dentistas, ver sangue, etc.). Estas situações ou objectos são evitados ou vividos com grande aflição.
  • Fobia social ou perturbação de ansiedade social –  caracterizada por um medo marcado, persistente e irracional de ser observado ou avaliado negativamente pelos outros, em situações sociais ou em que o seu desempenho é posto à prova. Está associada com sintomas físicos e psíquicos de ansiedade. Situações temidas (tais como falar com estranhos ou comer em público) são evitadas ou vividas com grande aflição.
  • Perturbação de ansiedade generalizada – caracterizada por uma preocupação constante, excessiva e inapropriada, que é persistente (ao longo de meses) e não limitada a circunstâncias particulares. Os doentes têm sintomas físicos e psíquicos de ansiedade característicos: inquietude; fadiga; dificuldades de concentração; irritabilidade; tensão muscular e dificuldades de sono. Muitas vezes está associada a depressão. 
  • Perturbação de pânico – caracterizada por episódios recorrentes e inesperados de ansiedade severa (“ataques de pânico”), apresentando vários graus de ansiedade antecipatória (medo de ter futuras crises) entre os ataques. Os ataques de pânico são períodos breves de medo ou desconforto intenso, acompanhados de vários sintomas físicos e psíquicos de ansiedade, tais como: palpitações; sudorese; tonturas; sensação de falta de ar ou engasgamento; tremor; desrealização ou despersonalização. Tipicamente os ataques de pânico chegam à sua intensidade máxima em 10 minutos e duram cerca de 30 a 45 minutos. A maioria dos pacientes desenvolve medo de ter futuros ataques de pânico. Alguns doentes desenvolvem agorafobia, definida como medo de sítios ou situações de onde pode ser difícil fugir ou onde pode não existir ajuda disponível, no caso de vir a ter uma ataque de pânico. Exemplos incluem: multidões; transportes públicos ou, simplesmente, estar fora de casa. Estas situações são evitadas ou vividas com grande aflição.
  • Perturbação pós-stress traumático – caracterizada por uma história de exposição a um trauma (definido como uma situação que envolve experiências de morte, perigo de morte, lesão significativa ou risco para a integridade, do próprio ou dos outros em que a resposta do indivíduo envolveu medo intenso, horror ou sensação de impotência) e pela presença de três tipo de sintomas: 1) Revivenciar a experiência traumática (pensamentos intrusivos, pesadelos recorrentes, “Flashbacks”, sentir ou agir como se o acontecimento ainda estivesse a ocorrer, angústia intensa quando exposto a pessoas, locais ou conversas relacionadas com o evento); 2) Evitamento e embotamento afectivo (evitamento de situações ou pessoas relacionadas com o trauma, diminuição do interesse na maioria das actividades, sentimento de “desligamento dos outros”, incapacidade de sentir, amnésia para partes do trauma); 3) Hipervigilância (problemas de sono, irritabilidade, raiva, dificuldades de concentração).
  • Perturbação Obsessivo-Compulsiva – caracterizada por dois sintomas principais: 1) Obsessões, definidas como ideias persistentes associadas a um sentimento penoso e de estranheza, existindo resistência a estas e consciência da sua estranheza. Exemplos de obsessões comuns são: medo de contaminação; medo de acidentes; preocupações religiosas ou sexuais; 2) Compulsões, definidas como actos motores irresistíveis que reduzem a ansiedade provocada pelas obsessões, muitas vezes chamados rituais. Exemplos de rituais comuns são: lavagens de mãos repetitivas; verificações excessivas; limpezas ou contagens incessantes. As obsessões e compulsões ocorrem de forma recorrente, causam mal estar ao indivíduo, ocupam tempo excessivo e interferem com as suas funções sociais e ocupacionais.

Mas porque é que determinadas pessoas desenvolvem estas perturbações e outras não?

De uma forma simples (porque na realidade as coisas são mesmo muito complexas) podemos dizer que a ansiedade patológica tem as suas origens em dois grandes grupos de fatores: biológicos e ambientais.

