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Arquivo da Categoria: Histórias de Psiquiatria

Em modo de auto-reflexão

Keep Calm and Love PsychiatryHoje partilho convosco algumas reflexões sobre aquilo que é o meu dia a dia profissional.

Ser médico psiquiatra é algo que me transporta por emoções, histórias e caminhos sempre diferentes. Cada caso que sigo, cada pessoa que conheço, cada situação, leva-me a patamares de conhecimento (e autoconhecimento) pelos quais só posso estar grato.

Nas minhas consultas já vi e ouvi muita coisa. Este é, talvez, um dos maiores privilégios de trabalhar na área da saúde mental, a riqueza de histórias e de experiências a que temos acesso através das pessoas (e das famílias) que me consultam. Talvez isto se deva a um “atraso” na evolução da especialidade (ou não), mas muita da informação que preciso de recolher para tomar decisões médicas só é obtida num espaço de relação intimo entre paciente e terapeuta, para qual é necessário tempo e no qual há pouca interferência de máquinas, computadores ou exames.

Por vezes as situações são complicadas, por vezes são fáceis… Por vezes quase apetece pegar o paciente ao colo, enquanto outras vezes a pessoa que está à nossa frente desperta em nós sentimentos mais negativos… Claro que em qualquer dos casos o psiquiatra (ou qualquer outro terapeuta nesta área) se entrega, embora seja necessário criar o distanciamento emocional (na medida certa) que o doente precisa para se sentir seguro e à vontade na relação. Mas não duvidem que se sente muita coisa, e às vezes, depois de um dia de consultas parece-me que andei numa montanha russa de emoções.

Algumas situações resolvem-se numa consulta, outras precisam de seguimentos de anos. A diversidade é a norma na psiquiatria, daí a necessidade de flexibilidade mental e adaptação na forma de atuação, que faz a diferença entre um seguimento bem sucedido e um insucesso.

Por vezes sou recompensado com a melhor coisa que um médico pode querer… a pessoa melhora, os sintomas desaparecem, a doença fica controlada ou entra em remissão… sentir que se fez a diferença na vida de uma pessoa, que se evitou um suicídio, que o doente voltou a trabalhar, que este já consegue fazer coisas que não conseguia, que alterou comportamentos que o destruíam… é uma sensação maravilhosa!… Há, claro, o “outro lado da moeda”, casos que correm mal, que causam angústia ou em que me sinto impotente para ajudar a pessoa que tenho à frente. Como ser humano que sou… por vezes também falho. Mas tudo são aprendizagens. Afinal todo o caminho leva a algum lado e o acumular de experiências boas, más ou neutras, leva sempre a uma evolução pessoal (e mesmo científica).

Também (algumas vezes) há pessoas que sentem que devem dizer algo sobre o nosso processo terapêutico… recentemente a S., uma doente que conheci há uns anos e cujo o processo foi demorado e cheio de desafios enviou-me o email que transcrevo abaixo (com omissões de dados que a poderiam identificar). Foi um seguimento difícil, com altos e baixos, mas que com um trabalho em equipa entre psiquiatra, psicoterapeuta, família e… claro, a própria, se conseguiu dar “a volta por cima” (algo que nem ela, nem infelizmente outros terapeutas anteriores achavam que fosse possível). A S. concordou que partilhasse o seu testemunho, até porque quando o li achei que poderia servir como uma mensagem de esperança para todos os pacientes que estão a passar por situações difíceis ao nível da sua Saúde Mental.

“Antes de mais peço desculpa por não ter dito nada mais cedo, mas acho que tinha medo de deitar foguetes antes da festa, como se costuma dizer. Após ter falado com o Dr Diogo em novembro, deixei toda a medicação no dia 30 de janeiro deste ano. Foi difícil, pois obviamente tinha receio do que poderia acontecer. Foram muitos anos a tomar medicamentos, mais precisamente 6 anos e nunca pensei que fosse possível deixar, mas enganei-me.

Passados 7 meses estou melhor que nunca, não tenho problemas em dormir, não tenho variações de humor, não tenho qualquer tipo de pensamentos negativos como tinha antes, enfim pareço uma pessoa nova. Quero acreditar que foi só uma fase.

Tenho um trabalho bom, tenho a minha casa, uma relação estável e até tenho um gato. Cada vez penso mais em mim e no meu futuro, especialmente a nível profissional.

Estou muito bem, a nível psicológico estou fantástica, mal me reconheço e estou muito orgulhosa de mim e do que construí, mas nada disto seria possível sem vocês! Um obrigada é pouco! Obrigada por nunca desistirem de mim, por terem estado sempre do meu lado e acima de tudo por terem acreditado em mim!

Tinha de partilhar convosco as minhas conquistas, tive uma má fase mas conseguimos! Agora estou a olhar por mim e pelo meu futuro, espero conseguir grandes feitos e daqui a uns 5 anos começar a ter a família que sempre quis, mas não agora, agora estou a aprender quem sou e estou a adorar!

Mais uma vez obrigada por tudo, do fundo do coração, OBRIGADA!”

Eu é que agradeço a todos os meus pacientes, pela motivação e aprendizagens constantes. Todos os dias com novos desafios, gosto de fazer o que faço, dá-me significado.

Abraços a todos,

DG 2017

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Divulgação: Petição “Orçamento e respostas para a Saúde Mental”

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Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar a petição: «URGENTE – Orçamento e respostas para a Saúde Mental» no endereço http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT83322

Pessoalmente concordo com esta petição e cumpro com o dever de a fazer chegar ao maior número de pessoas, que certamente saberão avaliar da sua pertinência e actualidade.

Agradeço que subscrevam a petição e que ajudem na sua divulgação para os vossos contactos.

Obrigado.

DG 2016

 

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Os 160 anos de Freud

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nasceu há exactamente 160 anos. O seu nascimento não foi esquecido pelo Google, que o homenageou com um doodle. 

https://g.co/doodle/2qen5j

Somos como um iceberg, do qual só se vê a ponta. 

“Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.”
Sigmund Freud, in ‘Correspondência (1883)

 

Livro: “As Raízes do Sintoma e da Perturbação Mental”

Para todos aqueles que se interessam sobre a história da Psiquiatria, da Psicopatologia e do próprio conceito de doença e saúde mental, fica aqui a sugestão de leitura: “As Raízes do Sintoma e da Perturbação Mental“.

As Raízes do Sintoma e da Perturbação MentalRecém publicado pela Lidel, conta com a contribuição de vários colegas, de vários pontos do mundo. Fico orgulhoso por ter também participado nesta obra. Aqui fica a sinopse:

A doença mental e o sintoma, objetos da psiquiatria, não têm existência por si mesmos. Dependem de uma construção que resulta das decisões de certos agentes sociais que, num contexto social e histórico específicos, identificam que determinadas manifestações comportamentais constituem um sintoma ou uma perturbação. Assim se compreende que estes objetos, sendo fruto de uma conjetura social e do pensamento filosófico integrados numa época específica, devam ser investigados também através das ciências sociais e humanas (história, sociologia, filosofia).

Neste livro os autores exploram o contributo de alguns dos psiquiatras mais relevantes das principais escolas psiquiátricas (alemã, francesa, inglesa, espanhola, portuguesa e brasileira), fazendo assim uma aproximação às raízes históricas dos sintomas e das perturbações mentais, fundamental para compreender os critérios psicopatológicos atuais, refletir sobre a sua adequação aos tempos modernos e contribuir para a sua eventual revisão.

Elaborada por vários autores já consagrados e ligados às Faculdades de Medicina das Universidades de Lisboa e do Porto, ao King’s College (Londres) e à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, esta obra destina-se a todos os médicos psiquiatras e de outras especialidades, psicólogos, enfermeiros, estudantes destas áreas e outros interessados nos temas abordados.

“Este livro é um tributo ao passado e aos homens que fizeram da psiquiatria uma matéria médica e científica. Esperamos que este tributo seja apreciado e valorizado como merece ser.”

 

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Divulgação: Filme premiado sobre saúde mental em estreia

MUPI_Português_V4.2Divulgo esta informação que recebi e que me parece muito interessante; uma sugestão para os cinéfilos e não só:

Pára-me de repente o pensamento” de Jorge Pelicano, é um documentário cinematográfico que mostra uma visão pouco explorada sobre o mundo da doença mental através do olhar do ator Miguel Borges, que submergiu durante três semanas, na realidade do Hospital Psiquiátrico Conde de Ferreira (Porto) para a preparação e pesquisa de uma peça de teatro sobre a loucura. O ator acaba por integrar o grupo interno do teatro terapêutico constituído por alguns utentes que ensaiam uma peça a propósito dos 131 anos da instituição hospitalar.

A Miguel Borges é atribuído o papel de Ângelo de Lima, um poeta louco, criador do poema “Tédio”, publicado na revista Orpheu e que explora o “eu” esquizofrénico do autor naquilo que é um impressionante testemunho da “entrada na loucura”, como afirmou Fernando Pessoa.

“Pára-me de repente o pensamento” pretende contribuir para derrubar estigmas em torno da doença mental permitindo ao público, através dos testemunhos dos utentes na primeira pessoa, abordar: o lado humano, o irracional, o emocional e todos os outros lados que, afinal, constituem a complexidade humana.

Vencedor de vários prémios nacionais (Grande Prémio, Melhor Realizador, Prémio do Público nos Festival Caminhos do Cinema Português) o documentário continua a marcar presença em festivais internacionais.

O filme estreia oficialmente dia 7 de Maio numa sessão única no Teatro Nacional São João (Porto) que conta com a presença do realizador Jorge Pelicano e protagonistas. Durante a semana de 7-13 Maio, o filme terá exibições regulares no UCI Arrábida Shopping (Gaia) e Cinema City Alvalade (Lisboa).

Ambos os cinemas aderiram aos dias internacionais da “Festa do Cinema”. 11, 12 e 13 Maio os bilhetes são a um preço reduzido de 2,5€.

7 Maio I Teatro Nacional São João (Porto) I 21h (sessão de estreia com a presença do realizador)

7-13 Maio I UCI Arrábida Shopping (Gaia)

7-13 Maio I Cinema City Alvalade (Lisboa)

Website: http://www.paramederepenteopensamento.com

 

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Há semanas assim…

angry_birds_psychiatrist_caEsta última semana foi particularmente gratificante para mim em termos de prática clínica. Foi daquelas em que parecia que tudo corria bem, em que as soluções superavam as complicações. A maioria dos pacientes que consultei estavam óptimos, uma grande parte já em fases avançadas do processo terapêutico, muitos em fase de redução dos medicamentos, alguns a perspetivar a alta e vários que deram a volta a enormes problemas que enfrentavam.

Acompanhar as pessoas ao longo do tempo, ver a sua evolução, observar como lidam com as adversidades, como optimizam as suas potencialidades… é de facto algo único no meu trabalho. Sentir que a minha intervenção os ajudou, que quer as “conversas” (ou o trabalho psicoterapêutico) quer os medicamentos permitiram e contribuíram para estes resultados, é algo de extremamente gratificante e motivador… Penso que seja assim com a maioria dos médicos, que a sensação de fazer a diferença na vida da pessoa seja algo de extraordinário e, sem dúvida, o maior privilégio desta profissão.

Em conversa com um doente abordámos esta questão, é interessante ver que a relação entre o médico e o doente é algo de bidirecional, que tanto como nós médicos influenciamos de alguma maneira a vida do paciente, também este nos influencia. Como uma semana destas, por exemplo, dá energia e motiva para fazer “o meu melhor”, para me esforçar cada vez mais, para me atualizar e para aguentar aquelas semanas “menos boas”, em que parece que tudo corre mal e em que surge aquela eterna dúvida: “mas o que é que eu ando aqui a fazer?”. E isto para não falar das questões de aprendizagem, de uma forma mais clássica a questão da experiência (quanto mais doentes e situações clínicas diferentes observar, mais facilidade existe nos vários níveis de diagnóstico e intervenção) mas, de uma forma mais subjetiva, posso dizer que me farto de aprender com os meus pacientes.

