RSS

Arquivo da Categoria: DSM-5

Um dos Mitos da Psiquiatria

A meu ver um dos maiores mitos (ideias falsas) na Psiquiatria é o seguinte:

Os diagnósticos em Psiquiatria são apenas etiquetas para comportamentos normais.

Para quem nunca lidou com alguém com uma doença mental (como amigo, familiar ou mesmo técnico) pode parecer que determinados sintomas psicopatológicos são muito semelhantes a emoções ou comportamentos normais.

Por exemplo, como traçar a linha entre a tristeza normal e a patológica, ou quando é que falamos de timidez ou de ansiedade social, ou quando é que a organização se torna uma compulsão?

No entanto, tal como a diferença entre um tumor benigno e um cancro, os sintomas na perturbação mental são bem diferentes das emoções ou comportamentos “normais”. Habitualmente, quando determinada emoção ou comportamento se torna debilitante ao ponto do paciente não conseguir funcionar do ponto de vista profissional, social ou familiar, estamos muito provavelmente perante uma doença mental.

O diagnóstico (a “etiqueta”), apesar de todas as limitações que bem conhecemos, torna-se nestes casos particularmente importante por várias razões:

  • para o próprio paciente saber com o que está a lidar;
  • para os técnicos intervirem da melhor forma e de acordo com o que se sabe do ponto de vista científico para esse diagnóstico;
  • também para a evolução da ciência, pois é necessário que os investigadores falem uma linguagem comum para compararem resultados e discutirem as possíveis linhas de investigação.

Os problemas de saúde mental (ou doenças psiquiátricas) são muito frequentes. Na verdade, quase 1 em cada 5 portugueses terão um problema de saúde mental diagnosticável ao longo da sua vida, de acordo com os dados da Direção Geral de Saúde.

Felizmente, hoje em dia, há vários tratamentos eficazes, quer em termos medicamentosos, mas também várias psicoterapias e intervenções ao nível do estilo de vida (como a prática de exercício físico, a meditação e intervenções nutricionais).

Daí a importância de um diagnóstico precoce, pois o prognóstico das doenças psiquiátricas é muito melhor quando acompanhadas desde cedo, podendo levar à remissão total dos sintomas e à prevenção das consequências terríveis de uma doença mental não tratada (como por exemplo a incapacidade profissional, o corte de relações sociais ou familiares, ou, em casos extremos, o suicídio).

DG 2018

PS: Se quiser conhecer outros mitos carregue neste link.

 

Etiquetas: , , ,

DSM-5: controvérsias e o risco de “etiquetar os doentes”

labelsEstá prestes a ser publicada a nova versão da “Bíblia psiquiátrica” – a DSM-5, o manual de diagnóstico de doenças mentais da Associação de Psiquiatria Americana.

Não querendo cair em extremos não posso deixar de afirmar, pelo que foi até agora divulgado, que a nova versão deste manual deixa muito a desejar. Mantém-se no fundo como um dicionário, em que através do agrupamento e somatório de sintomas se chega a um diagnóstico/ rótulo/ etiqueta, deixando para a quase irrelevância as particularidades individuais e sociais das pessoas doentes, tal como os processo da doença (os mecanismos, a genética, a fisiopatologia, os achados imagiológicos e laboratoriais, etc.). Fica aqui o site da DSM-5, para formularem as vossas próprias opiniões.

Esta nova edição tem levado a reacções diversas e múltiplas controvérsias. Uma que me chamou a atenção é que está aqui noticiada: http://www.nimh.nih.gov/about/director/2013/transforming-diagnosis.shtml. Nada mais, nada menos, que a principal instituição responsável pelo financiamento da investigação psiquiátrica nos EUA, o NIMH – Nacional Institute of Mental Health – que diz o seguinte:

“Patients with mental disorders deserve better”.

“NIMH will be re-orienting its research away from DSM categories. Going forward, we will be supporting research projects that look across current categories – or sub-divide current categories – to begin to develop a better system”.

Concordo plenamente!

Apesar disto não posso desvalorizar o papel das classificações actuais na homogeneização da nomenclatura psiquiátrica. Antes do seu aparecimento ninguém se entendia nesta área, todos os técnicos e escolas tinham os seus nomes para as doenças, falava-se de coisas iguais com nomes diferentes, ou diferentes com nomes iguais ou, pior que tudo, os técnicos não conseguiam comunicar entre si porque não sabiam do que o outro estava a falar.

O grande problema clínico, para além do grande problema a nível de investigação acima descrito, é que algumas pessoas, habitualmente com menos experiência na área, tentam encaixar o doente nestes rótulos estritos, dando muito pouca importância a elementos que estão fora destes dicionários. Isto leva, evidentemente, a que se veja apenas “uma parte e não o todo”, com potenciais consequências negativas a nível da relação terapêutica, tratamento e prognóstico.

Torna-se cada vez mais clara a necessidade de uma boa base psicopatológica (aproveitando aqui para recomendar o livro em que participei recentemente – “Manual de Psicopatologia“) e científica (sobretudo na área das neurociências, mas também da farmacologia, da neuro-imagem, da imunologia, etc.) por parte dos técnicos que intervém na doença mental.

Citando: “Os doentes mentais merecem melhor…”, e completando: …não são etiquetas!

Abraços

DG 2013

 

PS: Deixo este artigo para complementar a leitura.

 

Etiquetas:

 
%d bloggers like this: