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Quarentena em modo teleconsulta

Já se passaram mais de 40 dias desde que, pela razão que todos conhecemos, comecei a efetuar consultas à distância.

Já é possível fazer um balanço desta fase e pensar nos prós e nos contras. Penso que esta frase, de Fernando Pessoa, sintetiza muito bem o meu sentimento: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Ao longo destas semanas esta foi, de facto, a única possibilidade. E aprendi a adaptar-me, em tempo recorde, a mexer em várias aplicações e sites, doxy, zoom, Skype; a gerir o apoio do secretariado por mail e telefone; a fazer multitasking entre contactos, confirmações, email, WhatsApp; a achar e arquivar processos. Enquanto tentei estar de corpo e alma nas consultas, tentando compensar as limitações do afastamento físico.

A experiência foi globalmente positiva, a estranheza dura os primeiros 5 minutos e, a certa altura, a conversa desenvolve-se e esquecemos que temos um ecrã entre mim e o paciente.

Estive com pessoas que já conhecia há algum tempo e outros que ainda não conheci face a face. Conheci animais de estimação, filhos, esposos, os seus quartos, salas, cozinhas, até o banco do jardim local. As pessoas mostravam-se no seu ambiente e isso compensou a perda da informação corporal das consultas on-line. Reparei que, talvez pela situação inédita, até havia mais vontade de partilhar e mesmo de rir de toda esta confusão. Claro que também observei muitos medos e consequência mais negativas, ao nível da saúde mental, desta pandemia.

Felizmente, a maioria dos meus pacientes adaptaram-se bem aos meios tecnológicos, mas há sempre aqueles que tem mais dificuldades… a opção presencial continuou como um último recurso.

Esta situação acaba também por interferir com a minha vida pessoal. A gestão aqui por casa é complexa. Para as minhas consultas consegui criar um espaço privado, tranquilo, dentro da minha casa, mas de vez em quando lá surgem as vozes dos meus filhos a brincar noutras divisões. A minha mulher é uma das médicas da linha da frente, os filhotes precisam de apoio e atenção, conseguimos organizar-nos em “turnos de trabalho” de modo a darmos apoio um ao outro enquanto trabalhamos. Funciona, mas posso dizer-vos que esta fase de confinamento não foi nada monótona! Ufa.

Mas mesmo com estes condicionamentos, penso que consegui dar o apoio que os meus pacientes precisavam e fico com a impressão que isto da teleconsulta veio para ficar!

Sem dúvida que a interrupção das consultas presenciais foi importante, cada um de nós com os seus esforços acabou por contribuir para aplanar a curva e evitar mortes desnecessárias. Sei que isto é incómodo para todos, mas mais de 1 mês depois, vejo que foi a decisão certa.

Claro que tenho saudades de estar com os meus pacientes, de os cumprimentar, de dar um beijinho, de receber um abraço… mas isso não está para voltar nos próximos tempos.

Aliás, o regresso assusta, não tanto pelo risco de contágio (embora isso seja uma preocupação), mas pelo encarar desta “nova realidade”, entre máscaras e acrílicos, com a falta de toque físico, sem acompanhantes nas consultas. Nem sei se estas novas consultas presenciais, não serão ainda mais estranhas que as consultas on-line. Como vou perceber se o doente está triste, contente ou preocupado debaixo da máscara?

Os consultórios estão prontos, com os seus planos de contingência, máscaras e álcool gel, acrílicos, ventilações, tudo para estarmos protegidos e seguros. Provavelmente daqui a umas semanas vou retomar gradualmente a consulta nesses espaços físicos. Embora, pelo menos durante o mês de Maio, vou privilegiar a consulta à distância, seguindo as recomendações das autoridades de “trabalho à distância sempre que possível”. Afinal, não nos podemos esquecer que ainda estamos na presença da ameaça do Coronavirus, temos conseguido evitar o pior mas ainda há muita luta pela frente.

De futuro, ainda não sei bem como gerir o “novo normal” com crianças pequenas sem escola ou infantário. Lá terei que puxar pela minha capacidade de adaptação e, com certeza, acharei a melhor solução. Perfeita não será, mas neste momento a última coisa que me preocupa é a perfeição; afinal estamos no meio de uma pandemia (mais imperfeito que isto não há)! Penso que uma das maneiras de manter a sanidade mental neste momento, e talvez não só neste momento, é não sermos tão exigentes connosco e sermos capazes de maior flexibilidade nos vários aspetos da nossa vida.

