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Arquivo da Categoria: Reflexão doença mental

Sobre as intervenções nos comportamentos autolesivos

Acabei de chegar a Coimbra, depois de um longo dia de consultas e de uma semana de grande intensidade. Estou cansado, mas vai valer a pena pois amanhã vou estar no Fórum “Semana Psiquiátrica do CHUC: As Boas Práticas em Saúde Mental”, promovido pelo Serviço de Psiquiatria do Centro hospitalar e universitário de Coimbra, logo pela manhã para debater uma área que me é muito querida e na qual tenho desenvolvido a minha investigação: os comportamentos autolesivos. Estarei na Mesa Redonda “Comportamentos Autolesivos e Suicídio” e o título da minha comunicação é “Estratégias de intervenção em Comportamentos Autolesivos: um foco na adolescência

Vou voltar a frisar a importância do tema, da elevada prevalência de jovens que se magoam de propósito, que estão em sofrimento, muitas vezes sozinhos, recorrendo a cortes, a sobredosagens ou a outros métodos para tentar aliviar alguma da dor que sentem. A autolesão na adolescência é um forte preditor de suicídio consumado, está associada a diminuição da esperança de vida, a estilos de vida menos saudáveis, a menor capacidade de resolução de problemas, a dificuldades na gestão do stress e a doenças psiquiátricas como a ansiedade e a depressão.

self-harm

É fundamental ajudar estes jovens… agora a grande questão é como? O ideal seria prevenir, modificar fatores que predisponham o indivíduo para a autolesão, como por exemplo:

  • Melhorar a capacidade dos jovens em pedir ajuda
  • Reduzir os preconceitos associados às questões da saúde/ doença mental
  • Treinar o uso de estratégias de coping eficazes
  • Reforçar a autoestima
  • Promover a boa saúde mental na escola, em casa… na sociedade em geral

Um bom exemplo do que está a ser feito, neste aspecto, em Portugal é o projeto mais contigo.

Outra coisa importante seria identificar casos em risco, ou já com comportamentos autolesivos através dos programas de “porteiros sociais” ou gatekeepers, de modo a que se possa intervir precocemente, numa altura em que as coisas podem ser mais fáceis de gerir e se possa impedir o começo destes comportamentos ou o seu agravamento. Isto consegue-se a partir da formação de determinados elementos que entram em contato com os jovens, tais como: Técnicos de saúde (médicos de família ou dos serviços de urgência, enfermeiros, psicólogos, técnicos do serviço social, etc.); Professores ou auxiliares escolares; Farmacêuticos, sacerdotes ou mesmo certos pais. Este porteiros sociais, estariam treinados para:

  • o reconhecimento de sinais de risco
  • questionar de forma adequada o jovem
  • ter competências para persuadir o jovem a pedir ajuda, tal como para o referenciar adequadamente
  • seriam também uma primeira linha para lidar com situações de crise suicidária ou autolesiva

Isto está previsto no Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (PNPS) 2013-2017, mas a sua implementação tarda…

Por fim, quando a prevenção falhou e temos de intervir em jovens que já apresentam comportamentos autolesivos, entramos numa área nebulosa… Várias estratégias podem ser tomadas, muitas carecem de estudos que suportem a sua eficácia (apesar de parecerem muito lógicas ou de terem um elevado racional). Tendo em conta a heterogeneidade existente nos adolescentes com autolesão, torna-se pouco provável que uma abordagem única seja eficaz para todos os casos e mais uma vez é importante flexibilidade e bom senso. É muito provável que estratégias que envolvam vários intervenientes (como por exemplo: a família, os pares ou a escola) e que tenham uma abordagem integradora, apresentem efeitos mais sustentados do que aquelas demasiado estruturadas para se adaptarem às especificidades dos jovens com comportamentos autolesivos. Os medicamentos aqui têm um papel limitado, embora possam ser de vital importância para tratar doenças associadas como a depressão ou determinadas perturbações de ansiedade. Tudo aponta para que as intervenções psicossociais sejam as mais eficazes para prevenir o agravamento ou mesmo para interromper o ciclo da autolesão, algumas das mais estudadas (mas ainda muito pouco infelizmente) e que se revelam promissoras são:

  • Terapia de resolução de problemas e intervenção em crise
  • Terapia cognitivo-comportamental
  • Terapia familiar
  • Terapia comportamental dialética
  • Terapia de mentalização – mindfulness

No entanto uma metanálise recente de 2015, “Therapeutic Interventions for Suicide Attempts and Self-Harm in Adolescents: Systematic Review and Meta-Analysis, Clinical Guidance”, por Dennis Ougrin e colaboradores, revela resultados “agridoces”. Os efeitos destas intervenções ainda são sub-óptimos. Uma medida importante em medicina – NNT – number needed to treat – revela que em 14 intervenções só uma é eficaz na prevenção de comportamentos autolesivos futuros. Claro que isto é baseado ainda em poucos estudos e inclui apenas intervenções altamente estruturadas, que não consideram a individualidade do caso… Mesmo assim não é mau de todo, por exemplo o NNT das estatinas (terapêutica comum para baixar níveis de colesterol) de forma a prevenir um episódio de enfarte agudo do miocárdio é de 20…

Na minha experiência clinica, nada é mais importante do que ouvir – os jovens, a família – ajudar a procurar soluções alternativas à autolesão, dizer que não precisam de sentir vergonha, embaraço ou nojo… trabalhar em conjunto com psicoterapeutas, assistentes sociais, professores, família, amigos, etc. Tratar a depressão se existir. Insistir em estratégias saudáveis de coping – desporto, hobbies, falar abertamente dos problemas, pedir ajuda quando necessário… Perceber a dor, a raiva, a zanga… E o que eu vejo é que isto resulta, não é fácil, mas é possível.

Um abraço e até breve.

DG 2015

not easy but worth it

 

 

 

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De volta… e algumas coisas que aprendi.

Caros leitores do blogue,

Voltei de férias, já há alguns dias, mas isto de tirar 3 semanas de férias tem a sua contrapartida. O regresso está a ser uma loucura (até mesmo pelo padrão de psi)! Entre consultas e formações, pendentes e telefonemas, relatórios e situações urgentes… ainda não consegui voltar “à normalidade”. Mas espero que o consiga em breve e que assim possa voltar à carga no blog…

O regresso a Lisboa foi curto, pois de seguida parti para um congresso importante na área da Psiquiatria, o Congresso Europeu de Neuropsicofarmacologia. Assisti a sessões impressionantes, que mostraram o muito que se tem avançado no conhecimento das doenças psiquiátricas, dos sintomas psicopatológicos e do seu tratamento.

NeuroBrainOs avanços na área da neurociência são fascinantes e o cérebro é, de facto, de uma complexidade sem paralelo. Vou partilhar com vocês dois dos tópicos que me impressionaram mais.

O primeiro relaciona-se com os correlatos neurais da adversidade precoce. No fundo, algo que nenhum “psiquiatra moderno” quer admitir, parece que o Freud lá tinha alguma razão na sua teoria… experiências traumáticas precoces (adversidades como falta de afeto, pobreza, elevado stress familiar) levam a uma reconfiguração permanente do cérebro, com alteração da expressão genética, que se mantém ao longo da vida e que perante futuros fatores de stress (por ex: desemprego, desilusão amorosa, consumo de substâncias) pode levar ao aparecimento de problemas de saúde mental. E isto é algo que se vê com técnicas muito avançadas de neuroimagem! Uma das coisas que Tallie Baram e os seus colegas da universidade da Califórnia descobriram é que os principais fatores que levam a esta vulnerabilidade acrescida são os comportamentos dos cuidadores imprevisíveis e fragmentados. Portanto para proteger o cérebro das nossas crianças é mesmo necessário que hajam rotinas e que haja tempo dos pais (cuidadores) para estar emocionalmente com os filhos. Só assim se pode evitar a imprevisibilidade e a fragmentação que podem levar a consequências severas no futuro. Para quem tiver mais interesse neste tópico recomendo este artigo científico.

O segundo relaciona-se com as evidências cada vez mais contundentes que a depressão não é apenas uma doença relacionada com disfunção dos neurotransmissores (por exemplo: a serotonina), mas que tudo aponta para que tenha um elevado componente inflamatório. Sim, esse mesmo mecanismo responsável pelos nossos sintomas quando estamos constipados ou que leva ao combate de uma infecção na pele, quando ocorre de forma desregulada pode ser responsável (através de vários mecanismos altamente complexos) por lesões de células neuronais em áreas chave. Verificou-se que as pessoas com mais resistência ao tratamento antidepressivo têm maiores níveis de marcadores inflamatórios... e isto poderá trazer uma abordagem totalmente diferente e inovadora do tratamento das depressões resistentes. Para além de explicar algo que se vê muito na prática clinica, que é a associação entre depressão e várias doenças autoimunes, assim como ajudar a explicar porque razão existem tantos sintomas “físicos” para algo que se passa no cérebro. Para quiser aprofundar recomendo este artigo.

Até à próxima!
DG 2015

 

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Livro: “As Raízes do Sintoma e da Perturbação Mental”

Para todos aqueles que se interessam sobre a história da Psiquiatria, da Psicopatologia e do próprio conceito de doença e saúde mental, fica aqui a sugestão de leitura: “As Raízes do Sintoma e da Perturbação Mental“.

As Raízes do Sintoma e da Perturbação MentalRecém publicado pela Lidel, conta com a contribuição de vários colegas, de vários pontos do mundo. Fico orgulhoso por ter também participado nesta obra. Aqui fica a sinopse:

A doença mental e o sintoma, objetos da psiquiatria, não têm existência por si mesmos. Dependem de uma construção que resulta das decisões de certos agentes sociais que, num contexto social e histórico específicos, identificam que determinadas manifestações comportamentais constituem um sintoma ou uma perturbação. Assim se compreende que estes objetos, sendo fruto de uma conjetura social e do pensamento filosófico integrados numa época específica, devam ser investigados também através das ciências sociais e humanas (história, sociologia, filosofia).

Neste livro os autores exploram o contributo de alguns dos psiquiatras mais relevantes das principais escolas psiquiátricas (alemã, francesa, inglesa, espanhola, portuguesa e brasileira), fazendo assim uma aproximação às raízes históricas dos sintomas e das perturbações mentais, fundamental para compreender os critérios psicopatológicos atuais, refletir sobre a sua adequação aos tempos modernos e contribuir para a sua eventual revisão.

Elaborada por vários autores já consagrados e ligados às Faculdades de Medicina das Universidades de Lisboa e do Porto, ao King’s College (Londres) e à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, esta obra destina-se a todos os médicos psiquiatras e de outras especialidades, psicólogos, enfermeiros, estudantes destas áreas e outros interessados nos temas abordados.

“Este livro é um tributo ao passado e aos homens que fizeram da psiquiatria uma matéria médica e científica. Esperamos que este tributo seja apreciado e valorizado como merece ser.”

 

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Humores musicais

Adoro esta música de Radiohead, e muito nos fala sobre o sofrimento, a angústia de uma psicose.

A psicose é definida como a incapacidade de distinguir entre a experiência subjectiva e a realidade externa, ou seja, existe uma perda de contacto com a realidade!

Please could you stop the noise,
I’m trying to get some rest
From all the unborn chicken voices in my head
What’s that?
What’s that?

A psicose é um estado incompreensível para quem está “de fora” é, de todo, impossível perceber o modo de pensar de alguém psicótico, tudo é estranho e nada faz sentido.

Os sintomas mais comuns de psicose são os delírios e as alucinações.

  • Delírio – convicção falsa e inabalável, fora do contexto social e cultural do doente, de origem mórbida, não sendo possível modificar através da demonstração do real.
    Ex: Um doente que acredita que os “extraterrestres lhe implantaram um chip no cérebro para o controlar”. Não cede a qualquer argumento dizendo que isso é impossível, chega a fazer uma TAC de Cérebro que não mostra qualquer chip e mesmo assim defende-se dizendo que “a tecnologia extraterrestre é muito avançada e não é possível detectar na TAC”.

    Delírio persecutório ou paranóia – é a forma mais comum de delírio, com ideias delirantes de prejuizo e vivência de que existe uma agressividade contra o doente. O doente sente-se ameaçado, atacado, incomodado, prejudicado, perseguido ou vitima de uma conspiração, envenamento ou tentiva de morte (in Manual de Psicopatologia)

  • Alucinações – Experiências perceptivas (sensações) tomadas por reais na ausência de estímulo externo correspondente. Para o doente é impossível distinguir as alucinações das verdadeiras percepções. Podem ser auditivas (vozes), visuais (pessoas, vultos, imagens), sensitivas (toques, calor), olfactivas (cheiros) e gustativas (sabores).
    Ex: O mesmo doente de cima ouve as “vozes de Marte, que lhe dizem o que deve fazer” e ao mesmo tempo, quando não lhes obedece, sente calor na cabeça, o que interpreta como “o chip a queimar-lhe o cérebro”.

Para além destes sintomas é frequente observar-se

  • Comportamentos estranhos – que podem ser causados pelos delírios (ex: entrar numa loja e vasculhar todos os recantos à procura de microfones), pelas alucinações (ex: as vozes obrigam-no a andar sempre com as mãos na cabeça), ou mesmo pela doença causadora da psicose.
  • Isolamento social – a maioria destes doentes acaba por se isolar, deixa a escola, o emprego, deixa de estar com os amigos.
  • Desconfiança – é possível que desconfiem dos outros, que sintam que eles fazem parte de uma conspiração ou que o querem matar.
  • Alterações de personalidade – muitas das vezes existem alterações marcadas da maneira de ser, por exemplo determinada pessoa muito extrovertida, conversadora e que gostava de sair à noite, pode ficar muito virada para dentro, deixar de socializar, ter medo de falar com os outros.
  • Alterações do humor – tanto depressões, como euforias podem ser vistas associadas a psicose. Outras alterações podem ser a incapacidade de ajustar o humor ou a labilidade emocional.
  • Desorganização – pode ser vista a nível do pensamento ou das acções. Parece fazer “coisas sem sentido” ou pensar de forma não lógica.

O que pode causar uma “Psicose”?

O termo psicose refere-se a um conjunto de sintomas, em que o principal organizador é a perda de contacto com a realidade. Múltiplas doenças e perturbações podem apresentar-se como psicose, na adolescência estas são as mais frequentes:

  • Esquizofrenia: tem habitualmente o seu começo na adolescência tardia e só muito raramente aparece antes da puberdade. É uma doença crónica, que afecta cerca de 0,5% da população, apresenta múltiplos sintomas psicóticos.
  • Depressão: em casos graves de depressão é possível apresentar sintomas psicóticos (ex: ouvir vozes que dizem que a pessoa é um fracasso; ter um delírio em que a pessoa acha que já morreu).
  • Doença bipolar: tanto na depressão, como na fase de mania é possível estar psicótico (ex: um bipolar em fase maníaca pode ter a convicção delirante que é um profeta).
  • Drogas: A causa mais frequente de psicose durante a adolecência é o abuso de drogas. O abuso de drogas como Cannabis (Marijuana), LSD (Ácidos), Metanfetaminas (Speeds, Pastilhas), Ecstasy e Cocaína (crack), pode levar ao aparecimento de um quadro psicótico, por vezes prolongado e que pode evoluir para Esquizofrenia. Fica o exemplo: estudos indicam que o uso de cannabis aumenta o risco de psicose entre 2 a 9 vezes! Muitos utilizadores de cannabis sentem sintomas psicóticos ligeiros após fumarem, por exemplo, notam que na rua as pessoas olham para eles de maneira diferente (delírio de auto-referência).

O que fazer?

Muitas vezes, as pessoas que sofrem de psicose não reconhecem que estão doentes, muitos não irão pedir ajuda pois tem medo de ser rotulados como “malucos”. Se conhece alguém que pensa estar psicótico, deve levar essa pessoa a um profissional de saúde o mais rapidamente possível.

Existem riscos próprios à psicose, por exemplo, o doente pode matar-se porque as vozes lhe disseram para fazer isso ou pode atirar-se de uma janela porque acha que pode voar. Para além disto a psicose está associada a doenças que, se não forem tratadas rapidamente, podem evoluir para formas crónicas e com “degradação cerebral”.

Existem tratamentos eficazes para a psicose, quanto mais cedo melhor!

Um abraço

DG 2015

 

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A ficar “engripado”… e a propósito: “malditas citoquinas”!

gripeBom, parece que não me escapo… Gosto muito do Inverno, dos dias frios, da chuva, das conversas no interior dos cafés a beber um chá, de estar em casa e ligar a lareira; mas há algo que odeio definitivamente: ficar constipado! (Leitores brasileiros: constipado não é um problema dos intestinos… em Portugal, é síndrome gripal). E hoje começou a atacar forte, lá começam os lenços de papeis a surgir durante a consulta (que mau aspecto), os espirros, o “é melhor não se aproximarem”…

É realmente deprimente estar constipado… e depois, para além do mal-estar provocado pela infecção (e resposta do organismo), que já nos deixa de rastos, e do facto de toda a gente nos parecer evitar, parece que a nossa própria resposta imune leva a sintomas depressivos e ansiosos… Malditos mediadores inflamatórios (também chamados citoquinas ou citocinasninguém sabe bem como se escreve isto em português.)! É por isso normal quando estamos doentes sentirmos maior irritabilidade e ansiedade, assim como retraimento e perda de interesse por atividades… São os “blues das constipações“.

Este estudo publicado no Archives of General Psychiatry fala mesmo disto, reparem na conclusão: “In humans, a mild stimulation of the primary host defense has negative effects on emotional and memory functions, which are probably caused by cytokine release. Hence, cytokines represent a novel target for neuropsychopharmacological research”. É curioso que um dos alvos de futuras medicações na Psiquiatria é o sistema imunitário.

Bom, vamos lá restablecer o stock de lenços de papel…

Abraços

DG 2015

 

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Quando o pânico se instala…

A perturbação de pânico é muito frequente, tendo uma prevalência estimada de 2 a 3% em adolescentes e adultos. Tal como a maioria das perturbações de ansiedade é mais frequente em mulheres (2 a 3 vezes mais) e é uma perturbação que se inicia habitualmente em idades jovens (tipicamente na segunda ou na terceira década).

A sua característica principal é a ocorrência de ataques de pânico repetidos e inesperados, durante um período de pelo menos 1 mês, associados a medo e preocupações intensos relativos à sua recorrência ou implicações.