E por isso não posso deixar de me sentir agradecido por este privilégio, que é o contacto humano com todas estas pessoas que já segui, que sigo atualmente e que no futuro irão partilhar comigo uma parte do seu caminho.

Por outro lado, muito me preocupam as notícias atuais. Ouço falar de limites de tempo de 10 minutos em consultas, de mortes nos serviços de urgência pois não há pessoal de saúde suficiente, da emigração de centenas de colegas meus, de situações de agressão nos centros de saúde. Como é possível esta desumanização do ato médico? Como se espera que nestes contextos se crie esta relação bidirecional que, a meu ver, é o essencial para que se consiga bons resultados (tanto para os pacientes como para os médicos)? Bom mas não me quero estender demasiado nestes assuntos mais negros… Tenho esperança que as coisas melhorem, que haja juízo e bom senso por parte “de quem manda nisto” e que tantos os doentes como os médicos se juntem na defesa de cuidados médicos humanizados (ao contrário de baseados exclusivamente em números).

Deste estado de boa disposição, partilho com vocês uma música que me deixa sempre bem disposto.

A todos um bem aja.

Abraços

DG 2015

 

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“Loucamente” – uma exposição no pavilhão do conhecimento a não perder

Fui hoje a esta exposição no pavilhão do conhecimento… Gostei, achei muito interessante e bem realizada. Apesar de ter ido com os meus miúdos e destes terem gostado de algumas das actividades, parece-me mais direccionada para o público adolescente e adulto.
Gostei muito da “barbearia”, do “esquizofone”, das simulações em realidade virtual para o tratamento de fobias, dos testemunhos e, especialmente, do “triturador de preocupações” –  toda a gente deveria ter um destes em casa! 🙂

Recomendo: http://www.pavconhecimento.pt/visite-nos/exposicoes/detalhe.asp?id_obj=3076

Abraços

DG 2014

"LOUCAMENTE" é a nova exposição temporária do Pavilhão do Conhecimento

“LOUCAMENTE” é a nova exposição temporária do Pavilhão do Conhecimento

O QUE É

LOUCAMENTE é a nova exposição temporária do Pavilhão do Conhecimento

Foi produzida em consórcio por três centros de ciência: Pavilhão do Conhecimento (Lisboa), Heureka (Helsínquia) e Universcience (Paris)

É a primeira exposição interactiva de um centro de ciência dedicada ao bem-estar da mente e pretende dar início a uma discussão pública sobre a saúde mental e o seu impacto pessoal e social

É uma exposição positiva sobre um tema complexo, que quer substituir o preconceito pelo conhecimento, o estigma pela compreensão e incentivar os visitantes a cuidar do seu bem-estar mental

Pode ser visitada até Setembro de 2015

O QUE O VISITANTE PODE FAZER

Experienciar num ambiente seguro como se sentem as pessoas com determinadas perturbações mentais

Simular a sensação de ouvir vozes vindas de todos os lados

Entrar na sala das fobias e na barbearia das psicoses

Pôr à prova a sua percepção corporal no espelho da auto-estima

Desfazer-se dos seus problemas no triturador de preocupações

Cometer loucuras saudáveis, como dançar ao som de uma música inspirada pela loucura

Descobrir como os especialistas em cada época trataram a depressão e a esquizofrenia

Testar o seu conhecimento sobre as doenças e o bem-estar mental

Conhecer as perturbações mentais e os seus tratamentos

Ouvir testemunhos de pacientes portugueses sobre as suas doenças mentais e a forma como lidam com elas

Testar a memória e a forma como percepciona as emoções

Enfrentar uma floresta repleta de situações assustadoras

Representar em frente a um espelho a emoção indicada pela máscara, usando o corpo

Expressar e desenhar os seus sentimentos com água

 

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