Sei que nos próximos tempos, os psiquiatras e psicólogos, vão ter muito que fazer… as consequências da COVID-19 a nível mental vão se sentir ao longo de meses. Espero conseguir estar à altura, quer seja através de um ecrã, quer seja por detrás de uma máscara.

Um abraço virtual para todos

Diogo Guerreiro

Médico psiquiatra.

 

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Ai a minha memória!… Algumas dicas sobre Défice Cognitivo Ligeiro

Saiu este mês uma artigo científico importante relacionado com a temática do Défice Cognitivo Ligeiro:Practice guideline update summary: Mild cognitive impairment. Report of the Guideline Development, Dissemination, and Implementation Subcommittee of the American Academy of Neurology” (disponível de forma integral aqui) Este estudo focou-se nas questões de prevalência, transição para demência e eficácia das várias intervenções (farmacológicas e não farmacológicas).

Sobre isto, deixo algumas informações em forma de perguntas e respostas.

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Salvador Dalí – A Persistência da Memória (1931)

Antes de mais, o que é o Défice Cognitivo Ligeiro (DCL)?

O DCL é uma condição em que o indivíduo apresenta declínio de uma ou mais funções cognitivas (como por exemplo: memória, linguagem, atenção, planeamento executivo, etc.), mas com consequências mínimas para a sua vivência diária. Para o seu diagnóstico é necessário a presença de queixas subjetivas, mas também de uma avaliação objetiva, preferencialmente através de uma avaliação neuropsicológica (que nos dá indicação da extensão do défice e das áreas afetadas).

Porque é que isto interessa?

O DCL pode ser uma forma de apresentação precoce de uma demência (como por exemplo: doença de Alzheimer), embora também possa ser secundário a várias patologias neurológicas, psiquiátricas, doenças sistémicas ou mesmo, a efeitos adversos de certos medicamentos.

Quando não se deteta nenhuma causa secundária que se possa tratar (e isto já é muito importante pois a tendência destes casos é para o agravamento), sabemos que pacientes com DCL são um importante grupo de risco para quadros de demência (situação de défice cognitivo grave, em que a vida diária fica profundamente afetada e, na maioria dos casos, de forma irreversível).

É comum?
Sim. Aumentando a frequência com a idade e sendo mais comum em pessoas com menor grau educacional. Este estudo agrupou vários dados e chegou à seguinte estimativa de prevalência:

  • 60–64 anos: 6.7%
  • 65–69 anos: 8.4%
  • 70–74 anos: 10.1%
  • 75–79 anos: 14.8%
  • 80–84 anos: 25.2%

E quantos casos evoluem efetivamente para demências?

Segundo os dados deste estudo, todos os pacientes com diagnóstico de DCL tem um maior risco de progressão para demência que pessoas com a mesma idade e sem este diagnóstico. Cerca de 15% dos indivíduos com mais de 65 anos e DCL, no espaço de seguimento de 2 anos, evoluíram para um quadro demencial. Apresentando um risco relativo de demência (incluindo doença de Alzheimer) cerca de 3x superior às pessoas sem DCL.

No entanto, alguns casos revertem (ao contrário do que acontece nas demências), ficando sem padrão de défice cognitivo, tendo sido estimado que isto acontece entre 14 a 50% das pessoas.

Infelizmente, apesar de muitos desenvolvimentos na investigação nesta área, ainda não existem biomarcadores que possam prever com precisão quais os doentes que irão evoluir para demência (pelo que análises ou exames de imagem ainda não são úteis para este efeito).

E afinal, o que pode ajudar?