mcqueenpan61Uma coisa que poucos sabem é de onde surge o nome “pânico“… E é incrível que se fala de pânico desde a antiga Grécia! De facto uma das figuras mais conhecidas da mitologia grega dá origem a este nome: o semideus Pan (o deus dos bosques, dos campos, dos rebanhos e dos pastores). As lendas dizem que Pan vivia nos trechos solitários que separavam as cidades-estado gregas, e que era travesso! Uma das diversões favoritas de Pan era a atormentar os viajantes que atravessavam estas estradas solitárias. Pan ficava à espreita, escondido no mato, à espera de suas vítimas e quando um viajante passava perto do seu esconderijo, começava a tortura. Fazendo sons nas trevas, remexendo nos arbustos, criava uma sensação de apreensão no pobre viajante. Então este começava a correr, a fugir, e Pan corria à sua frente através da floresta, aguardando no próxima curva escura do caminho. Lá voltava ele aos seus gritos, barulhos, induzindo no viajante o terror. Por esta altura a pobre vítima iria começar a respirar mais profundamente, o seu coração começava a bater forte, e os sons dos seus próprios passos acelerados seria ampliados na quietude da floresta para se assemelharem aos de um animal selvagem que o perseguia. Mais um farfalhar dos arbustos, mais um uivo assustador e o viajante fugia a sete pés o mais rápido que conseguisse ao longo do trajeto da floresta escura e estreita. Que nenhum viajante entrasse nos seus bosques sem experimentar uma onda de apreensão, assim fazia Pan para manter os intrusos humanos fora do seu reino. Daqui surgiu o termo pânico.

Os ataques de pânico são períodos breves de medo ou desconforto intenso, acompanhados de vários sintomas físicos e psíquicos de ansiedade, tais como: palpitações; sudorese; tonturas; sensação de falta de ar ou engasgamento; tremor; desrealização (sentir que o mundo é irreal, como num sonho) ou despersonalização (sentir-se desconectado de si mesmo). Tipicamente os ataques de pânico chegam à sua intensidade máxima em 10 minutos e duram cerca de 30 a 45 minutos. Habitualmente as pessoas que sofrem de um ataque de pânico pensam de forma catastrófica, achando que vão morrer, que estão a “ficar loucos” ou que estão a perder o controlo.

Ter um ataque de pânico não significa que se esteja perante um diagnóstico de perturbação de pânico, estes podem ocorrer em pessoas sem qualquer doença em situações de grande stress, podem ocorrer no contexto de determinadas fobias (por exemplo, medo de falar em público pode desencadear ataques de pânico), no contexto de abuso de substâncias (cannabis ou cocaína por exemplo) e podem ocorrer em determinadas doenças físicas (como por exemplo no caso de problemas de tiróide, na asma, em certas arritmias cardíacas). Assim sendo é de grande importância fazer um bom diagnóstico diferencial.

O que origina a perturbação de Pânico?
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Sabemos hoje que esta doença é causada por uma “desregulação” do nosso sistema de alarme interno. Estudos de neuroimagem cerebral sugerem a hiperatividade dos centros do medo (que têm como função ativar o nosso organismo perante ameaças para entrar em modo de luta ou fuga) caso da amígdala, do tálamo, do hipotálamo; verifica-se também uma desregulação do controle respiratório no tronco encefálico, assim como hiperreatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Vários fatores foram implicados na génese da perturbação de Pânico: genéticos (o risco é 5 vezes maior nos parentes de primeiro grau); ambientais (até 80% dos pacientes relatam ter sofrido eventos negativos importantes em suas vidas antes da manifestação inicial dos ataques); psicológicos (é comum observar-se sensibilidade à ansiedade, ou a tendência a interpretar os sintomas físicos de forma errónea como perigosos).

Como se trata?

Trata-se de uma situação de óptimo prognóstico. É comum relatar taxas de cura acima dos 90% quando a situação é manejada de forma óptima. As modalidades de tratamento de primeira linha incluem fármacos (inibidores seletivos de recaptação de serotonina ou inibidores da recaptação de serotonina-noradrenalina) ou psicoterapia (habitualmente cognitivo-comportamental).

Aqui fica uma breve síntese sobre a perturbação de pânico, espero que seja útil.

Um abraço

DG 2015

 

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O que NÃO dizer a alguém com doença mental

doenças mentais o que não dizer

 

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