SinapseEstes são alguns exemplos de fatores biológicos:

  • Genética – vários estudos indicam que existe uma predisposição para as várias perturbações ansiosas de acordo a nossa herança genética. É muito frequente existir um historial familiar nos casos de perturbações ansiosas que não é possível atribuir apenas ao ambiente familiar. Sabe-se, por exemplo, que mutações no gene transportador da serotonina estão fortemente associadas à perturbação de pânico.
  • Desregulação da química cerebral – a investigação de pacientes com perturbações ansiosas revelou que existem alterações na regulação de determinados neurotransmissores, como a serotonina, a noradrenalina e o ácido gama-aminobutírico (GABA). Estes neurotransmissores estão envolvidos na regulação da emoções, do sono e das reações corporais ao stress. A dúvida que subsiste é se estas alterações ocorrem antes ou depois da perturbação se ter originado (a famosa história “do ovo e da galinha”). A maioria dos fármacos para o tratamento da ansiedade atua nestes químicos cerebrais, também o tratamento através de psicoterapia leva a alterações do funcionamento destes neurotransmissores.
  • Alterações do padrão de atividade cerebral –  estudos de imagiologia cerebral demonstram que os pacientes com perturbações de ansiedade apresentam determinadas áreas cerebrais que funcionam “a mais” enquanto que outras funcionam “a menos”. Um exemplo é o funcionamento excessivo de uma área cerebral responsável pelas nossas respostas mais instintivas e emocionais – a amígdala cerebral – enquanto que outras zonas como o córtex pré-frontal (envolvido na nossa capacidade de planeamento e decisão) ou o hipocampo (envolvido nos processos de memória) apresentam uma redução da sua atividade. É importante aqui referir que estas alterações são reversíveis com o tratamento adequado.

Estes são alguns exemplos de fatores ambientais:

  • Stress – especialmente se for crónico (mantido ao longo do tempo) é o principal fator envolvido na génese destas perturbações. A forma de lidar com o stress tem um papel fundamental no facto de a pessoa desenvolver ou não uma perturbação de ansiedade.
  • Experiências de vida precoces – as experiências da nossa infância e adolescência condicionam fortemente a forma de como encaramos os medos e os desafios. Estas experiências podem tornar-nos quer mais vulneráveis quer mais fortes (resilientes). A observação que as crianças fazem da forma como os pais ou outros adultos reagem perante as adversidades leva sempre a uma aprendizagem, que pode ser positiva ou negativa. A presença de um ambiente familiar tenso, com muitas discussões ou mesmo violência, está muito associado a este tipo de patologias. A sensação de abandono ou o bullying são outras experiências commumente ligadas.
  • Traumas – situações de grande perigo, de violência, de lesões sérias, doenças ou outros traumas específicos, estão também muito associados. Não só para a perturbação pós-stress traumático, mas para todas as perturbações de ansiedade. A sua relevância é ainda maior se ocorrerem durante a infância.
  • Mudanças – mesmo quando “para melhor” todas as mudanças de vida envolvem algum grau de stress, que poderá despoletar uma perturbação ansiosa. Isto inclui tanto as “pequenas mudanças” como a mudança de emprego ou de casa, como as “grandes mudanças” como a perda de um ente querido ou uma situação de divórcio.

Mas afinal porque é que o Jorge está assim e a Joana não?

stressed-manComo vimos a origem das perturbações de ansiedade é muito complexa e ainda há muito para descobrir. Muitas vezes é difícil descobrir qual a sua causa exacta e, na maioria dos casos, misturam-se estes fatores biológicos e ambientais.

Provavelmente o Jorge terá determinados fatores biológicos diferentes da Joana. Talvez o ambiente que partilhem não seja assim tão igual (durante a sua vida terão certamente tido diferentes experiências). Ou será que a Joana tem mais capacidades para gerir o stress?

Mas mais importante que conhecer as potenciais causas da ansiedade patológica, o que é realmente importante perceber é que esta pode ser tratada e controlada. Não tem de ser um “monstro” ou um “bicho de 7 cabeças”!

Um abraço a todos

DG 2014

 

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