É muito importante a avaliação precisa do caso e a sua monitorização ao longo do tempo (afinal estamos a falar de um grupo de risco para doenças graves). Também muito importante é modificar fatores de risco que são os mesmos para DCL ou para Demências, nomeadamente:

  • Fatores de risco cardiovasculares: sedentarismo, tabagismo, alterações do metabolismo do açúcar (controlo da diabetes), alterações do metabolismo dos lípidos (dislipidémias).
  • Fatores relacionados com o sono: as perturbações do sono estão muito relacionadas com estes quadros (ler mais sobre a importância de uma boa noite de sono)
  • Diagnóstico e tratamento da depressão: a depressão não tratada está associada também a défices cognitivos e a um risco maior de DCL e demência.
  • Rever medicamentos que possam interferir com a cognição.
  • Fatores dietéticos: muitos idosos apresentam uma nutrição com falhas que poderá estar associada a pior prognóstico. Uma alimentação diversificada, incluindo vegetais, fruta e peixe, é fundamental.

Infelizmente nenhum medicamento (incluindo os medicamentos utilizados nas demências) demonstrou ser eficaz para a prevenção da evolução para demência.

Por outro lado, algumas estratégias não farmacológicas, mostraram resultados muito promissores (ao nível de ajudarem na prevenção), nomeadamente duas:

  • Exercício físico regular.
  • Treino cognitivo.

Ou seja, mais uma vez a velha máxima mente sã em corpo são se aplica, não sendo demais salientar a importância do desporto (estimular o corpo) e de treinar o cérebro (estimular o mente).

Abraços

DG 2018

 

 

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Dia “Time to Talk”

tttd-960-x-9603.jpgUma organização do Reino Unido promove o dia do “Tempo para Falar” (“Time to Talk”) sobre a Saúde Mental. O objetivo é diminuir a descriminação e o estigma a que muitos dos que sofrem com doença mental estão sujeitos… e isto pode ser feito de forma simples: falando sobre o assunto!

Este é o site oficial: https://www.time-to-change.org.uk

Neste site existe um vasto conteúdo, que todos podemos utilizar para sensibilizar sobre este tema. Estão disponíveis mais de 1000 histórias pessoais.

Aqui está um excerto retirado do site: 

Cerca de 1 em cada 4 pessoas terá um problema de saúde mental este ano, mas a vergonha e o silêncio podem ser tão maus quanto o próprio problema de saúde mental. A sua atitude em relação à saúde mental pode mudar a vida de alguém“.

Que não hajam dúvidas em relação a isto, a atitude de todos nós perante a Saúde Mental pode levar a mudanças substanciais na qualidade de vida dos outros… Por isso, fale sobre isto…

Desafio aceite, e vocês?

Abraços
DG 2018

Neste post mais antigo poderão ver alguns dos mitos (ideias erradas) mais comuns sobre este tema: https://reflexoesdeumpsiquiatra.com/2014/09/08/10-mitos-sobre-saude-mental/

 

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9 maneiras de reduzir o risco de demência

A propósito do dia de ontem, em que se celebrou o Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer, partilho convosco estas dicas.

dementia-preventable-neurosciencenews.jpgEstima-se que 5% dos indivíduos acima dos 65 anos sofram de demência, existindo um aumento exponencial da incidência com o aumento da idade. O número de casos é tanto maior quanto maior for a esperança de vida da população, o que, no caso dos países europeus, é cada vez mais elevada.

Uma vez que a maioria das demências são doenças neurodegenerativas irreversíveis é muito importante apostar na prevenção. As evidências científicas têm vindo a acumular-se em relação ao papel preventivo destes 9 factores:

  1. Exercício físico regular (aeróbico, pelo menos 3x por semana).
  2. Estimulação intelectual (ex: aprender coisas novas, ler, fazer palavras cruzadas, dançar, etc.).
  3. Socializar (o isolamento é um fator de risco marcado para demências).
  4. Controlar tensão arterial (os factores de risco cardiovascular são também factores de risco para demência).
  5. Prevenir a obesidade.
  6. Não fumar.
  7. Controle da diabetes.
  8. Tratar a perda auditiva (muito importante para a estimulação social e intelectual é conseguir ver e ouvir bem)
  9. Tratar a depressão (ter uma depressão não tratada duplica o risco de demência a longo prazo).

Se quer mesmo gozar a sua reforma comece já a tratar bem o seu cérebro!

DG 2017

 

PS: Fica aqui o link para o site da Alzheimer Portugal que tem conteúdos interessantes.

 

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Promoção da Saúde Mental e Prevenção das Doenças Mentais

mens-sana-in-corpore-sano.jpgMens sana in corpore sano (“mente sã num corpo são”) é um aforismo muito antigo, atribuído ao poeta romano Juvenal. No entanto, nos dias que correm, observo que pouca importância tem sido dado à parte “mente sã”, pelo menos quando comparando com a outra porção deste aforismo, o “corpo são”. Quantas campanhas estão em curso para a promoção da Saúde Mental? Poucas, insuficientes, na minha opinião. Isto torna-se ainda mais visível quando nos tentamos lembrar das campanhas de promoção do “corpo são”, desde as campanhas que promovem o exercício físico, passando pelas que promovem uma alimentação saudável e chegando até outras como a prevenção do consumo de tabaco e álcool.

Poderá argumentar-se que estas campanhas, mais ligados à parte do corpo, estejam indissocialvelmente ligadas à saúde mental. E isto é verdade, pois sabemos que o exercício físico, a boa nutrição e a prevenção do consumo de substâncias, estão ligados a uma boa saúde mental e à prevenção das doenças mentais; no entanto, a minha impressão é que estas campanhas raramente focam o conceito de Saúde Mental e a importância das mesmas para prevenir as doenças mentais ou promover a Saúde Mental do indivíduo. Será uma questão de preconceito? De estigma? Do receio de falar das doenças mentais? Infelizmente, creio que sim.

Porque é importante promover a Saúde Mental e prevenir as Doenças Mentais?

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS): cerca de 450 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de uma doença mental; 1 em cada 4 pessoas irá desenvolver uma perturbação mental ao longo da sua vida; a nível global 5 das 10 causas principais de incapacidade e morte prematura são doenças psiquiátricas. Estima-se que em 2030 uma doença mental, a Depressão, irá ser a principal causa de incapacidade e morte prematura, acima de outras patologias como as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias, a diabetes, as doenças infecciosas, etc.

É interessante refletir na quantidade de campanhas de prevenção que se focam na prevenção da doença cardiovascular, das doenças respiratórias, da diabetes, quando comparadas com aquelas que se focam na prevenção da depressão. Não digo que isto é mau por si, ainda bem que se está a prevenir a doença e a melhorar a saúde das pessoas (em certas áreas)… Mas porquê negligenciar as doenças mentais? Fica a questão.

Dados do “Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental“, realizado por investigadores da Faculdade de Ciências Médicas (NOVA), indicam que em Portugal 22.9 % da população sofre de alguma perturbação psiquiátrica, pondo-nos no “pódio” dos países europeus e apenas ligeiramente abaixo das estimativas para os Estados Unidos. Esta investigação refere ainda que entre 34 a 82% destas pessoas doentes, não recebe tratamento adequado (sendo o valor mais alto para as “perturbações ligeiras” e o valor mais baixo para as “perturbações graves”). Um cenário, a meu ver, preocupante… Que deveria levar a maior ação por parte dos nossos decisores em Saúde e da Sociedade em geral.

Os dados são conclusivos, os problemas de saúde mental representam um grave problema de saúde pública. Os custos diretos (despesas assistenciais) e indiretos (por exemplo: baixas por doença, incapacidade permanente, morte prematura) atingem uma magnitude preocupante. Por isso a OMS recomenda, desde há muito tempo, que “de forma a reduzir o peso e as consequências das perturbações mentais, tanto a nível de saúde, como social e económico é essencial que os países prestem maior atenção à prevenção da doença mental, assim como à promoção da saúde mental”.

Afinal o que é a Saúde Mental?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define a Saúde Mental como “o estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza as suas capacidades, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e contribuir para a comunidade em que se insere“.

Nesta definição, a “saúde mental” é entendida como um aspecto vinculado ao bem-estar, à qualidade de vida, à capacidade de amar, trabalhar e de se relacionar com os outros. Com esta perspectiva positiva, a OMS convida a pensar na saúde mental muito para além das doenças e das deficiências mentais.

Quais as diferenças entre Promoção da Saúde Mental e Prevenção das doenças mentais?

A Promoção da Saúde é o processo que permite capacitar as pessoas a melhorar e a aumentar o controle sobre a sua saúde (e seus determinantes – sobretudo, comportamentais, psicossociais e ambientais). Parte de um “paradigma salutogénico”, ou seja, valoriza os factores que interferem positivamente na saúde levando a medidas que não se dirigem a uma determinada doença ou desordem, mas servem para aumentar a saúde e o bem-estar gerais. Enfatiza a transformação das condições de vida e de trabalho que conformam a estrutura subjacente aos problemas de saúde, demandando uma abordagem intersectorial.

Por outro lado a Prevenção da Doença visa diminuir a probabilidade da ocorrência de uma doença (incidência), assim como tratar a doença ou reparar a incapacidade (prevalência) e atenuar os seus efeitos ou futuras consequências. Parte de um “paradigma patogénico”, valorizando os fatores que interferem negativamente na saúde. As ações preventivas definem-se como intervenções orientadas a evitar o surgimento de doenças especificas, reduzindo sua incidência e prevalência.

Sobretudo nas intervenções mais básicas, os conceitos são em parte sobreponíveis, vejamos o exemplo de uma campanha de prevenção do tabagismo, poderá tratar-se de uma medida de Promoção da Saúde (quando o objetivo principal é melhorar a saúde como um todo) ou de Prevenção de Doença (quando o objetivo principal é a redução da incidência de doenças pulmonares, por exemplo).

Tanto os programas de Promoção como as estratégias de Prevenção tem como alvo interferir nos chamados “determinantes de Saúde Mental” ou, mais vulgarmente, nos fatores de risco e nos fatores protetores. Ambos podem ser de natureza individual, familiar, ambiental ou socioeconómica.

A tabela 1 dá-nos um relance dos principais determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Acesso fácil a drogas e álcool Interações sociais positivas
Isolamento/ Alienação Participação social
Falhas a nível de educação, alojamento, transportes Tolerância social
Desemprego Integração de minorias étnicas
Guerra/ Violência Bons serviços de suporte social
Descriminação/ Racismo Empowerment
Deficiente nutrição
Rejeição por pares
Stress laboral
Desigualdades sociais

Tabela 1: Determinantes sociais, ambientais, económicos de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

A tabela 2 dá-nos um relance dos principais determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental.

Fatores de risco Fatores protetores
Abuso ou negligência infantil Adaptabilidade
Abuso ou negligência no idoso Autonomia
Uso excessivo de substâncias Literacia
Exposição à violência, agressão ou trauma Interação positiva pais-filho
Doença física Apoio social de família e amigos
Falta de competências sociais Boa autoestima
Acontecimentos de vida stressores Boa capacidade de lidar com o stress
Doença mental parental Prática de exercício físico
Complicações na gravidez ou no parto Estimulação cognitiva da nascença à velhice

Tabela 2: Determinantes individuais ou familiares de Saúde Mental. Esta não é uma lista exaustiva dos determinantes, apenas uma seleção.

Como podemos observar das tabelas acima, existem inúmeros determinantes que poderiam ser alvo de programas de promoção e prevenção na área da Saúde Mental. Estes determinantes gerais, são comuns a vários problemas de saúde mental/ doenças mentais, pelo que intervenções dirigidas a estes fatores genéricos podem levar a elevada abrangência de efeitos preventivos.

Alguns exemplos de estratégias de Promoção e de Prevenção Primária Universal

Para melhorar a Saúde Mental como um todo, é necessário investir em programas de Promoção e de Prevenção (não seletiva, ou seja, universal), que são, neste caso, muito sobreponíveis. Deixo aqui alguns exemplos do documento da OMS (2004), Prevention of mental disorders : effective interventions and policy options:

  • Melhorar a nutrição: tem como efeitos um desenvolvimento cognitivo saudável; melhoria dos resultados educacionais e redução do risco de doenças mentais;
  • Melhorar condições de habitação: demonstrou-se que melhor as condições de habitação melhora os resultados de saúde (física e mental);
  • Melhorar a acessibilidade à educação: verificou-se que medidas a este nível levam a maior proteção contra doenças mentais, através de melhoria das competências sociais, intelectuais e emocionais;
  • Reduzir insegurança económica: a insegurança económica é um fator de stress major e de forma arrastada pode levar a aumento do consumo de substâncias, maior risco de depressão e de suicídio. Intervenções a este nível podem prevenir estas consequências;
  • Reforçar as redes sociais: através do envolvimento de vários elementos do sistema (política, media, escolas, profissionais de saúde, comunidades de cidadãos, etc.), levando a empowerment, sentido de pertença e autoconfiança dos indivíduos;
  • Reduzir o dano causado por substâncias aditivas: quer através de maior taxação, ou limitando anúncios ou restringindo o seu acesso (por exemplo: limites de idade legais mais elevados), levam à prevenção das perturbações de abuso de substâncias e consequentemente de outras perturbações mentais.

Estes são só alguns exemplos de programas, que como podemos verificar, só são possíveis de aplicar através de uma abrangente colaboração entre as vários estruturas da sociedade.

Um exemplo de prevenção específica, o caso da depressão.

Como referido anteriormente, a depressão é uma das principais causas de incapacidade e morte prematura. É fundamental prevenir e tratar precocemente os estados depressivos. Mais uma vez existem estratégias comprovadas tanto de aplicação universal (intervenções dirigidas a uma população ou grupo populacional, geral, não identificado com base no risco aumentado), como de prevenção seletiva (em que o alvo são indivíduos ou subgrupos da população cujo risco de desenvolver doença mental é significativamente maior que a média) ou de prevenção indicada (cujo alvo são indivíduos de alto risco, identificados como tendo sintomas ou sinais “mínimos”, indicadores de provável desenvolvimento de doença mental).

A título de exemplo ficam aqui algumas estratégias de prevenção universal da depressão, de acordo com a faixa etária:

  • Crianças e adolescentes: Programas em meio escolar, reforçando perícias cognitivas, de resolução de problemas e sociais;
  • Adultos: Programas de gestão do stress e conflitos no local de trabalho; programas de promoção exercício físico; pprogramas de aumento da literacia em saúde mental;
  • Idoso: Programas de “envelhecimento ativo”, focando no exercício/ estimulação cognitiva e evitando o isolamento.

 

Resumindo e concluindo.

Os problemas de Saúde Mental são muito frequentes e estão associados a elevada incapacidade e morte prematura. É essencial investir na promoção da saúde mental e na prevenção das doenças mentais, sendo que muito pode ser feito a este nível. Desde medidas que focam a Saúde Mental como um todo abordando os seus determinantes gerais, até estratégias muito específicas que abordam apenas um problema e os seus fatores de risco e protetores específicos.

No entanto, para isto acontecer, é necessário a vontade de todos, desde os decisores na área da Saúde, passando pelos técnicos de Saúde (não só Mental) e claro, das associações de doentes e seus familiares, assim como de vários grupos de influência na sociedade. E claro, para que isto aconteça, é obrigatório que exista literacia em Saúde Mental, não podemos avançar neste campo enquanto os preconceitos, os mitos e as ideias erradas o dominarem.

DG 2016

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Divulgação: (Re)Descobrir a Psicopatologia – I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia

Serve o presente post para divulgar este evento científico que acho ser de ótima qualidade e uma oportunidade para discutir e atualizar, sobre um vasto número de temas na área da Psicopatologia. O I Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Psicopatologia.

Nos dias 8 e 9 de Abril de 2016 irá realizar-se na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa o 1º Encontro da Associação Portuguesa de Psicopatologia intitulado Re-Descobrir a Psicopatologia, que contará com a presença de um painel de palestrantes nacionais e convidados internacionais com temas subordinados ao âmbito das bases da Psicopatologia e os novos desafios que surgem para a sua reformulação.

I encontro associacao port psicopatologia.pngAqui fica o link onde poderão encontrar o programa: http://psicopatologia.pt/agenda/redescobrir

E o link para a página de facebook da Associação.

Encontramo-nos lá?

Abraços

DG 2016

 

 

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Divulgação: XXII Encontro da Adolescência, dias 5 e 6 de Março

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Aproveito este espaço para divulgar o XXII Encontro da Adolescência, promovido pelo Núcleo de Estudos do Suicídio e pelo Serviço de Psiquiatria do CHLN. Vai decorrer nos dias 5 e 6 de Março (2015), no Fórum Lisboa. “Os terapeutas dos adolescentes”; “O cérebro adolescente”; “Comportamentos suicidários”; “Sexualidades”; “Projectos comunitários” – são alguns dos temas deste encontro.

Anexo o programa:

XXII Encontro da adolescencia_1XXII Encontro da adolescencia_2

 

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